sexta-feira, 30 de maio de 2025
Na primeira mesa realizada durante o seminário ‘Vozes da Ciência’, pesquisadores defenderam que só com políticas científicas contínuas o Brasil conseguirá se desenvolver
O papel da ciência básica na construção de um Brasil mais competitivo e desenvolvido foi tema do primeiro debate do “Vozes da Ciência”, um evento idealizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) que buscou apresentar caminhos para a próxima Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Intitulada “Ciência Básica: Alicerce para um Brasil Justo e Competitivo”, a mesa-redonda contou com a participação de Helena Nader, presidente da ABC e presidente de honra da SBPC; Aldo Zarbin, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e conselheiro da SBPC; Ricardo Galvão, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); e Anderson Gomes, secretário-geral adjunto e diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). A mediação foi feita por Fernanda Sobral, diretora da SBPC e professora emérita da Universidade de Brasília (UnB).
“Essa mesa tem como objetivo valorizar a ciência básica como fundamento estratégico para o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social do Brasil, tendo como temas principais a recomposição e o crescimento sustentado do orçamento público para a ciência básica, a criação de redes de excelência científica regionalizadas e promoção da interiorização da pesquisa e a expansão da formação de mestres e doutores com ações afirmativas para a diversidade racial, regional e de gênero”, explicou Sobral, na abertura da discussão.
Iniciando as falas, a presidente de honra da SBPC, Helena Nader, fez um breve histórico dos investimentos dedicados à ciência básica ao longo das décadas pelo mundo. A especialista afirmou que sempre existiu uma visão receosa sobre a ciência básica por ser um conhecimento de caráter mais teórico e não focado em produtos, mas que toda a tecnologia existente hoje nasceu da teoria.
“As transformações tecnológicas vêm da escolha da pesquisa básica. Sem a pesquisa básica, a gente não teria a internet e nem a inteligência artificial que temos hoje. Inclusive, a ciência básica é a que vai garantir as próximas inovações disruptivas.”
Conselheiro da SBPC, Aldo Zarbin complementou os discursos de Nader, criticando essa visão que distancia a ciência básica da realidade social. “Essa teoria de que a ciência básica não leva a uma aplicação direta é equivocada; se o conhecimento importa e se a aplicação direta é aquilo que eu quero chegar, eu preciso de uma base, eu preciso de um alicerce. Nós não construímos uma casa começando pelo telhado. Então, o alicerce de todo o conhecimento, de toda a geração de produtos é exatamente a ciência básica. É com a ciência básica que teremos uma estrutura forte, a qual tudo o resto vai ser construído.”
Presidente do CNPq, o físico Ricardo Galvão se debruçou sobre as recomendações que o Livro Violeta, fruto dos debates da 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (5ª CNCTI), colocou para a próxima Estratégia Nacional de CT&I.
“A primeira coisa importante é que nós temos que cuidar do nosso Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e, principalmente, garantir a questão de investimento à ciência básica. Isso está atrelado também à participação de jovens. Se nós pegarmos, por exemplo, no campo inteligência artificial, tudo que está sendo criado em startup, é com profissionais que têm menos de 40 anos. Então, falar de ciência básica é falar de incentivo a jovens, e isso precisa constar na Estratégia Nacional.”
Outro ponto defendido por Galvão foi o fortalecimento da interação entre pesquisa básica e indústria. “Nós ainda estamos muito deficientes nesse processo de transferência do que se faz na universidade e institutos de pesquisa para o setor comercial produtivo, o setor empresarial. Precisamos falar mais com empresários e garantir outras formas de financiamento à Ciência que vão além do FNDCT (Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico)”.
Diretor do CGEE, Anderson Gomes encerrou os debates concordando com Galvão sobre a importância de novos caminhos de financiamento para a Ciência brasileira. “Na história da política científica brasileira, nós vivemos subfinanciamento crônico, contingenciamentos e outros artifícios financeiros. A lista é muito grande. O aumento do orçamento da Ciência é uma necessidade não só via FNDCT, mas também via orçamento próprio. Inclusive, a criação de novos fundos setoriais é uma das recomendações que apareceu na 5ª CNCTI.”
Gomes defendeu que é necessário que governantes e demais atores políticos enxerguem a Ciência como um alavancador econômico e indispensável ao Brasil. “A Ciência, a gente sabe, ela não é luxo, ela é parte de uma infraestrutura crítica necessária para o desenvolvimento do País”, concluiu.
A mesa-redonda “Ciência Básica: Alicerce para um Brasil Justo e Competitivo” está disponível na íntegra no canal da SBPC no YouTube.
Rafael Revadam – Jornal da Ciência