quinta-feira, 27 de outubro de 2016
“Estamos discutindo uma reforma há 12 anos, e ela não dever ser imposta por meio de uma medida provisória”, afirma pedagoga da USP
Para melhorar o ensino médio, que vive uma grave crise de qualidade e identidade, é preciso incentivar o aluno, mas também dar melhores condições de trabalho ao professor, além de estrutura. Mas, essas mudanças não devem ser feitas por meio de uma medida provisória, imposta pelo governo. Essa foi a conclusão da pedagoga Lisete Arelaro, professora titular sênior da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), e do matemático Renato Pedrosa, coordenador do Laboratório de Estudos em Educação Superior da Universidade Estadual de Campinas (LEES-Unicamp), que participaram da sétima edição do USP Talks, realizado nesta quarta-feira (26) na livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em São Paulo.
Para a pedagoga Arelaro, uma possível explicação para a Medida Provisória 746/2016, que trata da reestruturação do ensino médio, seria que ela é uma resposta à baixa performance dos estudantes nos Exames Nacionais, e uma urgência por aumentar essas notas – porém este não é o melhor caminho. “Há quem fale que o governo quer que o Brasil vá bem em exames nacionais, e por isso, quer mostrar o que o aluno deve aprender. Se temos um pequeno grupo que sabe o que estabelece a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), nossas notas poderiam subir. É possível que seja verdade. Mas para isso, deixaríamos de ser professor e passaríamos a apenas repetidores do que está no livro”, lamenta.
Ela diz que é necessário cautela na unificação das 13 disciplinas do ensino médio público nacional em quatro grandes áreas do conhecimento – anunciada recentemente pelo Ministério da Educação (MEC) e, principalmente, diálogo. Pela proposta, prevista para vigorar a partir do próximo ano, as disciplinas serão integradas em ciências humanas, ciências da natureza, linguagem e matemática. “Estamos discutindo uma reforma há 12 anos e ela não dever ser imposta por meio de uma Medida Provisória. Os professores/especialistas e estudantes precisam ser ouvidos. Essa reforma que propõe redução das disciplinas, para mim, é um pouco perniciosa. Tirar educação física só se justifica porque não querem construir quadras de esporte”, afirma.
Segundo Arelaro, faltam condições para se ter um bom ensino básico. “Só 50% das escolas públicas têm bibliotecas, e quando têm, são cuidadas por um professor ou um funcionário por quatro horas. Não há mais laboratórios de biologia e química nas escolas. Também faltam professores qualificados”, explica.
Para a pedagoga, as condições de trabalho para o professor é outro quesito fundamental. “Sabemos que um professor, que exerça sua profissão, ganha cerca de 60% a 70% a menos, se comparado a qualquer outro profissional. Ou seja, se ele fizesse qualquer outra coisa, ele ganharia mais. Por isso, sobram vagas na licenciatura. E muitos que ainda fazem, não estão qualificados”, lamenta.
Segundo a especialista, a carga horária é outro problema para os docentes, já que para ter uma renda melhor, muitos se desdobram em mais de um emprego e com isso não conseguem preparar direito a aula, o que prejudica a qualidade do seu trabalho.
Arelaro também chama a atenção para a privatização do ensino superior. “Se por um lado, um jovem é atendido no ensino básico na instituição pública, isso não acontece no ensino superior. Só 25% dos estudantes universitários estão em instituições públicas. Aqui em São Paulo, contamos com seis universidades, que representamos 9% das vagas”, afirma.
O matemático Pedrosa também lamenta a qualidade do ensino e afirma que apenas um terço das pessoas que se formam no ensino médio são realmente alfabetizadas. “Segundo o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional, do Instituto Paulo Montenegro), 27% das pessoas são analfabetos funcionais. Dez anos atrás, 50% eram considerados alfabetizados. O Brasil não vai melhorar dessa situação se não tiver investimento”, afirma.
Ele também concorda que se os professores não tiverem melhores condições de trabalho, inclusive salarial, muitos alunos de licenciatura não vão ter interesse em atuar nas escolas. “Vão fazer outra coisa, seguir no mestrado”, lamenta.
O evento
O USP Talks é uma iniciativa da USP, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo e apoio da Livraria Cultura, que tem como objetivo promover um debate qualificado com a sociedade sobre temas importantes do noticiário nacional.
O programa já debateu questões como zika e microcefalia, raízes da corrupção no Brasil, mitos e realidades da cura do câncer, violência contra a mulher, as origens da vida e do universo e a relação entre tecnologia e transparência. A próxima edição discutirá as questões climáticas.
Vivian Costa – Jornal da Ciência