domingo, 20 de setembro de 2026
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sexta-feira, 30 de junho de 2023

O que as crianças Uitoto e a Antropologia da Criança podem ensinar sobre os modos indígenas de (r)existência?

Artigo de Diógenes Egídio Cariaga,professor da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, e Suzana Cavalheiro, professora da Universidade Federal do Pampa

No dia 09 de junho, através do Twitter, o presidente da Colômbia anunciou o resgate do grupo de quatro crianças indígenas, irmãos com idades entre 13 a 4 anos e um bebê de um ano, que ficaram desaparecidas na selva por quarenta dias após a queda do avião que vitimou o piloto e a mãe das crianças. Em meio às notícias que foram veiculadas, um ponto em comum ecoava: como crianças tão pequenas conseguiram sobreviver em uma região tão hostil? Onde mesmo as pessoas adultas mobilizadas para o resgate tiveram que ser atendidas emergencialmente devido a umidade e a extensa jornada na busca, como em condições tão adversas as crianças permaneceram vivas?

A resposta veio dos seus parentes: eles são filhos da floresta, sabem como sobreviver na selva. A família, pertencente ao povo uitoto, etnia que habita a Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, foi incisiva em dizer que não se tratou de um “milagre”, mas foi pela capacidade de agência das crianças devido ao que aprenderam com os mais velhos e na vida comunitária sobre como se relacionar com a floresta, seus recursos e a presenças mais que humanas que lá podem habitar (MORENO, 2017).

O tema da agência e a capacidade de produção e circulação de conhecimentos das crianças indígenas tem sido tema de pesquisa no campo da Antropologia no Brasil desde a década de 1990, desenvolvido muito próximo ao campo dos estudos da educação escolar indígena, como por exemplo as pesquisas desenvolvidas pelo MARI/USP-Grupo de Educação Indígena em torno do projeto temático “Antropologia, História e Educação”, voltado para compreender os modos ameríndios de produção de conhecimentos e de pessoas através dos processos de aprendizagem. Como resultado deste projeto foi publicada a série Antropologia e Educação, que tem entre as suas obras a coletânea Crianças Indígenas – Ensaios Antropológicos (LOPES DA SILVA, Aracy, MACEDO, Ana V. L. S. e NUNES, Angela 2001). Os textos contidos no livro procuravam ampliar o escopo do debate sobre temas canônicos como parentesco, xamanismo e transformações ameríndias tendo como perspectiva a maneira como as crianças formulam descrições e reflexões sobre suas relações, dando relevo ao argumento proposto por Clarice Cohn (2005) de que as diferenças entre as crianças e o adultos indígenas não reside numa concepção de universos geracionais particulares, mas sim a como cada geração qualifica e dimensiona suas experiências no modo de ser criança.

Neste aspecto, a história do resgate das crianças uitoto demonstra que a capacidade de sobreviver na selva não foi casuística, a habilidade de se manterem vivas é extensiva ao que aprenderam através dos regimes e técnicas de conhecimento do seu povo que é um povo da floresta. Em uma entrevista ao portal de notícias La Semana, o avô das crianças contou que desde cedo as crianças são estimuladas a participar do cotidiano das famílias nas roças, na construção das moradias, nas incursões à mata, no manejo com os animais e outros seres que podem habitar a floresta. Para o avô, foram as habilidades construídas no dia a dia da vida familiar que asseguraram que a irmã mais velha fosse capaz de identificar plantas comestíveis, folhas resistentes para construção de ranchitos para dormir e criar utensílios com os recursos disponíveis para manter as crianças menores e a bebê hidratada, porque em certa altura da caminhada, a mamadeira que levava consigo caiu na mata.

Situações como estas vão ao encontro do que é descrito em muitos trabalhos etnográficos que tem as crianças como agentes e interlocutoras das pesquisas em antropologia. Em diferentes contextos ameríndios no Brasil, desde os Maxakali (ALVAREZ, 2004), Kaingang e Terena (MANTOVANELLI, 2011) no sudeste, Karipuna (TASSINARI, 1998) e Galibi-Marworno (CODONHO, 2007) no Oiapoque (AP), no Alto Rio Negro visto nos contextos Baniwa (MARQUI, 2017), Whaíkhanã e Arapaço (PEREIRA, 2021), no Brasil Central entre os Xavante (NUNES, 2003) e os Xikrin (COHN, 2000), chegando ao Centro-Sul com os povos falantes de guarani (OLIVEIRA, 2004, CARIAGA, 2011, CAVALHEIRO DE JESUS, 2011), Kadwéu (LECZNIESKI, 2005) e Kaingang (LIMULJA, 2007).

Na esteira destes debates, percebe-se que o caso das crianças uitoto fala não apenas de um manejo sobre o entorno e um conhecimento da floresta, mas também das redes de cuidado e sociabilidade, que são adensadas pelas próprias crianças. Guiar o mais novo, confiar no mais velho, aprender em conjunto, observando, ouvindo e sentindo, são práticas que constituem os modos de ser criança em diversos povos.

