sexta-feira, 2 de março de 2018
Em entrevista ao Jornal da Ciência, João Batista Garcia Canalle, astrônomo da Uerj e coordenador geral da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, fala da expectativa para o evento e da parceria que permitirá a participação de estudantes de países lusófonos
A 21ª Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e a 12ª Mostra Brasileira de Foguetes (MOBFOG) estão com inscrições abertas para a competição que acontece no dia 18 de maio.
Para a edição de 2018 dos eventos, a organização espera a participação de 800 mil alunos na OBA e 100 mil na MOBFOG. Em 2017, participaram 660 e 94 mil estudantes, respectivamente.

“A prática pode despertar o interesse do aluno pela teoria”, diz o professor João Canalle, coordenador geral da OBA. Crédito: Divulgação
Neste ano a OBA abrirá espaço de forma ampla à comunidade de outros países de língua portuguesa, iniciativa em parceria com o Grupo Lusófono de Astronomia para o Desenvolvimento (PLOAD, sigla em inglês), organização que promove a utilização da astronomia como um instrumento para o desenvolvimento em países e comunidades de língua portuguesa.
A Olimpíada é realizada em 13 mil escolas para alunos dos ensinos fundamental e médio. Os participantes recebem certificados e concorrem a 50 mil medalhas que serão distribuídas. Em 2017 foram 40 mil medalhas.
As escolas interessadas em participar da competição podem se inscrever até 18 de março no site oficial da Olimpíada. As instituições de ensino que já participaram da edição passada da competição não precisam realizar um novo cadastro.
Em entrevista ao Jornal da Ciência, o professor João Batista Garcia Canalle, astrônomo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador geral da OBA, explica as dificuldades enfrentadas em outras ocasiões que a Olimpíada abriu espaço pontual para países como Timor Leste e Moçambique e como espera resolver a questão para esta edição.
O cientista fala também da abrangência e dos cortes promovidos pelo Governo Federal no orçamento do evento, além da participação brasileira na promoção de outras olimpíadas nos países vizinhos e na atuação para criação da Olimpíada Latino Americana de Astronomia e Astronáutica (Olaa).
Leia a entrevista completa a seguir.
Jornal da Ciência – Neste ano será realizada a 21ª edição da OBA: quais são as expectativas e as novidades para esta edição?
João Batista Garcia Canalle – A expectativa é de recebermos 800 mil alunos para a OBA e 100 mil para a MOBFOG. Nos anos anteriores a média foi esta, e queremos, pelo menos, mantê-la.
JC – Como foi feita a parceria com os países de língua portuguesa?
JBGC – Já fizemos parcerias pontuais anteriormente com escolas do Timor Leste e Moçambique, mas não deu muito certo por conta de entraves burocráticos, como taxas para envio de documentos, certificados e até medalhas. As alfândegas não entendem que se trata de premiação ou doação e cobram taxas de importação que impossibilita a participação dessas escolas.
Agora nós fizemos uma parceria com o Grupo Lusófono de Astronomia para o Desenvolvimento (PLOAD, sigla em inglês) e esperamos que esse tipo de obstáculo não apareça mais. Vai depender basicamente da divulgação nas escolas participantes.
JC – Qual a abrangência internacional da OBA dentro da América Latina e, também, em outros países mais desenvolvidos?
JBGC –Em outros países fora de nosso continente ainda há pouca capilaridade da OBA, mas aqui na América Latina nós conseguimos estimular a criação de olimpíadas em outros países e, melhor, a criação da Olimpíada Latino Americana de Astronomia e Astronáutica (Olaa).
JC – Como isso se deu?
JBGC – Em 2008, com a OBA já consolidada e confiante do nosso papel, o representante brasileiro propôs, durante uma reunião internacional no Equador, a criação de uma olimpíada latino americana em nossa área, mais ou menos nos moldes da brasileira. Àquela altura, nenhum país da região tinha uma olimpíada ou algo parecido e nós, durante a elaboração, propusemos que, para assegurar participação na competição latino americana, cada país teria de ter sua versão nacional. E foi um sucesso. Hoje temos olímpiadas na Argentina, Uruguai, Colômbia, Equador, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru e México. O Panamá deve começar em 2018.
