quarta-feira, 30 de outubro de 2019
“O governo do meu país está pressionando a pesquisa e empurrando a floresta tropical para a beira do abismo”, escreve o climatologista Carlos Nobre, em artigo publicado na revista Nature, nessa terça-feira, 22 de outubro
Em agosto, os céus do lado de fora do meu escritório em São Paulo, no Brasil, estavam cheios de fumaça dos incêndios na floresta amazônica. Lembrei-me da floresta que vi na década de 1970, na adolescência, em férias em família – sua beleza, rios poderosos, povos indígenas e chuvas contínuas – e pensei em quanto meu país (e o mundo) poderia perder. Bispos de toda a região amazônica se reuniram no Vaticano este mês para orar e criar estratégias em nome da “ecologia integral, o clamor da Terra e dos pobres”. A reversão da situação no Brasil é essencial para o “bom viver” que o sínodo busca.
A fumaça desapareceu da minha cidade, por enquanto, mas a floresta tropical do Brasil nunca esteve em maior perigo. Nem sua ciência – tão necessária para apoiar o agronegócio sustentável e inventar uma economia centrada em uma floresta intacta. No mês passado, milhares de estudantes de pós-graduação souberam que suas bolsas não seriam renovadas.
Desde que assumiu o poder em janeiro, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, relaxou a aplicação de leis que proíbem a maior parte da destruição e queima da Amazônia. Análises de imagens de satélite mostram que a estação seca deste ano provocou quase o dobro de incêndios que a do ano passado, e que as chamas brilhavam nas imagens de satélite – como era esperado pela queima de uma grande quantidade de biomassa da floresta recentemente cortada. As estimativas iniciais indicam que mais de 90% desses incêndios eram ilegais. Em vez de enfrentar dados tão alarmantes, Bolsonaro demitiu o diretor da agência que monitora o desmatamento.
Estes são retrocessos enormes. De 2005 a 2014, o Brasil reduziu sua taxa anual de desmatamento em cerca de 75%. No mesmo período, o valor da produção agrícola aumentou cerca de 200%. A ciência e a tecnologia promoveram esse progresso. O monitoramento por satélite desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil forneceu alertas diários sobre o desmatamento. Isso facilitou a aplicação eficaz da lei e programas de incentivo à proteção da floresta.
O exemplo do meu país serviu de inspiração para outros. Sem o Brasil como modelo, o desmatamento deve se acelerar em toda a Amazônia. Já está aumentando na Colômbia, Peru e Bolívia. Doze anos atrás, meus colegas e eu calculamos que, se a área da floresta tropical diminuir em 40% da sua extensão na década de 1970, ela não poderá voltar a crescer – e até 70% da floresta original poderia se transformar em uma savana mais seca e quente (G. Sampaio et al. Geophys. Res. Lett. 34, L17709; 2007). Com o aumento da temperatura global, desmatamento, incêndios e a seca concomitante, essa margem encolheu.
Na maior parte da bacia amazônica, a estação seca já dura várias semanas mais, principalmente em áreas desmatadas; com isso, devolvem menos umidade à atmosfera do que a floresta tropical em geral. Se o desmatamento continuar, a floresta poderá entrar em colapso. Muitos meios de subsistência serão impossíveis de manter. Menos chuva cairá, as temperaturas subirão e dezenas de milhares de espécies serão perdidas junto com o poder da floresta de absorver até 5% das emissões de carbono do mundo.
O desmatamento para aumentar as terras agrícolas não é mais necessário. A Amazônia brasileira possui cerca de 17 milhões de hectares de terras degradadas e improdutivas que poderiam ser restauradas e usadas para agricultura sustentável, incluindo novos produtos florestais. As terras que já estão em produção têm capacidade para aumentar a produção várias vezes. Tecnologias inovadoras e gerenciamento inteligente podem gerar uma ‘bioeconomia’ baseada na extração sustentável de materiais para mercadorias, que variam de produtos farmacêuticos a alimentos (o açaí é o exemplo mais famoso), cosméticos e outros. Com monitoramento e fiscalização eficazes, essas “bioindústrias” podem impulsionar a economia, respeitar os direitos sociais e os povos tradicionais e proteger os ecossistemas da Amazônia.
Tudo isso será impossível se a capacidade científica do Brasil definhar. Em 1998, menos de 4.000 estudantes de doutorado se formaram. No ano passado, havia mais de 22.000. Os fundos governamentais para a ciência cresceram constantemente a partir da década de 1980, mas diminuíram com a recessão econômica de 2015. Ao contrário de países como Coreia do Sul, China e Alemanha, que investiram mais em ciência para criar resiliência à turbulência econômica, a ciência brasileira tem enfrentado severos cortes no orçamento ano após ano.
Agora, ao invés de assistir meus compatriotas mais jovens construírem nossa instituição científica, eu os vejo quase forçados a irem embora. O governo também está mudando a direção da pesquisa. O objetivo é substituir a floresta pela pecuária, monoculturas, operações de mineração e grandes usinas hidrelétricas.
Durante grande parte da minha carreira, trabalhei para reconciliar visões aparentemente opostas do uso da terra: algumas pessoas defendem a proteção de grandes áreas para conservação e outras defendem o ‘desenvolvimento intensivo de recursos’ baseado na agricultura, pecuária, energia e mineração. Acho que devemos nos concentrar na construção de um paradigma diferente, sustentável, no qual a floresta contribua para o bem-estar. Além do progresso que já aconteceu na redução do desmatamento e no fomento ao agronegócio sustentável, vejo muita promessa em uma iniciativa chamada Amazônia 4.0, após a Quarta Revolução Industrial de biotecnologias, tecnologias digitais e ciência dos materiais. Para cumprir essa promessa, precisaremos de cientistas e engenheiros mais do que nunca.
Eu receio que a ciência brasileira e a floresta amazônica estejam chegando a um ponto crítico – do qual a recuperação será provavelmente impossível. Para evitá-lo, cientistas dentro e fora do Brasil devem protestar vigorosamente contra o movimento anticientífico e falar claramente à sociedade sobre a importância da ciência e da Amazônia para o bem-estar humano e a sustentabilidade do planeta.
Nature 574, 455 (2019) - com tradução do Jornal da Ciência
Texto publicado no dia 24/10/2019