sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Prontuário eletrônico é uma das políticas mais citadas por diferentes candidatos, enquanto há divergências sobre a participação do setor privado na gestão da Saúde, aponta análise da SBPC
A importância do Sistema Único de Saúde (SUS) é reconhecida pelos planos de governo de todos os 13 candidatos à presidência da República. Entre propostas de expansão, dedicadas ao aparato financeiro, e de modernização, voltadas à aplicação tecnológica, os presidenciáveis apresentam soluções que envolvem o uso de inteligência artificial (IA) na triagem de pacientes, a criação de prontuários eletrônicos nacionalmente conectados e a ampliação da telemedicina. Entretanto, a maior divergência é sobre a participação privada nas políticas de Saúde.
Os candidatos Escritor Augusto Cury, Flávio Bolsonaro, Leonardo Avalanche, Lula, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Zema defendem a modernização do Sistema Único de Saúde, mas com Cury, Bolsonaro, Santos, Avalanche e Zema ressaltando a necessidade de expansão da iniciativa privada nas políticas de Saúde. Santos compara suas ideias à implementação do aplicativo DoctorSV, criado em El Salvador, onde potencializou o atendimento remoto. A política, lá, foi criticada por ter sido acompanhada por demissões de profissionais da saúde.
Com pensamento de defesa à expansão orçamentária do SUS – e não necessariamente sua modernização tecnológica –, os candidatos Hertz Dias, Rui Costa Pimenta e Samara criticam a participação da iniciativa privada, alegando que o SUS deve ser um Sistema 100% estatal. Já o candidato Edmilson Costa se aproxima das políticas defendidas por Lula e já aplicadas no mandato em andamento (2023-2026), que envolve a integração das políticas de Saúde com políticas industriais e a defesa do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).
Esses diagnósticos compõem uma análise realizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com base nos documentos submetidos pelas candidaturas ao TSE. Para a análise, a SBPC iniciou a busca pela palavra-chave “SUS” e averiguou as partes dos documentos dedicadas às políticas de Saúde. Posteriormente, houve uma leitura analítica dos planos de governo, de modo a identificar se a promoção às políticas de saúde estava inclusa em outros setores, como políticas sociais e de Educação, entre outras.
A análise é parte das iniciativas do Observatório das Eleições 2026, uma ação da SBPC que reúne candidatos de diferentes esferas públicas que se comprometem abertamente com o desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no País. O Observatório convida ainda os candidatos e a população eleitora a conhecerem o documento “Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos”, que reúne 117 propostas organizadas em sete eixos temáticos – sendo o sétimo deles focado em Saúde Pública, Saúde Mental e Vigilância:
“O SUS é, ao mesmo tempo, o maior patrimônio sanitário do país e um sistema permanentemente ameaçado por cortes e pela interferência política sobre decisões técnicas. Este eixo articula três frentes que a pandemia mostrou quanto são indissociáveis: o financiamento estável do sistema, a soberania tecnológica em insumos e dados de saúde, e a proteção da autonomia das autoridades sanitárias diante da desinformação e de iniciativas que enfraquecem a confiança pública na ciência e nas instituições de saúde”, explica a SBPC no documento.
Presidenciáveis têm visão, mas falta conexão com o potencial da Ciência
No comparativo com as propostas do caderno “Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos”, as propostas dos presidenciáveis atendem a princípios de fortalecimento do SUS, mas carecem de aprofundamento e dependem excessivamente da iniciativa privada.
A preocupação com a gestão da informação é praticamente uma unanimidade. Neste caso, a comunidade científica sugere um aprofundamento das ideias apresentadas nos planos de governo, com a criação de uma Plataforma Nacional Soberana de Dados em Saúde, com acesso regulamentado, governança transparente e a aplicação integral da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) – “os dados de 170 milhões de usuários do SUS são patrimônio nacional e questão de segurança”, justifica o documento.
Entretanto, pontos centrais para a comunidade científica não se encontram nas propostas documentadas. É o caso da garantia de proteção do financiamento do SUS e dos hospitais universitários federais em relação às políticas de austeridade, os reconhecendo como infraestruturas de segurança sanitária nacional, e não como despesa discricionária.
Outro ponto importante de defesa da comunidade científica é a criação de um programa de Estado para biotecnologia em saúde, articulando Fiocruz, Butantan, universidades e CEIS, com horizonte de 20 anos e meta de 70% de autossuficiência em insumos estratégicos.
