sexta-feira, 30 de setembro de 2022
Artigo de Lisiane Bizarro Araujo, professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e secretária geral da Sociedade Brasileira de Psicologia
A saúde mental passou a ser um tema de grande evidência com a pandemia covid-19. Assim como outros aspectos fisiológicos, os agravos em saúde mental afetaram de forma desigual as pessoas. Não é mais possível aceitar a desigualdade ao acesso a ambientes com influências positivas para o desenvolvimento, o que inclui o acesso universal à saúde.
Já faz alguns anos que o governo do Reino Unido encomendou um estudo que envolveu 450 peritos de 16 países e decisores políticos sobre Capital Mental e Bem-Estar. O objetivo era identificar desafios e oportunidades dos 20 anos seguintes e o que poderia ser feito para enfrentar e prevenir perdas de capital mental.
O “capital mental” engloba os recursos cognitivos e socioemocionais, enquanto o bem-estar mental, refere-se à capacidade dos indivíduos para desenvolver seu potencial, trabalhar produtivamente e criativamente, construir relações fortes e positivas com os outros e contribuir para a sua comunidade.
As conclusões do Foresight Project foram divulgadas em 2008 e indicaram que o desperdício de capital mental, somado ao aumento da expectativa de vida e à diminuição da fecundidade, levará a uma verdadeira bomba de custos sociais, com o aumento dos casos de doenças incapacitantes, demência e declínio cognitivo. O projeto alerta para a necessidade de agirmos para melhorar o ambiente onde as pessoas se desenvolvem, integralmente e equitativamente. Capital mental e bem-estar dependem de influências positivas e negativas ao longo da vida. O ambiente se modifica ao longo da vida e as influências positivas e negativas de instituições como a escola, a organização do trabalho, políticas públicas de saúde, educação e inclusão são alguns dos contextos que formam uma rede de apoio social que beneficiam o capital mental e bem-estar mental.
O desafio de países de renda média e baixa para adotar uma perspectiva mais ampla e de longo prazo na criação de ambientes com influências positivas para as competências socioemocionais é ainda maior. A pobreza tem impactos psicossociais importantes no bem-estar pessoal. Um estudo nacional mostrou, por exemplo, que as taxas de suicídio foram menores entre recebedores do bolsa família, comparando com aqueles que não a receberam, por exemplo.
Não há nenhuma evidência que pobreza melhore saúde ou saúde mental. Não é à toa que acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares é o objetivo de desenvolvimento sustentável (ODS) #1 da Agenda 2030 da ONU. Os ODS são importantes para garantir que todos possam realizar o seu potencial em dignidade e igualdade, em um ambiente saudável, para assegurar que todos possam desfrutar de uma vida próspera e de plena realização pessoal, promover sociedades pacíficas, justas e inclusivas que estão livres do medo e da violência e que o progresso econômico, social e tecnológico ocorra em harmonia com a natureza.
Onde a inação vai levar todos nós, como sociedade? Ou pior, como decisões de gestores de políticas públicas descompromissadas com os direitos humanos e a Agenda 2030 contribuirão para capital mental e o bem-estar?
A ausência ou presença de doença mental não é permanente, tem efeitos cumulativos ao longo da vida e abrange uma ampla gama de ambientes como escola, trabalho, justiça, assistência social, emergências, desastres e pandemia. Felizmente, estratégias de tratamento e prevenção baseados em evidências estão disponíveis e fazem parte das influências positivas ao desenvolvimento. Mas, assim como outras influências positivas, não estão disponíveis de forma equitativa na sociedade. Alguns são sujeitos aos efeitos crônicos permanentes do medo, da raiva e da tristeza com mais frequência do que outros. Uma perspectiva mais ampla e de longo prazo na criação de ambientes com influências positivas para as competências socioemocionais como uma política de Estado seria um passo importante para garantir, entre muitos outros direitos, o amplo acesso à saúde.
Sobre a autora:
Lisiane Bizarro Araujo é professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Psicóloga (UFRGS 1991), mestre em Psicologia do Desenvolvimento (UFRGS 1995) e Ph.D. em Psicologia (Institute of Psychiatry King’s College London, 2000), é também pesquisadora CNPq e secretária geral da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP).
O artigo expressa exclusivamente a opinião da autora.