domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Educação

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Universitário cria site para ajudar estudantes do Ciência sem Fronteiras com dicas e relatos de experiências

My CSF tem 15 mil inscritos e quer contribuir para a melhoria do ensino superior brasileiro

foto edna site

Peirol Gomes durante palestra que ministrou flando falando “Como o CSF pode mudar a sua vida”. (Foto: Divulgação)

O sonho de Peirol Gomes é melhorar o ensino universitário brasileiro a ponto de ver ele bem situado nos rankings internacionais. Esse jovem de 25 anos é aluno do último ano do curso de Engenharia de Gestão da Universidade Federal do ABC (UFABC) e diretor fundador do site My CSF, um espaço dedicado a ajudar os estudantes que participam do Programa Ciência sem Fronteiras. Gomes participou do programa e teve a oportunidade de estudar na University of Alabama, em Huntsville, e também na Stanford University. Apaixonado por empreendedorismo e por educação, ele vê o Ciência sem Fronteiras como uma das principais formas de transformação da sociedade brasileira.

Em entrevista ao Jornal da Ciência, Gomes conta sobre o sucesso do seu site, que já tem 15 mil inscritos e 30 mil acessos por mês, e fala de seus planos para o futuro.

Jornal da Ciência – Como foi sua experiência no Ciência sem Fronteiras?

Peirol Gomes – Como bolsista do CsF tive a oportunidade de estudar em três diferentes universidades nos EUA, uma no Colorado, outra no Alabama e por fim em Stanford. Fiz Engenharia de Computação durante o programa, mas hoje meu curso no Brasil é Engenharia de Gestão, que é basicamente a mesma coisa que Engenharia de Produção. O que eu achei mais legal desse período foi que eu conheci três modelos educacionais bastante distintos e isso me chamou a atenção, porque até mesmo nos EUA, considerado um país com um ensino de excelência, os modelos são muito distintos.

JC – Como surgiu a ideia do site My CSF?

PG – Quando eu voltei para o Brasil algo começou a me incomodar muito: o fato de as aulas serem tão diferentes do que eu havia vivenciado nos EUA, o comportamento, a relação professor-aluno, isso começou a me incomodar demais. Então, eu decidi que iria fazer alguma coisa para mudar isso, só não sabia como. Pensei que o Ciência sem Fronteiras poderia ser um agente de mudança para tudo isso, porque querendo ou não são 100 mil pessoas que estão indo para o exterior para estudar nas melhores universidades do mundo. Daí, eu criei o site e no começo eu dava o maior número de dicas para o pessoal que ia participar do CsF na esperança que eles aproveitassem o programa cada vez mais. Esse foi o processo do site.

JC – O site está atingindo seus objetivos?

PG – Atualmente, o site tem cerca de 15 mil pessoas cadastradas e 30 mil acessos por mês. O que a gente faz é tentar engajar o bolsista desde o começo. Damos muito apoio ao bolsista durante o processo para que ele faça parte do programa e também quando ele está fora do País. Temos uma série de cartilhas com dicas com download gratuito, essas cartilhas já atingiram mais de 12 mil downloads. A gente tenta engajar o aluno desde o começo para que na volta ele não sinta que é uma obrigação, mas queira dar um retorno para a sociedade, já que ele foi ajudado, então não custa nada retribuir contando o que eles aprenderam.

Com o site, começamos a dar os primeiros passos na direção de utilizar o CsF numa oportunidade para melhoria do ensino superior brasileiro com o projeto “Por uma nova educação”.

JC – Como é esse projeto?

PG – Esse é o projeto principal do site, onde basicamente nossa ideia é aproveitar melhor a experiência do bolsista do CsF. Ele estuda nas melhores instituições do mundo e quando ele volta não se pergunta nada para ele. Então, aos poucos a gente está fazendo uns textos comentando toda a experiência desse pessoal lá fora: como é o primeiro dia de aula, como é o professor, como os professores resolvem os trabalhos com notas, como é a relação do professor com o aluno. A gente aos poucos está fazendo isso e está começando a dar resultados. Temos recebido comentários de professores brasileiros que pensam em adaptar algumas dessas experiências.

JC – E como essas ideias estão sendo aproveitadas?

PG – As informações estão sendo bem recebidas. Estamos vendo que existe uma carência nessa área e estamos ao máximo tentando compartilhar essas experiências com as instituições de ensino, para que cada universidade, cada um veja o que é o melhor para sua universidade e adapte o que for melhor. Não dá para falar que há uma verdade absoluta, ou que cada universidade tem que funcionar num determinado modelo. O que fazemos é dar opções para que a própria universidade escolha e veja o que pode ser melhor aplicado na instituição.

JC – Qual o próximo passo?

PG – Além desses pequenos textos, realizamos algo muito importante, uma pesquisa com os egressos desse programa da Universidade Federal do ABC perguntando como eles achavam que a experiência na universidade estrangeira poderia melhorar a universidade daqui. Isso gerou um artigo que vai ser publicado ainda neste mês de maio.

JC – E o que essa pesquisa apontou?