Por fim, o caderno “Vozes da Ciência” também defende o fortalecimento das políticas de saúde atreladas à população idosa, um tema presente apenas em alguns planos de governo: do Escritor Augusto Cury, Flávio Bolsonaro, Hertz Dias, Leonardo Avalanche, Lula, \Ronaldo Caiado, Samara e Zema. Entretanto, assim como os temas anteriores, há uma falta de aprofundamento e conexão com evidências e políticas científicas.
Confira abaixo as análises detalhadas por presidenciável, organizadas em ordem alfabética conforme seus registros no TSE:
Candidata do partido Democracia Cristã (DC), Clariana Barão tem um plano de governo totalmente estruturado em tópicos e sugestões de indicadores. No tópico dedicado à Saúde, o SUS pouco aparece, defendendo apenas a incorporação de Inovação e novas terapias, mas sem detalhes.
Edmilson Costa, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), defende um Sistema Único de Saúde forte, público, gratuito e de qualidade, o que só seria possível com a ampliação de investimentos no Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Costa também propõe a criação de Conselhos Populares de Saúde, responsáveis pela gestão do órgão; além do aprimoramento dos medicamentos distribuídos pelo SUS, com promessa de expansão do catálogo disponível e a criação de um programa de contratação de médicos voltado para o atendimento das regiões menos assistidas do País. O candidato é o único a delimitar orçamentos, se comprometendo com a destinação de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) à pasta da Saúde e com a estatização de todo o setor privado de saúde.
Registrado no TSE como Escritor Augusto Cury, o candidato do partido Avante afirma que o SUS vive uma sobrecarga e a solução para desafogá-lo é a telemedicina. O candidato tem, entre as suas metas, o objetivo de transformar o Brasil no maior centro de telemedicina do mundo, com a ampliação das consultas remotas e laudos digitais – um dos objetivos é que 80% das consultas básicas sob responsabilidade presencial das unidades médicas vinculadas ao SUS passem a ser realizadas de forma remota.
Já o candidato do Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro defende a digitalização do SUS, com o uso da inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames. Bolsonaro também tem, em suas propostas, a criação do prontuário eletrônico único, um serviço vinculado ao CPF e integrado ao sistema Gov.br, que deve ser “interoperável entre as redes pública e privada”, para um acesso unificado no histórico de consultas, exames, vacinas e prescrições.
O candidato Hertz Dias, do Partido Socialista Dos Trabalhadores Unificado (PSTU), tem propostas similares às do candidato Edmilson Costa (PCB), como a defesa do fim de privatizações e da gestão privada da saúde. Dias também ressalta a importância de um SUS público, universal, gratuito e 100% estatal. Entre os destaques, defende as políticas de saúde mental, como a ampliação do investimento público nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e no Serviço de Residências Terapêuticas e Centros de Convivência – mas ressalta que não investirá em Comunidades Terapêuticas. Também defende a expansão da rede pública de hospitais, UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e UBSs Unidades Básicas de Saúde (UBS), além do estímulo à produção pública de medicamentos e insumos estratégicos.
Assumindo a candidatura pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) após a Justiça Federal considerar Pablo Marçal como inapto, Leonardo Avalanche têm propostas similares com outros presidenciáveis, como a expansão da telemedicina e parcerias com hospitais privados. Afirma que a sua prioridade nas políticas de Saúde é zerar as filas do SUS, e também defende a implementação da inteligência artificial para o controle e gestão de medicamentos.
Candidato à reeleição, Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), defende que o SUS é “a espinha dorsal do desenvolvimento humano e da soberania sanitária do país”. Entretanto, o candidato pontua que o Sistema precisa continuar evoluindo para assegurar o direito universal à Saúde. Em seu plano, promete a integração entre os programas de Atenção Primária, Vigilância em Saúde, Assistência Farmacêutica e Atenção Especializada, com a defesa do prontuário único do cidadão, que já está em desenvolvimento por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Há, ainda, a defesa do uso da inteligência artificial como ferramenta para auxiliar na triagem de pacientes. Seu plano de governo também destaca o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que trouxe recursos destinados a equipamentos médicos e infraestrutura – uma política que promete continuar, com a criação da maior rede pública de cuidado ao câncer do mundo. Assim como o candidato Edmilson Costa (PCB), Lula também destaca o Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS), e defende que o “fortalecimento do SUS público e universal é inalienável”.
