domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Educação

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

“Não há desenvolvimento social em redes sem processos educacionais democráticos,” afirma Pierre Lévy

Para o filósofo, “o maior problema não está no acesso à plataforma tecnológica, mas na questão social. O mais grave é a falta de insumos para os indivíduos gerarem conhecimento”

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Pierre Lévy, durante sua conferência “Educação e Comunicação: desafios para uma cultura de responsabilidade de colaboração em redes”, realizada no dia 27 de agosto. (Fotos: Agência Fiocruz)

O grande desafio dos processos que envolvem a aprendizagem colaborativa, sobretudo na área de saúde, é transformar o conhecimento tácito em conhecimento efetivo e explícito, a partir do uso de plataformas digitais e relacionamento efetivo com pares envolvidos nessa comunicação. Esta foi uma das principais mensagens do filósofo francês e especialista em cultura virtual contemporânea Pierre Lévy, professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Ottawa (Canadá), palestrante da principal conferência do Seminário Educação, Saúde e Sociedade do Futuro, realizado pela Fiocruz, entre 25 e 27 de agosto, no Rio de Janeiro.

Em um auditório com lotação máxima, Lévy, durante sua conferência “Educação e Comunicação: desafios para uma cultura de responsabilidade de colaboração em redes”, realizada no dia 27 de agosto, convidou a plateia à reflexão de que a educação é o verdadeiro agente transformador do pensamento, independentemente da evolução tecnológica. A palestra foi mediada pela vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz, Nísia Trindade Lima.

Ao ser indagado sobre a situação de grande parte da população no Brasil que não tem acesso aos meios digitais, os chamados “excluídos digitais”, o filósofo afirmou que o acesso à infraestrutura de tecnologia não vai garantir a evolução do conhecimento se o indivíduo não tiver com discernir conteúdos extraídos de diversas fontes. “O maior problema não está no acesso à plataforma tecnológica, mas na questão social. O mais grave é a falta de insumos para esses indivíduos gerarem conhecimento”, observou.

De acordo com o Pierre Lévy, a reflexão que precisa ser feita atualmente, em um mundo cercado por plataformas digitais, com uma avalanche de conteúdo à disposição na internet, é como organizar e priorizar o acesso aos dados. “É preciso ter espírito crítico para organizar o acesso à informação. Isso se faz com educação e conhecimento”, comentou.

Na visão do filósofo, os meios digitais são apenas uma plataforma de comunicação, como tantas outras que surgiram ao longo da História, desde que o homem começou a se comunicar por sinais, símbolos e escrita. O importante, para Levy, é a estrutura do pensamento que dá acesso a esses dados.

Indivíduo deve se conscientizar do seu poder com relação à informação

“É preciso elencar suas prioridades em termos de pesquisa e transmissão de conhecimento. Outro ponto importante é discernir as fontes e seus respectivos conteúdos e ainda é fundamental saber construir uma memória desses dados para poder recuperá-los”, completou.

Levy mostrou que a construção do conhecimento coletivo, da inteligência coletiva, é baseada na interconexão da inteligência emocional, que engloba formas de pensamento relacionados às relações humanas, conceitos religiosos, políticos e éticos; da inteligência formal, desenvolvida academicamente, e da inteligência prática, que relaciona o homem às atividades inseridas no dia a dia, como suas competências para desenvolver habilidades profissionais, nos setores da economia.

Para o filósofo, é importante que cada indivíduo tenha condições, dentro do seu universo de prioridades, de identificar as fontes mais adequadas para construir sua base de conhecimento. Uma pergunta da plateia abordou a questão de haver uma reprodução exponencial referente a informações da área de saúde que, muitas vezes, podem levar leigos a tomar atitudes prejudiciais como evitar vacinas, por conta de boatos. Lévy continuou enfático ao afirmar que é preciso educar e dar conhecimento ao indivíduo para que ele tenha espírito crítico e possa fazer uma análise criteriosa com relação à informação que circular no ambiente virtual, em repositórios ou em grupos formados a partir de redes sociais.

“É preciso saber distinguir o que está por trás dos dados. Isso só é possível com o desenvolvimento da inteligência coletiva. E a base de tudo isso é a educação, a transmissão e a aquisição do conhecimento”, completou.

Ele destacou que é preciso comparar o que as fontes divulgam e o que fazem de fato. Analisar o pragmatismo envolvido nesse discurso. “Cada indivíduo tem que adquirir consciência do seu poder de organizar e reter a informação”. No processo do aprendizado colaborativo, o importante é o reconhecimento das habilidades e prioridades de cada indivíduo.

De acordo com Lévy, sãos as prioridades e as habilidades de cada um que definem o caminho da informação no processo de aprendizagem colaborativa. “A qualidade da informação vai depender dos hábitos de cada indivíduo”. Defensor da plataforma aberta a consulta de dados, Lévy disse que isso será inevitável.

Suzana Liskauskas/ Jornal da Ciência