PG – No geral coletamos muitas opiniões dos alunos falando sobre diferenças na estrutura do campus, sobre o modelo de ensino, sobre a relação universidade-indústria, sobre os professores, os alunos, sobre a relação professor-aluno, e também sobre estágios.

JC – Você acredita que o programa CsF contribua mais para a formação profissional dos jovens ou para a melhoria do ensino universitário brasileiro?

PG – Se pegarmos o CsF daqui a 15, 20 anos o impacto será muito grande no País, porque essas pessoas que estão indo hoje para fora, que mudaram sua mentalidade, começaram a ver o mundo de uma outra forma, elas vão estar ocupando posições de liderança na sociedade, e isso vai trazer um impacto muito grande para o Brasil.

Hoje, o que tentamos fazer com a ajuda do site é trazer essas histórias, contar o que aconteceu por lá, para que essas histórias fiquem mais próximas da sociedade brasileira.

JC – Além do site, você visita as universidades, fala aos alunos e professores?

PG – Isso é o que mais estamos querendo fazer no momento, começar a dar palestras sobre isso. Recentemente, estivemos num evento de educação em Cuiabá e apresentamos uma prévia da pesquisa realizada com os alunos da UFABC. Os professores que estavam presentes demonstraram muito interesse pelo trabalho, gostaram muito e queriam compartilhar essas ideias nas suas respectivas universidades. Então, a gente está muito aberto para isso, queremos muito fazer palestras para disseminar esse conteúdo e também para escutar a opinião dos professores, para poder conciliar os dois lados, pois para que a mudança ocorra é preciso ter tanto o professor quanto o aluno. Nosso próximo passo é disseminar esse conteúdo o máximo possível.

JC – O Brasil já está conseguindo retorno desses alunos que participaram do CsF ou ainda é muito cedo para isso?

PG – Acho que sim, existem muitos alunos dando retorno, existem vários projetos que já são realidade. Por exemplo, tem um aluno, o André Sionek, que lançou uma revista de divulgação científica, a Polyteck (www.polyteck.com.br). Tem outro aluno, o Caio Guimarães, que recebeu um prêmio de bolsista Harvard-MIT. Então, tem vários exemplos muito bacanas. O programa está tendo um impacto muito grande e a gente tenta contar esses grandes casos.

JC – No site tem uma frase que diz que o “CSF é um dos melhores programas criados até hoje”, você acredita nisso? Por que?

PG – Há diversos pontos a considerar, um deles é que há cerca de 100 mil pessoas que estão sendo impactadas e essas pessoas a médio e longo prazo, no meu ponto de vista, vão ocupar importantes cargos na sociedade brasileira. O programa selecionou áreas e está pegando os melhores estudantes dessas áreas e colocando eles para ter uma vivência de mundo, de um mundo globalizado, para aprender a conviver com diferentes culturas, ter novas visões de mundo. Depois de tudo isso essa pessoa volta para o Brasil com uma vontade de mudança. Acredito que um dos maiores benefícios do CsF é a inquietação que ele coloca na pessoa quando ela volta do programa, porque ela viu uma realidade lá fora e quando chega aqui é uma realidade totalmente diferente.

Outro fator que torna esse programa um dos melhores na educação é o alcance que ele está tendo, pelo número de pessoas que estão sendo levadas para as melhores universidades do mundo. Esses estudantes em breve terão um impacto muito grande na sociedade. Quando se discute sobre a melhoria do ensino é sempre sobre o ensino básico, fundamental, ensino médio, nessa discussão o ensino superior é deixado de lado. Quando se tem um programa dessa magnitude interessado levando estudantes para ter essa convivência fora, ter essa formação fora do Brasil, isso tem um potencial absurdo de criação e de inovação.

JC – O que pode melhorar no CsF?

PG – O processo de gestão do programa dá para melhorar bastante e acho que falta a cobrança de um retorno do estudante, por mais que o governo não cobre isso dos estudantes, acho que deveria ser um pouco mais implícito na cabeça do estudante. Esse estudante deveria saber que o investimento que ele está recebendo é a sociedade toda que está pagando. Então se ele pudesse de alguma forma dar um retorno, acho que isso poderia mudar um pouco no programa, as pessoas deveriam ter mais essa mentalidade nesse programa, essa mentalidade do retorno.

JC – Quais os planos para o futuro?

PG – Esse ano ainda atingir 50 mil pessoas, bolsistas do programa, nos tornar uma grande referência para a discussão do ensino superior, tentando trazer todo esse conteúdo que a gente está tendo oportunidade de conhecer. Vamos em breve transformar o projeto “Por uma Nova Educação” num site a parte com entrevistas, para colocar o ensino superior na pauta das discussões. E aproveitar a experiência que a gente está tendo com os bolsistas lá fora para propor melhorias e dar sugestões.

Em julho, vamos lançar uma plataforma para ajudar os bolsistas do programa a encontrar estágios quando eles voltarem ao Brasil. E cada vez mais melhorar o site para que chegue ao ponto de criar e fortalecer uma rede entre essas pessoas.

Para conhecer o site acesse www.mycsf.com.br

Edna Ferreira /Jornal da Ciência