domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Especial da Semana

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EDITORIAL – Antes da próxima emergência: dados, vigilância e decisão técnica no SUS

“Tratar ciência em saúde como assunto exclusivo de uma pasta é reduzir o alcance de uma agenda que envolve determinantes sociais, sistemas de saúde, indústria de medicamentos e equipamentos, e a relação entre saúde e sociedade”, aponta a presidente da SBPC, Francilene Garcia, no editorial desta sexta-feira

Instagram post feedback verde e rosa orgânico (17)Chegamos ao último eixo do caderno Vozes da Ciência — O Brasil que Queremos. Os textos anteriores trataram do financiamento da ciência e da soberania nacional, do território onde clima e segurança pública se encontram, e de quem estuda, ensina e pesquisa no país. O sétimo eixo trata da saúde, e já dedicamos nesta série espaço ao financiamento do SUS e ao debate sobre modelos de gestão que aparece nos programas registrados. Por isso o foco aqui é outro: o que sustenta o sistema quando a próxima crise chegar.

São três frentes que a pandemia mostrou serem inseparáveis: (1) a soberania sobre os dados de saúde, (2) a capacidade permanente de vigilância e preparação, e (3) a proteção da decisão técnica baseada em evidências. Nenhuma delas produz manchete em ano eleitoral. Mas todas são decisivas para determinar a capacidade do país de proteger vidas quando uma emergência chega.

Convém lembrar a escala do que está em jogo. O SUS cobre mais de 90% do território nacional e é o maior sistema público de saúde do mundo. É também um dos maiores compradores de produtos de saúde do país: adquire cerca de 90% das vacinas, 50% dos equipamentos médicos e 30% dos medicamentos do mercado brasileiro, poder de compra que lhe permite orientar a produção segundo prioridades públicas. E é, silenciosamente, uma das maiores infraestruturas de informação em saúde já construídas.

Convém também desfazer um mal-entendido corrente: o problema brasileiro não é ausência de instituições. O país tem centros de informações estratégicas em vigilância, rede nacional de vigilância hospitalar, um sistema de laboratórios de saúde pública com unidades de referência em todos os estados, rede genômica pública, dois grandes produtores estatais de imunobiológicos e uma agência reguladora consolidada. O que requer aprimoramento é a conexão permanente entre essas peças e o financiamento que as mantenha prontas entre uma emergência e outra.

A rede HUBrasil opera 45 hospitais universitários em 25 estados, com 28 milhões de prontuários completos, uma das maiores bases hospitalares do planeta. Esses hospitais não são apenas repositórios de dados: são rede assistencial de alta complexidade e lugar onde se formam os profissionais que sustentam o sistema, o que faz da proteção de seu financiamento uma das treze propostas prioritárias do caderno. Somem-se as bases do próprio SUS, que acompanham 170 milhões de usuários ao longo de décadas. Não existe no mundo muita coisa comparável: um registro contínuo, capilar e de base populacional, capaz de sustentar pesquisa clínica, estudos epidemiológicos e vigilância em escala continental.

Esse patrimônio ainda não é tratado plenamente como uma infraestrutura estratégica do país. Os dados de saúde permanecem distribuídos entre diferentes sistemas e bases, com níveis distintos de integração, governança e interoperabilidade. Essa fragmentação reduz o potencial de uso da informação para pesquisa, epidemiologia, vigilância e formulação de políticas públicas e pode ampliar a dependência de soluções e infraestruturas externas.

A proposta da SBPC é criar uma Plataforma Nacional Soberana de Dados em Saúde, com acesso regulamentado, governança transparente, interoperabilidade entre as bases existentes e aplicação rigorosa da LGPD. A plataforma não substituiria os sistemas já existentes: conectaria e qualificaria o que o país já construiu, criando condições para transformar dados em conhecimento e conhecimento em melhores decisões de saúde. Experiências como o Cidacs e a Estratégia de Saúde Digital mostram que essa integração é tecnicamente possível.

É o mesmo argumento do eixo da soberania digital, aplicado ao terreno mais sensível que existe. Dados de saúde de 170 milhões de pessoas são questão de segurança nacional, e quem os organiza define o que o país pode saber sobre a própria população.

A segunda frente é a vigilância, e ela tem endereço. A Amazônia ocupa 60% do território nacional e atravessa mais de 11 mil quilômetros de fronteira. Nos municípios amazônicos de fronteira, a taxa de violência sexual é 36% superior à média nacional, chegando a 163 casos por 100 mil mulheres em algumas cidades. O garimpo ilegal contamina territórios indígenas por mercúrio, e o desmatamento abre corredores para patógenos que não conhecem divisa municipal.

A médica sanitarista Adele Benzaken sintetizou no ciclo: não há atalhos para o futuro do Brasil, e o caminho passa pela floresta, pelos rios, pelo monitoramento inteligente das fronteiras e pelas comunidades mais distantes. Proteger a Amazônia é fazer saúde global, e é um ato de soberania nacional. É também o que dá conteúdo concreto ao conceito de saúde única: a saúde humana, a dos animais e a dos ecossistemas são uma coisa só, e cada quilômetro de floresta derrubada altera as três ao mesmo tempo. O país já tem por onde começar, porque o sistema laboratorial do SUS recebe amostras humanas, animais e ambientais na mesma plataforma. Falta transformar essa possibilidade técnica em rotina de vigilância integrada. Daí a proposta de um programa específico de ciência e tecnologia para vigilância e saúde na região, com tecnologias apropriadas a contextos remotos, remuneração digna dos agentes comunitários e integração entre saúde, ambiente e clima.

