domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Educação

terça-feira, 31 de março de 2026

Sons em transformação

Reportagem da nova edição da Ciência & Cultura discute como os formatos de áudio moldaram a forma de produzir, ouvir e compartilhar música ao longo de mais de um século

WhatsApp Image 2026-03-31 at 10.10.56Nunca se produziu tanta música quanto na atualidade. Estimativas da Luminate (antiga Nielsen Music) apontam que mais de 120 mil faixas finalizadas são enviadas diariamente ao Spotify. Esse volume impressionante, no entanto, é apenas a ponta de um processo muito mais amplo: antes de chegar ao público, cada música passa por etapas como gravação de demos, pré-masters, edição de stems e revisões técnicas, envolvendo artistas, produtores, engenheiros de som e equipes de divulgação. No conjunto, são milhões de arquivos de áudio que circulam diariamente entre estúdios, computadores e plataformas digitais. Isso é o que discute artigo da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “Música, Som e Ciência”.

A trajetória desses arquivos acompanha a própria história das tecnologias de gravação sonora. Um formato de áudio, em termos gerais, é o meio pelo qual o som é registrado e reproduzido — seja em suportes físicos, como discos e fitas, seja em arquivos digitais. Ao longo do tempo, diferentes inovações buscaram tornar a música mais portátil, acessível e fácil de distribuir. Mas essa evolução não foi apenas técnica: também esteve profundamente ligada às estratégias da indústria fonográfica. “Boa parte da história da indústria fonográfica é esse controle sobre as músicas e, ao mesmo tempo, controle sobre a forma pela qual essa música é gravada, prensada e distribuída. Então, dentro da indústria fonográfica, depois de décadas com os discos de 78 rpm, nos anos 40 é lançado o LP – e nos anos 60 a fita cassete, nos anos 80 o CD. Então é a indústria que tem esse controle sobre essa troca de formatos e vai sempre vender esses objetos que contêm as músicas sobre as quais ela também tem a propriedade”, afirma Eduardo Vicente, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Nos últimos 150 anos, avanços científicos transformaram radicalmente as formas de registrar o som. Inicialmente, a gravação baseava-se em princípios da física mecânica, com vibrações sendo inscritas em sulcos de discos. “A primeira grande mudança se deu com o lançamento comercial de gravações, por volta da entrada do século XX. Escutar música passou a não mais depender de uma performance ao vivo no mesmo espaço do ouvinte, e tornou-se uma experiência essencialmente auditiva”, explica Sergio Freire, professor da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Laboratório de Performance com Sistemas Interativos (LaPIS). Com o avanço da eletrônica, o som passou a ser convertido em sinais elétricos e amplificado, enquanto as fitas magnéticas ampliaram as possibilidades de edição. Já na era digital, o áudio passou a ser tratado como dado, manipulável por computadores.

Essa transformação tecnológica também alterou profundamente a experiência de escuta. “A gente não tem apenas um outro equipamento ou uma outra tecnologia. A gente também tem uma outra vivência”, observa Jalver Bethônico, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para Sergio Freire, um conceito-chave nesse processo é a transdução — a conversão de sinais entre diferentes formas, como acústica, elétrica e digital —, presente tanto na captação quanto na reprodução sonora. A partir do final do século XX, a internet intensificou essas mudanças, com o surgimento do MP3 e, posteriormente, do streaming, que desvinculou a música de suportes físicos e a transformou em fluxo contínuo de dados acessíveis em múltiplos dispositivos.

Se, por um lado, a distribuição digital ampliou o acesso e democratizou a produção, por outro, trouxe novos desafios. “Para os ouvintes não há dúvidas que a distribuição digital de músicas representa um avanço muito grande, quando comparada aos modelos anteriores (discos, fitas, rádio, etc.). Isto se insere em um contexto muito mais amplo de representação e difusão digital de boa parte das atividades humanas, que compartilham as mesmas redes”, afirma Sergio Freire. Ainda assim, há impactos na forma de ouvir. “Há uma perda de atenção, uma perda da informação de escuta no streaming, que conta um pouco com isso. Nós nos tornamos piores ouvintes”, avalia Jalver Bethônico. Ao mesmo tempo, ele reconhece o potencial criativo desse cenário: “A digitalização é fundamental: o poder de manipulação do som que adquirimos a baixo custo pela digitalização é fenomenal.”

Diante disso, o futuro da música pode não depender apenas de novas tecnologias, mas também de novas formas de circulação e escuta. “Em termos de futuro, gostaria mesmo é de pensar em uma ciência e uma arte que escapem, ao menos parcialmente, da lógica da mercadoria e da concentração de recursos em cada vez menos mãos. Talvez a ‘música ao vivo’ possa oferecer subsídios para novos formatos de áudio com um maior aproveitamento de recursos locais e com menos elementos culturais ultraprocessados”, conclui Sergio Freire.

Leia a reportagem completa:

https://revistacienciaecultura.org.br/?p=9937

Ciência & Cultura