Já o candidato do partido Missão, Renan Santos, alega que um dos principais problemas do SUS é a fila de espera por atendimento. O candidato defende a criação de um sistema digital de saúde, que combine telemedicina, diagnósticos por inteligência artificial (IA), monitoramento clínico e histórico permanente, inspirado no aplicativo DoctorSV, implementado em El Salvador. Assim como os demais presidenciáveis, ele destaca a importância do prontuário eletrônico nacional.
Candidato do Partido Social Democrático (PSD), Ronaldo Caiado afirma, em seu plano de governo, que o SUS será preservado como sistema universal e transformado em uma rede mais preventiva, integrada, digital e orientada por resultados. “O cidadão deve saber qual equipe o acompanha, qual é sua prioridade, quanto tempo esperará e qual serviço é responsável por cada etapa”, detalha. Caiado também promete que, em seu processo de modernização, a agenda do SUS será conduzida por missões, como reduzir filas evitáveis; prevenir e controlar doenças crônicas; promover a saúde da mulher; entre outros. Também defende a construção de uma Infraestrutura Nacional de Dados em Saúde e a integração entre políticas de Saúde e de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), olhando a pesquisa clínica como política de desenvolvimento, e buscando “reduzir dependência externa e ampliar a participação brasileira nas tecnologias que mais pressionarão o SUS nas próximas décadas.”
Com apenas uma menção ao SUS em seu plano de governo, o candidato Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária (PCO), afirma que o Sistema vive uma destruição sistemática, agravada pelo avanço da privatização em Saúde. Em seu plano de governo, defende mais verba para a saúde pública, a criação de um plano de emergência para construção de hospitais e postos de saúde, a validação imediata de todos os diplomas de médicos brasileiros e estrangeiros residentes no País e a abertura de centenas de cursos de medicina, enfermagem e demais cursos da área, com livre acesso – sem vestibular – nas universidades públicas, com o objetivo de suprir a falta de profissionais.
Candidata pelo partido Unidade Popular (UP), Samara também destaca a privatização de serviços públicos de Saúde, com as suas administrações sob responsabilidade das Organizações Sociais de Saúde (OSS). Entre seus projetos, promete o fortalecimento e unificação do SUS 100% estatal; a soberania farmacêutica e de produção, com o fortalecimento dos laboratórios oficiais do Estado para a fabricação de medicamentos, vacinas, equipamentos e insumos; e a valorização dos trabalhadores da Saúde, intensificando concursos públicos com regime estatutário, além do fim da precarização e a aplicação integral dos pisos salariais nacionais das categorias.
O presidenciável registrado no TSE como Veterinário Wilson Grassi, pelo partido Democrata, afirma que o SUS não precisa ser reinventado, mas “precisa funcionar na ponta, onde é barato”. Em seu plano há três frentes: a atenção primária como prioridade orçamentária; a criação de uma fila nacional única organizada por tipos de procedimento e o fortalecimento da produção nacional de medicamentos e imunizantes estratégicos.
Encerrando os presidenciáveis, Zema, do Partido Novo, também argumenta que um dos maiores problemas do SUS é a fila para atendimentos médicos. Em seu plano de governo, afirma que parte dos recursos dedicados ao Sistema é mal aplicada, com pouca articulação e integração tecnológica. Ele defende, essencialmente, a criação do prontuário eletrônico e pede maior participação da iniciativa privada. “O setor privado, que tem estrutura e capacidade ociosa, é subutilizado para desafogar o sistema público e o excesso de regulação e a judicialização encarecem a saúde suplementar e empurram ainda mais pessoas para o SUS”, pontua.
A análise
Para a análise, a SBPC iniciou a busca pelas palavras-chave “SUS”, “saúde”, “cuidado” e respectivas derivações que pudessem ilustrar políticas dedicadas ao tema. Posteriormente, houve uma leitura analítica dos planos de governo, de modo a identificar se a temática estava envolvida em outras frentes, como políticas para assistência social, Educação, entre outras.
A análise envolveu os planos de governo extraídos do Tribunal Superior Eleitoral no dia 19 de agosto de 2026, com exceção ao plano de Leonardo Avalanche, extraído em 17 de setembro – a diferença de data se dá por conta do julgamento da candidatura de Pablo Marçal, até então o presidenciável pelo PRTB, que teve sua candidatura julgada inapta pela Justiça Eleitoral na última sexta-feira, 11 de setembro.
É importante destacar que os planos de governo podem ser aditados no curso da campanha eleitoral e que as candidaturas podem se manifestar sobre esta análise e sobre seus apoios às políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), aderindo ao Termo de Compromisso presente no Observatório das Eleições 2026.
Rafael Revadam – Jornal da Ciência