O campo de estudos que ficou conhecido como Antropologia da Criança, demarca a autonomia e o protagonismo infantil em diversas esferas da vida em comunidade. Seja no contexto ritual, dos ritos de passagem, como entre os Xavante descritos por Ângela Nunes (2003), que informam sobre hierarquias, responsabilidade e de trânsito entre diferentes espaços sociocosmológicos ou nas cerimônias dentro da Casa de Rezas Guarani (Opy), descritos por Melissa Oliveira (20080; ou no lugar de mediadoras entre o mundo espiritual e o mundo material, entre os Maxakali, como descreveu Miriam Alvarez (2004), estas etnografias ensinam que ao descentrarmos a vida social ameríndia como sendo apenas da vida adulta, poderemos ver como crianças também ensinam e aprendem entre si mesma, mas nunca desconsiderando trocas geracionais.

As pesquisas expressam ainda da atuação política das crianças ao circularem por grupos domésticos e dialogando com parentelas diferentes das suas; das suas formulações frente a contextos escolares que atuam a partir de currículos eurocentrados; e dos processos de negociação que enfrentam cotidianamente quando acompanham familiares para vendas de artesanato nas cidades e deparam-se com visões colonialistas e racistas sobre os povos aos quais pertencem.

Este panorama sucinto aponta que ao deslocarmos nossas perspectivas sobre a agência das crianças nos contextos indígenas podemos conhecer outros modos de vivenciar o território, aprender como caminham por espaços que muitos adultos não acessam e aprendem a manejar o ambiente. O conhecimento das plantas, das trilhas, dos modos como movem-se os animais, das configurações de tempo e espaço são vividas pelas crianças e, comumente vividas em grupo. Assim, a sobrevivência das crianças Uitoto é uma notícia que diz respeito aos seus conhecimentos e habilidades em manejar o ambiente, as relações sociais e de cuidado.

Referências:

ALVAREZ, Miryam M. “Kitoko Maxakali”: a criança indígena e os processos de formação, aprendizagem e escolarização. Revista Antropológica, ano 8, vol 15 (1), 2004.

CARIAGA, Diógenes E. As transformações no modo de ser criança entre os Kaiowá em Te’ýikuê/Caarapó-MS (1950-2010). Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História), Universidade Federal da Grande Dourados, 2012.

CAVALHEIRO DE JESUS, Suzana. No campo da educação escolar indígena: uma etnografia sobre territorialidade, educação e infância, na perspectiva mbya-guarani. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais), Universidade Federal de Santa Maria, 2011.

CODONHO, Camila G. Aprendendo entre pares: transmissão horizontal de saberes entre as crianças indígenas Galibi-Marworno. Dissertação (Programa de Antropologia Social), Universidade Federal de Santa Catarina, 2007.

COHN, Clarice. A criança indígena: a concepção xikrin de infância e aprendizado. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade de São Paulo, 2000.

. Antropologia da Criança. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

LECKNIEZC, Lisiane K. Estranhos laços de predação e cuidado entre os Kadwéu. Tese (Programa de Antropologia Social), Universidade Federal de Santa Catarina, 2005.

LOPES DA SILVA, Aracy, MACEDO, Ana. V. L. S. e NUNES, Angela. Crianças Indígenas. Ensaios Antropológicos. Editora Global: São Paulo, 2001.

LIMULJA, Hanna C. L. Uma etnografia da escola FenNó à luz da noção de corpo e experiência das crianças kaingang. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade de Santa Catarina, 2007.

MARQUI, Amanda. Relações entre infância, escola e religião: etnografia Baniwa do Médio Içana. Tese(Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade Federal de São Carlos, 2017.

MANTOVANELLI, Thais. Crianças invisíveis da reserva indígena Icatu (SP). Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade Federal de São Carlos), 2011.

MORENO, Juana V. N. Uno de mujer es andariega: palavras e circulações de mulheres uitoto. Entre a Selva e a Cidade. Tese (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade de Santa Catarina, 2017.

NUNES, Angela. “Brincando de ser criança”: contribuições da etnologia indígena brasileira à antropologia da infância. Tese (Antropologia), Universidade de Lisboa, 2003.

OLIVEIRA, Melissa. S. Kyringué i kuery guarani: infância, educação e religião entre os Guarani de M’Biguaçu, SC. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade de Santa Catarina, 2004.

PEREIRA, Rosilene F. Cuidados na criação de gente. Habilidades e saberes importantes para viver no Alto Rio Negro. Tese (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social), Universidade de Santa Catarina, 2021.

TASSINARI, A.M.I. Contribuição à História e à Etnografia da Região do Baixo Oiapoque: a composição das famílias Karipuna e a estruturação das redes de troca. Tese (Antropologia Social), Universidade de São Paulo. 1998.

Sobre os autores:

Diógenes Cariaga é antropólogo e indigenista, professor da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, membro do CEPEX Rede de Saberes Indígenas, docente no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Grande Dourados.

Suzana Cavalheiro de Jesus é doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina e Professora Adjunta da Universidade Federal do Pampa – Campus Dom Pedrito.