Some-se a isso a Rede Integrada de Vigilância e Atenção à Saúde para Mulheres e Populações Vulneráveis nas Fronteiras Amazônicas, com acolhimento psicossocial, notificação compulsória e resposta rápida à violência sexual, e a ação intersetorial entre saúde, meio ambiente e segurança para enfrentar o garimpo ilegal como o problema de saúde pública que ele é.

Há uma terceira carência, que o país trata há décadas como assunto menor. Os transtornos mentais atingem cerca de 10% da população brasileira e recebem 1% dos recursos globais destinados à saúde. A proposta da SBPC é elevar esse percentual para ao menos 5% nos próximos quatro anos, enquanto a OMS recomenda 10%, e integrar indicadores de saúde mental, para além de mortalidade e prescrições, às grandes bases de dados do SUS e ao sistema de vigilância epidemiológica. Não se formula política para o que não se mede, e hoje o país enxerga muito pouco do sofrimento psíquico de sua população, sobretudo entre os mais jovens. Vale acrescentar o que os eixos anteriores já mostraram: dentro do SUS, adoecer e morrer seguem as mesmas linhas de raça, renda e território que organizam todo o resto, e nenhuma política de saúde alcança quem mais precisa se os dados não forem desagregados por esses recortes.

A terceira frente é a mais delicada, porque trata do que acontece quando a evidência contraria a conveniência política. Deisy Ventura, professora titular de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), identificou no ciclo um dos principais inimigos da saúde pública contemporânea: a campanha de desinformação que encoraja ativamente o descumprimento de medidas sanitárias e corrói a confiança nas instituições de saúde. Foi assim que se enfraqueceu o CDC norte-americano, cuja direção chegou a 2026 com 80% dos cargos vagos, e foi assim que se ampliou o número de mortes evitáveis no Brasil durante a pandemia.

Os números dessa conta são conhecidos e continuam difíceis de escrever: mais de 711 mil mortes associadas à COVID-19, das quais cerca de 300 mil poderiam ter sido evitadas. Nenhuma tecnologia teria compensado a decisão de desautorizar a evidência.

Daí a proposta de um marco legal de proteção à autoridade sanitária baseada em evidências, garantindo que decisões técnicas do Ministério da Saúde e da Anvisa não possam ser revertidas por autoridades políticas sem fundamento científico. Não se trata de blindar especialistas do escrutínio público, que é legítimo e necessário. Trata-se de impedir que uma decisão que custa vidas seja tomada por quem não precisa responder pela evidência que a contradiz.

Proteção institucional, porém, é defesa, e o caderno propõe também a ofensiva: financiar um programa de comunicação estratégica em saúde pública com tráfego pago nas plataformas, em investimento equivalente ao que hoje sustenta a propaganda contra a saúde pública. Enquanto a informação baseada em evidências depender do alcance orgânico e a desinformação for impulsionada com dinheiro, a disputa seguirá desigual por desenho.

O conjunto se completa com a capacidade de antecipação. A SBPC propõe um programa permanente de preparação e resposta a doenças transmissíveis emergentes e reemergentes, integrando vigilância, desenvolvimento de vacinas e plataformas tecnológicas, e um sistema específico de prevenção de futuras epidemias, nos moldes do Centro Brasileiro de Enfrentamento de Emergências em Saúde proposto por especialistas. A sucessão recente de emergências, da COVID-19 à febre amarela, das arboviroses ao Ebola, não deixa dúvida sobre sua necessidade. Uma emergência sanitária não avisa: ela chega e cobra o que foi construído antes.

Preparação, porém, precisa de métrica, ou vira retórica. Não é sobre quantos equipamentos o país possui, mas quanto tempo separa o primeiro sinal anormal de um diagnóstico confiável, de uma sequência genética disponível, de um protótipo de teste e do primeiro lote produzido em território nacional. Cada etapa desse intervalo é uma decisão de política pública, e cada semana economizada nele se traduz em vidas salvas.

Há uma capacidade específica que define esse patamar: identificar um agente que ninguém ainda conhece. O sequenciamento metagenômico permite procurar material genético sem saber de antemão o que se procura, e o próprio guia federal de avaliação de capacidades em emergências, de 2026, classifica a identificação de patógeno desconhecido como o nível mais avançado de maturidade laboratorial. Garantir essa capacidade em centros macrorregionais, com transporte rápido de amostras e equipes permanentes, é o que separa detectar cedo de descobrir tarde.