JC – A OBA atinge o País todo igualmente ou há regiões que participam mais?
JBGC – Nós da organização estimulamos todas as regiões, todos os estados e o máximo de cidades, mas evidentemente há uma disparidade grande. Além de o Brasil ter uma desigualdade social e econômica abissal, nós também temos enfrentado dificuldades orçamentárias, regionais, geográficas e populacionais. Então, não podemos esperar que um estado como o Amazonas, que apesar de ser enorme territorialmente tem um número baixo de escolas, tenha uma adesão e representatividade como vemos, por exemplo, em São Paulo. Em São Paulo, afinal, quase que a totalidade das escolas está em áreas urbanas, o estado é mais rico, tem mais tecnologia. No Amazonas, nós podemos enviar cartazes de divulgação, mas há escolas ribeirinhas, rurais, que estão a quilômetros e quilômetros do órgão estadual ou municipal. O estado também fica atrás demograficamente. Então não temos como, apesar do esforço, divulgar e atingir de maneira equânime. Usei dois exemplos, mas veja a dimensão territorial brasileira, não tem como.
Dessa forma, em linhas gerais, temos o estado de São Paulo na primeira posição em adesões, o Ceará em segundo e o Amazonas lá na rabeira.
JC – Como é a proporção de alunos de escolas públicas e privadas?
JBGC – Até o ano passado, a média de participação de instituições privadas foi de 20% e 80% das públicas, sem controle entre estaduais e municipais. Mas nós temos assistido, de cinco anos pra cá, um sensível e gradual crescimento das escolas privadas: há cinco anos, por exemplo, a representatividade delas era 15%.
Isso é natural, principalmente no ensino fundamental. Afinal, a escola de ensino básico, fundamental, não tem como aferir, por exemplo, o ingresso de seus alunos numa boa faculdade. Então, aquele estudante que ganha medalha em uma olimpíada nacional, podendo posteriormente até representar o País em uma modalidade internacional, é um símbolo, uma bandeira para aquela escola, para atestar sua qualidade.
JC – Qual a importância de eventos paralelos à OBA, como a MOBFOG, e como eles nascem?
JBGC – A Astronáutica entrou na OBA em 2005, quando firmamos parceria com a Agência Espacial Brasileira e, em 2007, começamos a organizar a Mostra Brasileira de Foguetes, MOBFOG, essa que é uma olimpíada experimental de confecção e lançamento de foguetes obliquamente. A única a utilizar vinagre e bicarbonato de sódio na confecção do combustível para os alunos do ensino médio, envolvendo, assim, também a química.
A competição consiste na avaliação e capacidade dos estudantes de construir e lançar, o mais longe possível, foguetes construídos com garrafas pet, tubo de papel ou canudos de refrigerantes. Os estudantes podem competir individualmente ou em equipes de até três pessoas. O desafio ocorre dentro da própria escola e tem quatro níveis. Os competidores que estão no ensino médio e alcançarem mais de 100 metros no lançamento de seus foguetes serão convidados para a Jornada dos Foguetes, evento que ocorre ainda este ano em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro.
Também temos outros eventos como o planetário digital itinerante ou os encontros regionais de astronomia e astrofísica, que não ocorrem junto à OBA, mas visam à capacitação dos professores.
JC – Anteriormente o senhor mencionou que tem enfrentado dificuldades com cortes orçamentários. Qual a importância de um evento como a OBA para o fortalecimento da ciência no Brasil?
JBGC – Nós temos sofrido corte de verbas, principalmente de três anos pra cá. Mas temos enfrentado isso. Felizmente nós temos no Brasil uma política de popularização da ciência. Por meio do CNPq, o Governo Federal, há 15 anos, lançou esse edital, que nos garante recursos para promover as olimpíadas de conhecimento.
