quarta-feira, 8 de abril de 2026
Vivaxin chega aos testes clínicos como a única candidata a vacina contra a malária que predomina no Brasil e nas Américas. Baixe gratuitamente a nova edição do Jornal da Ciência Especial

Frasco contendo a Vivaxin, em lote dedicado ao uso para pesquisa. Vacina tem potencial para combater três variantes da doença (Foto: Divulgação)
Irene Soares trabalha com malária há trinta anos. Começou em 1995, no doutorado, coletando sangue e células de pacientes em áreas endêmicas da Amazônia, sempre com foco imunológico. A vacina veio mais tarde. “A gente entrou mesmo em vacina com essa formulação em 2009, 2010”, diz ela, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP). A candidata a vacina desenvolvida nesse percurso, chamada Vivaxin, está aguardando autorização das agências regulatórias para iniciar os testes clínicos em humanos.
O alvo é o Plasmodium vivax — o parasita responsável por mais de 80% dos casos de malária no Brasil e pela maioria dos casos fora da África. A distinção importa porque as duas vacinas contra malária recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a Mosquirix e a R21, foram desenvolvidas para o Plasmodium falciparum, espécie predominante na África subsaariana e responsável pela maior mortalidade global.
“Essas vacinas não protegem contra o vivax”, explica a cientista. “A sequência [genética] delas é muito diferente.” O vivax, dominante nas Américas e na Ásia, segue sendo considerado negligenciado — recebe menos atenção e menos financiamento internacional, em parte porque os grandes apoiadores globais concentraram esforços no falciparum, o mais letal.
No Brasil, o vivax não tem o perfil do falciparum africano, que mata crianças menores de cinco anos em larga escala. Aqui, o parasita incide principalmente sobre adultos em atividade. “É um problema sério em áreas de garimpo, em áreas indígenas, em áreas de assentamento rural”, diz Soares. “Diferente do falciparum na África, aqui atinge o trabalhador.”
A doença provoca afastamento por muitos dias, compromete a capacidade produtiva e, em populações sem acesso regular a serviços de saúde, tende a se repetir. O vivax tem uma característica biológica peculiar: o hipnozoíto, uma forma dormente do parasita que se aloja no fígado após a infecção inicial e pode causar recaídas meses ou até anos depois, independentemente de uma nova picada.
O tratamento padrão inclui a primaquina, um fármaco tomado por vários dias consecutivos, e que, quando abandonado antes do prazo, deixa o paciente exposto a recaídas.
A proteína escolhida como alvo da Vivaxin é a circunsporozoíta do vivax, proteína que recobre a superfície do esporozoíto, a forma do parasita que entra na corrente sanguínea no momento da picada do mosquito Anopheles e migra para o fígado, onde inicia a infecção. É ela que o sistema imune precisa reconhecer rapidamente para bloquear a instalação do parasita.
Essa mesma classe de proteína é o alvo das vacinas contra o falciparum — mas, no caso do vivax, ela existe em três variantes que circulam simultaneamente no mundo. As três estão presentes no Brasil. Uma vacina desenhada para cobrir apenas a variante mais prevalente, a VK210, deixaria parte da população sem proteção.
“Com o objetivo de criar uma vacina eficiente contra as três variantes, a gente fez uma proteína híbrida”, explica Soares. A proteína quimérica combina as regiões imunodominantes das três variantes numa única molécula. Nenhuma das poucas candidatas a vacina contra vivax que chegaram a testes no homem antes da Vivaxin havia feito esse tipo de arranjo molecular.
O adjuvante (composto que potencializa a resposta do sistema imune ao antígeno) foi uma escolha que pesou custo e viabilidade regulatória desde o início. O grupo testou um adjuvante de uma empresa americana. “Fizemos estudos pré-clínicos, segurança e tudo em coelho, mas os custos eram muito altos para seguir adiante com ele”, diz a cientista. A solução veio de uma parceria com o CTVacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): testar o mesmo adjuvante à base de esqualeno usado na SpiN-TEC, barato e com perfil regulatório favorável por ser semelhante à alternativa, que já era licenciada para uso humano em outras vacinas.
O vivax não infecta roedores, o que exige um modelo experimental específico: o grupo usa o Plasmodium berghei modificado para expressar a proteína circunsporozoíta do vivax. É esse parasita transgênico que permite o teste de desafio em camundongos. Com o adjuvante de esqualeno, a proteção chegou a 83% nos primeiros ensaios e a 100% no último. “Com base nesse dado, a gente começou a preparar toda a documentação para levar aos testes clínicos”, relata Soares.
A produção do lote clínico foi feita na Universidade de Nebraska, em 2018, por falta de infraestrutura certificada disponível no Brasil à época. O grupo desenvolveu aqui os protocolos de purificação e obtenção da proteína; Nebraska os executou e enviou os lotes para os estudos pré-clínicos e clínicos. “A concepção é brasileira, isso tem que ficar claro”, afirma a professora. “Foi contratação de serviço, mas a concepção é nacional de pesquisadores brasileiros.” O financiamento do percurso veio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que cobriu os estudos iniciais até a produção dos lotes clínicos, de dois editais da Finep para os testes, e mais recentemente de um edital do PDIL, o programa do Ministério da Saúde para desenvolvimento e inovação local.
Os ensaios clínicos de uma vacina seguem três fases progressivas. A fase 1, Frasco contendo a Vivaxin, em lote dedicado ao uso para pesquisa. Vacina tem potencial para combater três variantes da doença Ainda estamos muito atrás em desenvolvimento de vacinas. Mas um produto concebido no Brasil chegar a testes clínicos no homem, é disso que o Brasil está precisando irene soares, UsP tipicamente com algumas dezenas de voluntários saudáveis, serve para verificar se o produto é seguro — se os efeitos adversos são toleráveis e se o organismo responde imunologicamente ao que foi injetado. Na fase 2, com centenas de participantes, o foco se amplia: avalia-se a dosagem, a resposta imune com maior precisão e os primeiros sinais de eficácia. A fase 3 é o teste definitivo — envolve milhares de pessoas em áreas onde a doença circula, e é ela que sustenta o pedido de registro junto às agências regulatórias.
Para a Vivaxin, a fase 1 pode ser conduzida em qualquer centro de pesquisa. “A fase 1 é segurança”, resume Soares. “A gente vai ver se essa vacina é segura.” A fase 3, conta a cientista, com certeza será na Amazônia e possivelmente em outros países onde o vivax é prevalente.
“Ainda estamos muito atrás em desenvolvimento de vacinas. Mas um produto concebido no Brasil chegar a testes clínicos no homem, é disso que o Brasil está precisando.”
A vacina foi desenhada para bloquear a infecção no momento da entrada do esporozoíto na corrente sanguínea — antes de o parasita alcançar o fígado. Se ela vai impedir que hipnozoítos já instalados causem recaídas, é algo que está em aberto. “A gente vai descobrir isso ao longo dos testes clínicos”, projeta a cientista.
Gabriel Alves – Jornal da Ciência