domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Pesquisadoras e pesquisadores, defender a ciência é defender nosso futuro

“Essa pandemia da ciência criada pelo governo é uma ameaça a crianças, jovens e adolescentes que precisam ter um futuro”, alerta Roberto Barbosa, professor do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento  da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em artigo para o Jornal da Ciência

Orquestraram um crime contra o futuro, a redução em 92% do investimento programado para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) para o próximo ano.

Enquanto a família presidencial passeia de jet-ski e de motocicleta ou exibem-se em mansões e viagens de luxo a Dubai, os órgãos de investigação silenciam-se com o ministro da Economia que guarda dinheiro em paraísos fiscais, enquanto milhares de brasileiros se alimentam com ossos e têm seus salários consumidos pela inflação.

Aliado a isso, os chamados “representantes do povo”, senadores e deputados federais acataram e votaram a favor do desmonte da ciência nacional, fato que deve ficar guardado em nossa memória. Porém, não apenas isso, pois a sociedade científica, para além da diminuição drástica de fundos para financiamento das pesquisas, algo em torno de oito bilhões de reais somente nos últimos cinco anos, enfrentam também a suspensão judicializada da avaliação quadrienal da Capes e a PEC 32, que ataca o andar de baixo dos servidores públicos em que se incluem os professores universitários.

Como se isso não bastasse, recentemente o ministro da Educação, o Sr. Milton Ribeiro, resolveu inovar. Falta-lhe visão de futuro e presente, sem construir absolutamente nada, resolveu desmembrar os campi universitários de universidades e institutos federais e conferir-lhes novos nomes e novos reitores.

Ora, parece que estamos assistindo uma cruzada contra a ciência nacional, e isso não é um segredo, como demonstrou a CPI da Pandemia. Do mesmo modo, não podemos nos esquecer do show de horrores, como a expedição de mandatos, prisão e humilhação de professores universitários e reitores inclusive em suas casas, levados a essa condição por membros da polícia, do judiciário e do Ministério Público Federal e que culminou na pior das consequências possíveis, na trágica morte de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Um país que opta em interromper a atividade acadêmica e a pesquisa científica opta, também em se tornar eternamente consumidor delas. Nessa pandemia perdemos mais de 600 mil vidas, muitas delas eram idosos e idosas que guardavam a memória, a sabedoria e a nossa história. Essa pandemia da ciência criada pelo governo é uma ameaça às crianças, jovens e adolescentes que precisam ter um futuro.

Por esta razão recorro ao presente para fazer um chamado aos pesquisadores e as pesquisadoras brasileiras para que se oponham a essa situação que constrange não só a nós, mas toda a nação.

A comunidade universitária talvez ainda não esteja de todo consciente da sua força enquanto coletividade para se opor a essas medidas retrogradas e autoritárias, mas a história mostra que a universidade pública brasileira tal qual a conhecemos resulta justamente da luta incessante no campo político e acadêmico de nossos antecessores, entre eles, estudantes e docentes. Outrossim, as entidades científicas que hoje nos representam surgiram também desse movimento dialético.

Movimento dialético político-acadêmico, que deve tornar-se mobilização, pois hoje o que vivemos parece encaixar-se muito bem no que escreveu em 1940 o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade em crítica ao sofrimento e a desigualdade no mundo: “Estou preso à vida e olho meus companheiros, estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas…”

* O artigo expressa exclusivamente a opinião de seus autores