domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Divulgação Científica

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pesquisa internacional é relançada para avaliar modelo de fomento criado pela inovação

Pesquisa é liderada pela rede internacional The Changing Academic Profession que reúne membros de 19 países

Pesquisadores de 19 países, incluindo o Brasil, relançam questionário para analisar o impacto do termo “inovação” que gerou um novo modelo de financiamento à pesquisa acadêmica nos últimos anos. A decisão foi tomada no seminário internacional realizado no auditório do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na semana passada, entre 22 e 24 de abril.

Tais pesquisadores fazem parte da rede internacional de pesquisa chamada The Changing Academic Profession, criada para estudar as respostas do ambiente acadêmico aos desafios colocados pelo processo de globalização e pelas reformas nas políticas de ensino superior.

Responsável no Brasil pelo levantamento em curso, Elizabeth Balbachevsky, professora associada do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e associada ao Fórum de Pensamento Estratégico da Reitoria da Unicamp, informou que as entrevistas serão realizadas até 2017 com cerca de 2 mil pesquisadores de 19 países, repetindo o mesmo número da pesquisa anterior.

A última pesquisa da rede foi realizada entre 2007 e 2008. O levantamento foi submetido a pesquisadores de países como Portugal, Noruega, Inglaterra, Coreia, China, Malásia e Japão – para os quais foi disponibilizado o questionário com linhas gerais de interesse de todas as partes envolvidas.

Naquela época a pesquisa quis identificar mudanças que estavam em curso na área acadêmica, em escala global, trabalho que, segundo Elizabeth, rendeu a publicação de dez livros pela Editora Springer.

Novo paradigma de fomento à pesquisa

A pesquisa, agora, é relançada para analisar os impactos dos novos paradigmas do financiamento às pesquisas básica e aplicada, dentro de um cenário mais recente – o da inovação.

Segundo Elizabeth, o conceito inovação vem mudando significativamente o modelo de financiamento à pesquisa, até então chamado de “financiamento de balcão”.
“A demanda pelo tema (inovação) era formulada dentro da academia, quando o pesquisador apresentava um projeto. Agora se introduz um diálogo com a sociedade sobre inovação”, explica Elizabeth, também vice-coordenadora do Núcleo de Pesquisa sobre Políticas Públicas da USP.

Ela é organizadora do seminário internacional que teve como tema “a experiência internacional nas áreas de engenharia, tecnologias, matemática e ciências.”
Desafio do Brasil

Elizabeth avaliou os desafios do Brasil perante o novo paradigma de fomento à pesquisa acadêmica e reforçou que o setor empresarial brasileiro é pouco competitivo. Ela avalia que isso é fruto de uma herança política baseada “na imitação” de produtos.

“Esse tipo de política cria um ambiente empresarial pouco competitivo. O mercado interno é bastante controlado e empurra as empresas para uma lógica de inovação baseada na cópia”, observa.

Segundo a pesquisadora, vários estudos internacionais apontam que a inovação baseada na imitação diminuiu a demanda de novas ideias e de produtos. E essa prática reduz a necessidade de uma mão de obra mais qualificada porque parte da “ideia de permitir mão de obra barata”.

Elizabeth acredita, porém, que esse paradigma não se sustenta mais, até por que o modelo chinês fornece produtos com preços abaixo da concorrência. “A indústria brasileira não consegue mais competir na base de uma mão de obra barata.”

De acordo com a especialista, o sistema de ciência, tecnologia e inovação da universidade brasileira tem se esforçado para adotar uma nova dinâmica nas atividades de pesquisa.

“Mas isso não depende apenas da área acadêmica. Depende de um ambiente empresarial, de acordos. Isso não é algo que pode ser feito pelo sistema de CT&I acadêmico, unilateralmente”.

Viviane Monteiro/Jornal da Ciência