terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Sócio da SBPC desde 1960, Zawislak foi membro do Conselho da SBPC nos períodos de 1989–1993, 1997-2001 e 2009 a 2013

Fernando Zawislak em foto de 2014 para o livro dos Professores Eméritos da UFRGS.(Foto: Flávio Dutra)
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) manifesta profundo pesar pelo falecimento de Fernando Claudio Zawislak, professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ocorrido nessa segunda-feira, 9 de fevereiro. Sócio da SBPC desde 1960, Zawislak foi membro do Conselho da entidade nos períodos de 1989–1993, 1997-2001 e de 2009 a 2013.
Fernando Zawislak nasceu em Santa Rosa (RS), em 1935, e iniciou sua trajetória na UFRGS em 1954, como aluno de graduação do curso de Física na então Faculdade de Filosofia. De 1960 a 1961 fez estágio no Laboratório Van de Graff da Universidade de São Paulo (USP) com os professores Oscar Sala e Ernst Hamburger. Ali teve os primeiros contatos com a pesquisa.
De volta ao Instituto de Física da UFRGS, iniciou e coordenou um grupo de pesquisa experimental na área de Física Nuclear. Orientado pelo professor John D. Rogers, obteve o título de doutor em 1967, aprovado com louvor, tornando-se o primeiro doutor em Física formado pela UFRGS. Entre 1968 e 1970, realizou pós-doutorado no California Institute of Technology (Caltech), em Pasadena (EUA), passando a atuar na área de Física do estado sólido.
Durante a década de 1970, coordenou em Porto Alegre um grupo de pesquisa nessa área que alcançou projeção internacional. Em 1979/1980, mudou sua linha de investigação para o campo da implantação iônica e do uso de técnicas de feixes de íons para modificação e análise de materiais. Com esse objetivo, adquiriu, em 1980/1981, um acelerador de 400 kV e atuou como pesquisador visitante por um ano no Laboratório de Implantação Iônica de Orsay, da Universidade de Paris, na França.
Em 1996, adquiriu um novo acelerador de 3 MV, ampliando as atividades de pesquisa para áreas como semicondutores, polímeros, metais e ligas metálicas. Esses equipamentos deram origem ao Laboratório de Implantação Iônica, do qual foi coordenador desde sua fundação, em 1981.
Ao longo da década de 1990, Zawislak participou do planejamento e da captação de recursos para a criação do Centro de Microscopia Eletrônica da UFRGS e foi idealizador e proponente do Programa de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais (PGCIMAT), criado em 1992. Atuou de forma permanente em atividades acadêmicas da Universidade, em política científica e em órgãos de fomento à pesquisa, destacando-se também como coordenador do Projeto Multinacional de Física da OEA.
Durante sua carreira, orientou 14 doutores e 16 mestres, publicou mais de 160 artigos científicos em revistas internacionais indexadas e foi chairman de importantes conferências internacionais, entre elas a Ion Beam Modification of Materials (Canela, RS, 2000) e a Radiation Effects in Insulators (Gramado, RS, 2003), ambas realizadas pela primeira vez em um país latino-americano.
Legado na Física da UFRGS
Zawislak foi uma figura central na consolidação da dimensão experimental do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conforme conta a reitora da instituição, professora Márcia Barbosa. Segundo ela, Zawislak conduziu a criação de toda a infraestrutura experimental do Instituto e foi responsável pela implantação do Laboratório de Implantação Iônica, o maior da área na Universidade.
“Ele criou o nosso maior laboratório e fez história sendo o patrono de toda essa formação, que continua muito importante”, destaca. De acordo com a reitora, o laboratório segue em processo de consolidação e hoje integra iniciativas estratégicas da UFRGS, inclusive em articulação com a CETEC, para produção de chips.
Barbosa ressalta que Zawislak nunca se afastou do Instituto de Física, mesmo após a aposentadoria. “Ele parecia fazer parte da nossa história e da nossa infraestrutura”, afirma, lembrando que sua presença era constante, seja no acolhimento a visitantes, seja nas conversas que misturavam ciência, experiência acadêmica e um refinado gosto por vinhos.
Física teórica, a reitora destaca ainda a generosidade intelectual de Zawislak no ensino. “Mesmo já sendo um pesquisador consolidado, ele dava aulas brilhantes a parte experimental. Aprendi muitíssimo com ele”, conta ao Jornal da Ciência.
Fernando Zawislak recebeu diversas distinções acadêmicas, entre as quais a Ordem Nacional do Mérito Científico, nos graus de Comendador (1995) e Grã-Cruz (2004), a Medalha Sylvio Torres da FAPERGS (2007) e o título de Professor Emérito da UFRGS (2008). Era membro da Academia Brasileira de Ciências desde 1982. Foi membro coordenador do Comitê Assessor de Física e Astronomia do CNPq, integrou o Conselho Deliberativo do CNPq e presidiu a Sociedade Brasileira de Física (1991–1993).
A SBPC se solidariza com os familiares, amigos e com toda a comunidade científica neste momento de luto.
SBPC