domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Ensino Básico

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Temos na cabeça a escola ideal, mas não sabemos construí-la

Professor da área de políticas públicas de educação da UNB analisa a importância do papel da universidade na educação básica

O grande desafio da educação hoje é a formação de professores, afirma o professor de políticas públicas de educação, da UnB, Remi Castioni. Para ele “os jovens estão à procura de bons salários e condições adequadas para o magistério, mas não enxergam atratividade na carreira docente atual e, quando nela ingressam, o curso não os prepara para a realidade educacional”.

Ele explica que as pessoas que entram na licenciatura hoje estão despreparadas, demonstrando o afastamento da universidade na formação dos professores. “Sempre falo, nós temos a escola ideal na cabeça, mas não sabemos como construí-la”, reforça.

Segundo Castioni, para uma educação contemporânea e eficiente é preciso maior aproximação das universidades com as escolas da educação básica, centrando a formação dos futuros profissionais em cursos oferecidos pelas universidades, enfatizando o estágio curricular como etapa formativa dos candidatos à carreira do magistério da educação básica. “A universidade não pode ensinar teorias sem olhar para o que acontece nas escolas. É preciso dar condições para que os jovens que optaram pelas licenciaturas tenham as mesmas condições daqueles que cursam os bacharelados.”

Em sua opinião, hoje, assiste-se a um total desprestígio da carreira docente, valorizando o que é mais elevado, como os títulos de doutorado e pós-doutorado. “Estão esquecendo que, para chegar lá, temos de passar pela educação infantil, pelo ensino fundamental e o ensino médio. Nessas etapas é que se define o futuro. Não valorizar os profissionais da educação é não acreditar no processo educacional”, enfatiza.

Castioni explica que os jovens valorizam a universidade como símbolo de qualidade e desprestigiam a escola. Na sua avaliação o próprio conhecimento produzido nas universidades é que tem levado a isso. “As universidades, particularmente nas carreiras de formação de professores, ocuparam-se das grandes teorias. A universidade conhece muito pouco o que se passa no dia a dia das escolas, como os professores ensinam, com que meios e em que condições operam”, salienta o professor.

Problemas – Apesar dos avanços, explica, ainda somos atrasados na oferta de educação. “Somente em 2009 a educação da pré-escola – dos 4 aos 17 anos – passou a ser assegurada pelo Estado. Antes, a Constituição Federal de 1988 previa apenas o ensino fundamental. Esperamos 20 anos para oferecer educação. Sem esse hiato, poderíamos estar em situação bem melhor”, lamenta.

Outra questão problemática na visão do especialista é o processo de progressão na educação, onde as taxas de repetência e abandono escolar são enormes, colaborando para que, gradativamente, os jovens afastem se da escola. “Hoje, as taxas de matrícula no ensino fundamental público estão entre 500 e 800 mil/ano. E nem metade deles chega ao ensino médio.” E acrescenta: “Os jovens estão se afastando gradativamente das salas de aula. Isso ocorre desde a educação infantil. Temos 15% das crianças de 0 a 3 anos nas creches. É preciso pensar em educação como um todo (creche, pré-escola, ensino médio, superior) para que, desde pequenas, as crianças tenham habilidade motora, social, e uma importante formação educacional”, defende Castioni.

Envelhecimento – A exemplo do que aconteceu em todo o mundo, a expectativa de vida no Brasil aumentou consideravelmente, mas, para o professor Castioni, o desafio parece ser maior em função da velocidade com que esse fenômeno ocorreu. Em 1950, a expectativa de vida não passava de 51 anos, e o Brasil era um dos países mais jovens do mundo. Atualmente, nossa expectativa de vida ultrapassa os 73 anos, temos aproximadamente 191 milhões de habitantes e cerca de 21,7 milhões de idosos. A expectativa é de que, em 2030, nossa população irá parar de crescer e seremos a sexta população mais velha do mundo, até que em 2040 teremos mais de 60 milhões de idosos. “Sendo assim, temos que refletir se estamos preparados, pois com esta alta taxa de envelhecimento, a educação daqui a pouco não será prioridade. E quem vai dirigir o futuro do País, qual será a matéria-prima das universidades?”, alerta.

Castioni é enfático: agora é o momento de o Brasil buscar melhoras na educação, pois temos muitos jovens e é preciso definir os gastos na área para os próximos anos.

“Ainda temos condição e população para se justificar o gasto em educação. Esta é a nossa estratégia de afirmação como nação. Se não nos mexermos, daqui 20 anos as nossas escolas serão local de convivência de pessoas idosas. Temos que parar e pensar sobre isso”, conclui.

PNE – O primeiro Plano Nacional de Educação (PNE) foi elaborado pelo jurista, educador e escritor Anísio Teixeira, conforme indicava a Lei no 4024, de 20 de dezembro de 1961, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB). Uma inovação importante adotada foi a definição de quem seria a responsabilidade de coordená-lo, um órgão do Ministério da Educação e Cultura especialmente criado para essa finalidade: a Comissão Nacional de Planejamento Educacional (Copled).

“Diferente do que ocorre hoje, quando temos várias ‘caixinhas’ – uma para cada tipo de educação – o plano proposto por Teixeira sugeria apenas um único órgão no MEC para dirigir todo o sistema educacional. Isso facilitaria a fiscalização e uma efetiva coordenação”, frisa o professor. E acrescenta: o significado histórico do 1o PNE está em que, pela primeira vez (provavelmente a única, até hoje), um plano de educação foi aprovado em nosso país para ser aplicado à risca, havendo um órgão especialmente encarregado de fazê-lo (a Copled).

De acordo com o professor, dentre as principais ações financiadas pelo PNE e aplicadas nos anos de 1963 até março de 1964, destacam-se duas que, ainda hoje, têm significativa repercussão nos meios educacionais. A primeira ação foi o programa de alfabetização baseado no Método Paulo Freire, que tinha por paradigma os resultados da conhecida campanha desenvolvida em Angicos, no Rio Grande do Norte, em abril de 1963. A segunda ação é o Plano Educacional de Brasília, cuja elaboração e aplicação coube a Anísio Teixeira. “O Plano de Brasília incluiu, principalmente, a aplicação das ideias da escola pública integral, segundo a concepção desenvolvida pelo educador baiano. A ideia de Anísio era tomar o Plano de Brasília como piloto para ser generalizado, gradativamente, por todo o País, no tempo da aplicação do I PNE”, observa Castioni.

Cinquenta anos depois, o PNE, Projeto de Lei (PL 8035/2010), foi reconstruído e segue em tramitação no Congresso Nacional. O elemento central para os objetivos educacionais da próxima década é o professor. A visão está forte em pelo menos quatro das 20 metas do futuro Plano Nacional de Educação (PNE). Algumas não são novidade – são bandeiras que se repetem desde o PNE anterior e não viraram realidade. “Transformar o discurso em prática será o desafio dos gestores da educação, seja nos municípios, estados ou nos gabinetes do Ministério da Educação (MEC)”, ressalta o especialista.

O professor faz parte da comissão que criou o PL e espera que em breve o novo PNE seja aprovado. “O PNE é o primeiro plano com essas características de âmbito nacional. Tem uma agenda educacional extensa, com vários pontos debatidos e com embates. Isso faz parte de um processo democrático”, informa. Castioni finaliza ao dizer que algumas das 20 metas do Plano são audaciosas, uma espécie de giro educacional para os próximos anos. “Estamos todos lutando pela educação.”

Camila Cotta, Jornal da Ciência nº 758, 09/05/2014