domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Especial da Semana

sexta-feira, 31 de março de 2023

O Dia da Mentira e o Golpe de 1964

Editoria Especial desta sexta-feira é dedicada à fusão das duas datas – a do golpe, que a ditadura evocava no dia 31 de março, para não a associar ao Dia da Mentira, e também essa data, o 1º de abril, que tem uma vasta tradição no imaginário mundial. “Sim, a ignorância é um fator decisivo para a dominação antidemocrática, assim como o conhecimento é um ingrediente essencial à democracia”, comenta o presidente da SBPC, Renato Janine Ribeiro, neste editorial

Foi no dia 1º de abril de 1964 que a sociedade brasileira soube do golpe militar que lançaria nosso País nas trevas por 21 anos – o que, na época, era a idade da maioridade. Ou seja, uma geração inteira seria privada da liberdade por um grupo de militares e civis para quem os valores democráticos não importavam. E essa noite escura perduraria até que, por um lado, a sociedade lhe desse um basta, por outro, os ditatoriais não soubessem mais como tirar o Brasil do abismo em que o tinham lançado.

Decidimos celebrar, este ano, em nossa Editoria Especial de sexta-feira a fusão das duas datas – a do golpe, que a ditadura evocava no dia 31 de março, para não a associar ao Dia da Mentira, e também essa data, que tem uma vasta tradição no imaginário mundial. Conta-se, de modo geral, que ela se deveria ao fato de que o ano começava em vários países europeus, até a Renascença, em 1º de abril, e então o rei de França decidiu antecipar esse início para 1º de janeiro, o que teria levado a antiga data a ser celebrada como um dia de tolos (Fool’s Day, em inglês).

Na verdade, as coisas têm uma certa complexidade. Na Inglaterra, por exemplo, o começo do ano era em 25 de março, o Dia da Anunciação de Nossa Senhora, de modo que – por exemplo – o último dia de 1609 foi 24 de março de 1609, ao qual sucedeu 25 de março de 1610. Os ingleses só alterariam seu calendário na metade do século XVIII – ocasião também em que adotaram o calendário gregoriano, pois até então tinham mais de dez dias de atraso em relação ao continente europeu. (Assim é que Cervantes e Shakespeare morreram na mesma data, 22 de abril de 1616, mas na verdade o espanhol faleceu onze dias antes do inglês).

Voltando à mentira e seu dia, decidimos unir num único Especial as duas lembranças, a da mentira e a da ditadura, até porque hoje o professor Peter Burke dará o ponto de partida à 75ª Reunião Anual da SBPC falando, no edifício onde fica nossa sede, no Centro Maria Antonia da USP, sobre o uso que as ditaduras fazem da ignorância. Sim, a ignorância é um fator decisivo para a dominação antidemocrática, assim como o conhecimento é um ingrediente essencial à democracia.

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Há um caso famoso de Dia da Mentira no mundo da ciência, o episódio do boimate.

Em abril de 1983, a revista Veja noticiou que dois cientistas da Universidade de Hamburgo, os professores Barry McDonald e William Wimpey  – prestem atenção nos três nomes, que remetem todos ao prato de fast food que vai ser mencionado em seguida! – tinham conseguido cruzar os genes do tomate e do boi, gerando assim uma carne já adequada à produção de hambúrgueres. A notícia provinha da revista britânica New Scientist, que tem ou tinha o hábito de pregar uma peça todo dia 1º de abril. Obviamente, um leitor mais atento veria que os nomes da universidade e dos cientistas aludiam ao hambúrguer e a duas marcas bem conhecidas do produto.

A Veja noticiou o caso no final de abril, e o jornal O Estado de S. Paulo contou a história verdadeira em junho. Contudo, é bom notar que esse episódio é sobretudo brasileiro, porque o erro da revista somente ocorreu no Brasil – e se tornou um ponto essencial nos cursos e manuais de jornalismo, como lição do que se deve evitar. Mesmo assim, conforme a referência que se consulte, há quem diga que o artigo original saiu na Scientific American… É possível que os erros tenham uma capacidade de se multiplicar, mas mesmo assim temos que distinguir o erro, a brincadeira inocente de Primeiro de Abril e a mentira produzida em escala industrial, que é o caso das fake news, hoje tão em voga.

Renato Janine Ribeiro

Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

 

Veja os textos do especial da semana: Ditadura Militar e o Dia da Mentira

Os filmes sobre a ditadura

Agência Brasil, 29/03/2023 – Historiadores explicam disputa de narrativas sobre ditadura militar

Blog da Cidadania, 22/02/2020 – Ditadura militar usava fake news contra democracia

Matinal – Como a imprensa ajudou a derrubar Jango

Intercept, 22/09/2018 – ‘Na ditadura tudo era melhor’. Entenda a maior fake news da história do Brasil

Ubes, 31/03/2020 – Cinco “fake news” sobre a ditadura militar

Estado de Minas, 30/03/2022 – Entenda por que a afirmação de que não houve golpe no Brasil em 1964 não se sustenta

Estadão, 28/03/2023 – Para ironizar cargo de Dilma em banco, postagem resgata boato falso sobre assaltos na ditadura

Carta Capital, 04/03/2022 – Servidores denunciam o descarte de documentos sobre a ditadura

Estadão, 18/01/2023 – Governo Lula dispensa militares e nomeia pesquisadora para Comissão de Anistia

Carta Capital, 29/03/2023 – Em reunião com ministro, familiares de mortos e desaparecidos na ditadura pedem retomada de Comissão

DW-Brasil, 30/03/2023 – “Na democracia, militares devem ficar afastados da política”

Agência Brasil – Ditadura militar contribuiu para genocídio dos povos indígenas

Politize!, 29/03/2023 – Saiba quais foram os crimes da ditadura militar e suas consequências

Veja, 27/03/2023 – Ditadura: apoio ao golpe de 1964 beneficiou grandes empresários

Arte Pensamento IMS – A mentira: um capítulo das relações entre a ética e a política