JC – Qual o montante desses cortes? Como vocês fazem para continuar com, no mínimo, o mesmo público com o orçamento sendo reduzido?
JCB – Esses cortes são da ordem de 50%. A média dos recursos que recebíamos era de quase 800 mil reais; ano passado foi 460 mil e para 2018 melhorou um pouquinho: temos 520 mil reais.
O modo de enfrentarmos isso é cortando, principalmente na divulgação, o que dificulta bastante. Cortamos muito em impressão de material e correio, que é muito caro no Brasil. Então, antes enviávamos um cartaz para cada escola realizar a divulgação. Hoje enviamos apenas para as secretarias estaduais e municipais de educação e utilizamos massivamente as redes sociais e o e-mail. É ruim pelas dificuldades operacionais. Às vezes vão parar no spam, não atinge aquele professor ou diretor que gostaríamos, mas a OBA também já é bem conhecida e está no calendário de muitas dessas escolas. Também tivemos que atribuir aos alunos das equipes que representam o Brasil em Olimpíadas internacionais a responsabilidade de pagarem suas próprias passagens, pois não temos mais recursos para isso.
JC – A olimpíada também tem impactos nos professores, estimulando novas práticas pedagógicas. O que os professores podem aprender com essas experiências? Como um professor pode despertar a paixão pela astronomia nos alunos?
JBGC – O professor acaba sempre aprendendo um pouco em cada edição da OBA, pois prepara seus alunos, aplicas as provas da OBA, corrige mediante um gabarito, recebe orientações sobre como realizar diversos experimentos de ensino de astronomia, como construir e lançar, com segurança, os foguetes, etc. Nas atividades de lançamentos de foguetes o aluno se encanta por sair da sala de aula, daquele negócio de sentar numa carteira, copiar e decorar tal matéria. Não! Ele vai aprender na prática, envolvido com aquilo, inclusive com reações químicas para alunos do ensino médio. Assim, a prática pode despertar o interesse do aluno pela teoria. E o professor se vê feliz por acompanhar o desempenho do aluno, às vezes ganhador de medalha. Ele se sente orgulhoso e também vai ensinar com mais prazer, afinal a gente sabe que pelo salário não está fácil.
Também tem nossa colaboração, com envio de periódicos, livros e até lunetas. Estamos sempre dispostos a interagir à distância, além dos encontros regionais, que fazemos aquele corpo a corpo, também muito bacana para o ensino-aprendizagem.
JC - Uma questão bastante discutida hoje em dia é a importância de estimular as meninas a se interessarem pela ciência. Como a OBA vai contribuir nesse sentido?
JBGC – Essa é uma questão muito importante e motivo de preocupação para nós. A participação das meninas na OBA, tanto no (ensino) fundamental como no médio, é igual à participação dos meninos e às vezes até supera. Mas essa igualdade não é verificada na hora da distribuição das medalhas, então identificamos um problema. Que ocorre também em outras instâncias. Nas grandes áreas científicas de graduação também vemos uma grande participação das meninas, mas a situação vai mudando quando olhamos para uma formação mais aprofundada e para os principais postos.
Uma maneira que achamos para encarar esses problemas é estabelecendo a obrigatoriedade de nossas equipes em competições internacionais serem mistas. Também brigamos por essa bandeira no regulamento da Olaa. Assim, nós estamos igualando as chances dessas meninas ganharem medalhas e terem maior visibilidade. Esse movimento, bem divulgado, desperta o interesse de outras meninas, quase como um efeito dominó.
Sobre a OBA
A OBA é coordenada por uma comissão formada por membros da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e da Agência Espacial Brasileira (AEB) e conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Universidade Paulista (Unip), Visiona e da Avibras.
Mais informações:
E-mail: oba.secretaria@gmail.com
Telefone: + 55 (21) 2334-0082 / 4104-4047 / 2254-1139
Celular: + 55 (21) 98272-3810
Marcelo Rodrigues – estagiário da SBPC, para o Jornal da Ciência