Há ainda a dimensão internacional, e ela está sendo decidida agora. O Acordo de Pandemias da Organização Mundial da Saúde, adotado em maio de 2025, depende de um anexo sobre acesso a patógenos e repartição de benefícios que segue em negociação em Genebra, com participação brasileira na condução dos trabalhos. O que está em jogo é se o compartilhamento rápido de amostras e sequências genéticas virá acompanhado de acesso verificável aos produtos dele derivados, com transferência de tecnologia e capacidade regional de produção. Foi exatamente essa assimetria que a COVID-19 expôs.

A posição brasileira deveria ser coerente com o que defendemos internamente: compartilhar depressa o que a ciência precisa saber e exigir mecanismos que impeçam a repetição da fila em que os países do Sul esperaram vacinas produzidas com material biológico que eles próprios haviam fornecido. Some-se a isso o vácuo deixado pela saída dos Estados Unidos de fóruns multilaterais, que o Brasil tem condições de ocupar na OMS e na OPAS, compartilhando com a América Latina, a África e o Caribe as tecnologias de vacinas desenvolvidas aqui, o modelo do SUS e os sistemas de vigilância epidemiológica. Exportar saúde pública é uma forma de política externa que poucos países podem oferecer.

Há ainda uma frente que raramente entra no debate e que é caso exemplar de tudo o que foi dito aqui: a política estatal de sangue. Hemoderivados são insumo crítico, de produção complexa e mercado global concentrado, e o caderno defende consolidar essa política sem permitir a privatização de qualquer serviço correlacionado, fortalecendo a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia. Soberania sanitária se mede em casos como esse, não em declarações de princípio.

Por fim, uma correção de rota institucional. A maior parte da pesquisa de interesse do SUS é, e deve ser apoiada também por CNPq, Capes e fundações estaduais, em articulação com o Ministério da Saúde. Tratar ciência em saúde como assunto exclusivo de uma pasta é reduzir o alcance de uma agenda que envolve determinantes sociais, sistemas de saúde, indústria de medicamentos e equipamentos, e a relação entre saúde e sociedade.

Nos programas de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral, saúde é presença obrigatória, e o vocabulário predominante é o da gestão, como analisado no artigo “O SUS não é um plano de saúde em grande escala”. Registro aqui apenas o que interessa a este eixo: vigilância epidemiológica, soberania de dados em saúde, saúde mental e proteção da autoridade sanitária aparecem pouco ou não aparecem nos programas que analisamos até agora. É uma ausência reveladora, porque são exatamente as capacidades que não se improvisam no momento da crise e que, por isso mesmo, precisam ser decididas agora.

A SBPC não indica candidaturas nem recomenda voto. Compara propostas com evidências, registra convergências e lacunas e cobra mecanismos. É o que o Termo de Compromisso do Observatório das Eleições 2026 pede a cada candidata e a cada candidato: decidir com base no conhecimento científico, nos dados e nas evidências. No caso da saúde, essa exigência tem uma tradução simples. O país já pagou, em vidas, o preço de decidir contra a evidência. A pergunta que 2026 coloca é se aprendemos o suficiente para não pagar de novo.

Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

 

Veja as notas do Especial da Semana – Saúde Pública, Saúde Mental e Vigilância

JC – O SUS não é um plano de saúde em grande escala

JC – De telemedicina à IA, presidenciáveis defendem expansão e modernização do SUS

Fiocruz, 24/08/2026 – Fiocruz divulga carta aberta com contribuições para as eleições 2026

The Conversation Brasil, 29/07/2026 – Eleições e saúde: quais as questões sobre o futuro do SUS que precisam ser debatidas pelos candidatos?

Outra Saúde, 15/09/2026 – Eleições: os lapsos nos planos para a Saúde Mental

Folha de S. Paulo, 09/06/2026 – Financiamento do SUS, filas de consultas e efeito das bets desafiam novo presidente na área da saúde

Brasil de Fato, 08/09/2026 – “O orçamento do SUS precisa chegar a 7% do PIB”, diz Nísia Trindade

The Conversation Brasil, 27/02/2026 – Uma visão histórica do impacto da criação do SUS no acesso, custo e qualidade da saúde no país

Jornal da USP, 05/02/2026 – Especialistas defendem reformulação de sistemas de saúde na Amazônia diante das mudanças climáticas

CNN Brasil, 14/01/2026 – Crise climática: pesquisadores defendem novo modelo de saúde na Amazônia

CNN Brasil, 09/06/26 – Envelhecimento acelerado desafia sustentabilidade dos sistemas de saúde

G1, 07/07/2025 – Brasil tem “crônico subfinanciamento” do SUS e precisaria investir mais em Saúde, diz estudo do Senado

Agência Senado, 24/06/2026 – Vacinas: debatedores afirmam que País precisa estar preparado para novas pandemias

Agência Senado, 10/4/2026 – Saneamento básico: a pauta bilionária fora do debate eleitoral

Brasil de Fato, 18/09/2026 – SUS é referência internacional e cultura midiática ajuda a compreender importância do sistema

Jota, 30/06/2026 – O plasma brasileiro e a corrida global por soberania em saúde

Jota, 18/09/2026 – Quem financia o ‘vale da morte’ da inovação em saúde?

Brasil de Fato, 12/06/2026 – O SUS, o voto das mulheres, e as eleições 2026