sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Biomonitoramento revela exposição crônica a poluentes da queima de biomassa mesmo fora do período de combate direto ao fogo. Leia em artigo da nova edição da Ciência & Cultura
O Pantanal, maior planície alagada do planeta, é reconhecido mundialmente por sua extraordinária biodiversidade e por seu papel estratégico no ciclo global do carbono. No entanto, nas últimas décadas, o bioma passou a simbolizar de forma contundente os efeitos da crise climática. A combinação entre estiagens severas, temperaturas cada vez mais elevadas e profundas alterações no regime hidrológico tem intensificado a frequência, a duração e a severidade dos incêndios florestais. Isso é o que discute artigo da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “COP30: ciência, política e ação”.
Episódios extremos, como o de 2020 — quando quase um terço do Pantanal foi consumido pelo fogo —, seguidos por novas temporadas críticas em 2023 e 2024, indicam que não se trata mais de eventos isolados, mas de uma tendência persistente, associada ao aquecimento global, às pressões humanas e às mudanças no uso do solo. “A combinação entre estiagens severas, temperaturas elevadas e alterações profundas no regime hidrológico intensificou a ocorrência e a duração dos incêndios florestais na região”, explicam os autores do artigo.
No centro desse cenário estão bombeiros militares e brigadistas, profissionais que atuam na linha de frente do combate aos incêndios florestais, muitas vezes em condições extremas. Enquanto os brigadistas são contratados de forma temporária, por meio do Ibama e do Prevfogo, os bombeiros militares integram os quadros permanentes dos estados e municípios. Apesar das diferenças de vínculo e formação, ambos enfrentam desafios semelhantes: jornadas exaustivas, calor intenso, desidratação, deslocamentos em áreas de difícil acesso e, sobretudo, a exposição contínua à fumaça densa resultante da queima de biomassa, rica em partículas finas e compostos tóxicos.
Embora a fumaça seja um elemento visível e recorrente nos incêndios, seus impactos sobre a saúde desses trabalhadores ainda são pouco investigados no Brasil. Isso ocorre apesar de a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer já classificar a exposição ocupacional ao combate a incêndios como carcinogênica para humanos. No Pantanal, o risco é potencializado pelas características do bioma: longos períodos de seca, ausência de barreiras naturais ao avanço do fogo, poucas rotas de escape e uma vegetação diversa, que favorece incêndios prolongados e de difícil controle. Além dos riscos imediatos, como queimaduras e exaustão térmica, a exposição à fumaça está associada a inflamações respiratórias, prejuízos à função pulmonar, alterações cardiovasculares, distúrbios do sono e aumento de marcadores de estresse oxidativo, com possíveis efeitos crônicos ao longo do tempo.
Os impactos dos incêndios vão além da saúde humana e atingem também a integridade ambiental do Pantanal. Análises de solo revelam a deposição de material particulado e resíduos de combustão, indicando o acúmulo de substâncias tóxicas que podem permanecer no ambiente e favorecer processos de reexposição tanto dos trabalhadores quanto das populações locais. Esse quadro evidencia uma dupla vulnerabilidade: social, institucional e trabalhista, no caso dos profissionais que combatem o fogo, e ecológica, no caso do bioma. “Os incêndios que acometem o Pantanal geram condições de exposição que configuram risco significativo tanto para a saúde dos trabalhadores envolvidos no combate ao fogo quanto para a integridade ecológica do bioma”, enfatizam os autores.
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Ciência & Cultura