quinta-feira, 16 de julho de 2026
Nova edição do Jornal da Ciência Especial traz iniciativas do Governo Federal que buscam aproximar da população soluções desenvolvidas em ambientes acadêmicos. Acesse gratuitamente a edição completa e fique por dentro dos destaques na 78ª Reunião Anual da SBPC!
No final de março, foi inaugurado no Rio de Janeiro, dentro do Instituto Benjamin Constant (IBC), um dos primeiros Centros de Acesso, Pesquisa e Inovação em Tecnologia Assistiva (Capta). A instituição, ainda em processo de consolidação dos fluxos de atendimento, integra uma iniciativa nacional coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em articulação com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), para promover a inovação voltada às pessoas com deficiência por meio de conexões entre usuários, pesquisadores, universidades, instituições públicas e desenvolvedores de tecnologias assistivas. O plano do Governo Federal é implantar 26 unidades do Capta articuladas entre si, distribuídas pelos estados brasileiros. “A criação dos Captas faz parte de uma estratégia federal extremamente importante para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à acessibilidade e à tecnologia assistiva no Brasil”, afirma Daiana Pilar Silva, diretora do Núcleo de Inovação Tecnológica do IBC e coordenadora do Capta. O centro ocupa um espaço de aproximadamente 600 metros quadrados (m2 ) onde se dá a exposição de tecnologias assistivas e também funciona como um espaço de convivência, formação, experimentação e construção coletiva. “A proposta do espaço é permitir que as pessoas possam conhecer, experimentar e dialogar sobre as tecnologias assistivas de maneira concreta e acessível”, diz ela, ressaltando a parceria com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, com o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e com o Instituto Nacional de Tecnologia. O IBC tem como foco histórico a promoção da leitura e da escrita para pessoas com deficiência visual. Fundado em 1854 como Imperial Instituto dos Meninos Cegos pelo imperador Dom Pedro II, no mesmo ano, adotou para ensino o sistema braille, que tinha acabado de ser oficializado na França, seu país de origem. Ao longo das décadas, o instituto desenvolveu uma série de inovações para atender a esse público, em parte como consequência da formação acadêmica que promove. O Capta, assim, nasce sobre essa atuação já consolidada.
Outra iniciativa apoiada pelo Governo Federal é o Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologia Assistiva da Universidade Federal de Goiás (Lab-EITA/UFG). De acordo com seu coordenador, o arquiteto Pedro Henrique Gonçalves, as atividades de seu grupo se alteraram durante a pandemia da covid-19, quando ficou evidente a necessidade de contribuir para as necessidades imediatas da população – no seu caso usando equipamentos de impressão 3D de que dispunha. Em 2024, o laboratório em sua configuração atual nasceu a partir de um financiamento inicial do MCTI.
Com estudantes e voluntários, o Lab- -EITA produz cadeiras de rodas feitas com MDF e placas produzidas a partir de tampinhas de garrafas plásticas, além de outros equipamentos ortopédicos e de mobilidade. “Temos capacidade de fazer 20 parapódios por mês, que custam cerca de R$ 5 mil no mercado”, relata Gonçalves sobre um equipamento usado para ajudar pessoas que têm dificuldade em ficar de pé ou manter-se eretas. “Mas a demanda é muito alta e precisamos dosar as entregas por limitações de pessoal e de espaço físico”, conta. A demanda é feita por meio de um formulário disponível na página do laboratório no Instagram. Ele estima que, ao longo de dois anos, tenham produzido cerca de 270 equipamentos, incluindo órteses e cadeiras de rodas, e que há uma fila de 130 pessoas a serem atendidas.
O uso de tampinhas plásticas representa uma faceta de sustentabilidade do projeto. “Produzimos muito lixo e isso pode ser usado”, alerta o pesquisador. Mas esbarram em uma limitação imposta pelo tamanho das placas que conseguem produzir, por isso só funciona para cadeiras de rodas infantis. “Quando conseguirmos comprar uma prensa maior, poderemos usar esse recurso para mais equipamentos.” O grupo também reutiliza banners de lona, muito resistentes, para produzir os cintos que integram os equipamentos. “O laboratório reúne as atividades de ensino, pesquisa e extensão, atendendo à população vulnerável”, celebra ele. Esses equipamentos não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e a maior parte da população que precisa deles tem dificuldades financeiras no acesso.
Uma iniciativa para aproximar da população soluções nascidas em ambientes acadêmicos é o Laboratório InovaSUS Digital; um projeto selecionado em junho para esse ecossistema foi a startup Mobile Brain, idealizada pela neurocientista Natália Mota, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com base na pesquisa que ela vem realizando há mais de uma década, que relaciona características do discurso a aspectos de saúde mental, sua equipe produziu um aplicativo para uso em escolas, empresas e no atendimento médico.
O sistema apresenta uma imagem, a partir da qual a pessoa deve contar uma história, e depois repete a ação duas vezes. O discurso é gravado, transcrito e enviado para a nuvem com uma série de proteções que garantem anonimato e respeito à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e depois analisado por um algoritmo que detecta marcadores como quebras na conectividade da fala, o teor de emoções negativas e o uso do pronome “eu”. Esses fatores, calibrados pelo tempo de escolaridade, podem estar associados a processos depressivos e ansiosos.
No sistema escolar, a ideia é ajudar a detectar locais onde é mais importante concentrar ações de promoção da saúde mental. “Temos um aumento da prevalência de sofrimento mental em adolescentes e os recursos do SUS são muito limitados para essa detecção”, explica Mota. Priorizar ambientes que precisam de atenção pode fazer diferença.
Outro produto sendo lançado deve ajudar profissionais de saúde a colher indícios de doença mental a partir da aplicação do teste, que gera um relatório calibrado para compor a avaliação médica. Além do uso em postos de saúde, ela explica que agentes comunitários poderiam mapear o território em ações de saúde da família, de modo a orientar ações.
Daiana Pilar Silva ressalta a importância de uma política pública estruturada. “Historicamente, uma das grandes dificuldades na área da tecnologia assistiva sempre foi a fragmentação: muitas pesquisas acontecem nas universidades e centros de inovação, mas nem todas têm conexão direta com as demandas reais das pessoas com deficiência ou com políticas públicas permanentes.”
Segundo ela, com essa estratégia, a tecnologia assistiva passa a ser reconhecida como um direito e uma dimensão essencial da inclusão social, da educação, da autonomia e da cidadania. É uma construção conjunta entre política pública, instituições e sociedade.
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Esta reportagem faz parte da nova edição do Jornal da Ciência Especial, que reúne reportagens e artigos sobre temas que estarão em debate na 78ª Reunião Anual da SBPC e refletem sobre os caminhos para construir um Brasil mais próspero, inclusivo e diverso. A publicação está disponível para download gratuito neste link.
Maria Guimarães – Jornal da Ciência