domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Clima

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Mudança climática mata meio milhão de pessoas ao ano e pode intensificar doenças tropicais

Relatório da revista The Lancet aponta recordes preocupantes em 12 indicadores de saúde. Reportagem faz parte da nova edição do Jornal da Ciência Especial, que traz análises sobre a COP30. Acesse gratuitamente!

Indígenas protestam durante a COP30, em Belém, pedindo, entre outras demandas, o fim dos combustíveis fósseis. Foto: Dado Galdieri/CIFOR-ICRAF

Indígenas protestam durante a COP30, em Belém, pedindo, entre outras demandas, o fim dos combustíveis fósseis. Foto: Dado Galdieri/CIFOR-ICRAF

A crise climática já deixou de ser uma ameaça futura para se tornar uma emergência de saúde pública. Dados da edição de 2025 do relatório Lancet Countdown, divulgado em outubro, revelam que 546 mil pessoas morreram em média por ano entre 2012 e 2021 devido ao calor extremo — um aumento de 63,2% em relação aos anos 1990. No Brasil, autoridades reconhecem a magnitude do problema, e o cenário se agrava com a expansão territorial de doenças antes restritas a determinadas regiões.

“A crise climática é, antes de tudo, uma crise de saúde pública. A saúde é a face mais dolorida da crise climática”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o lançamento do Plano de Ação de Belém na COP30.

O relatório do Lancet Countdown, elaborado por especialistas de diversas disciplinas e regiões do mundo, mostra que 12 dos 20 indicadores que monitoram riscos à saúde relacionados ao clima atingiram níveis recordes no último ano com dados disponíveis.

Em 2024 (ano de fechamento dos dados do relógio), 60,7% da área terrestre global foi afetada por pelo menos um mês de seca extrema — quase quatro vezes a média dos anos 1950. A frequência de eventos de precipitação extrema aumentou em 64% da área terrestre no período 2015-2024 em comparação a 1961-1990. Mortes causadas pela poluição de partículas finas (PM2.5) derivada de incêndios florestais alcançaram o recorde de 154 mil pessoas em 2024.

O calor extremo resultou na perda potencial de 640 bilhões de horas de trabalho em 2024, praticamente o dobro do período 1990-99. Isso se traduziu em US$ 1,09 trilhão em perdas potenciais de renda — quase 1% do PIB global.

Além dos impactos diretos do calor e de eventos extremos, as mudanças climáticas estão redesenhando o mapa epidemiológico global. “A gente corre o risco de ter o recrudescimento de uma série de doenças que estavam, mais ou menos, com impacto limitado ou restritas geograficamente”, explica Samuel Goldenberg, pesquisador do Instituto Carlos Chagas da Fiocruz, especialista em doenças infecciosas e diretor da SBPC.

“Com essa mudança climática, a gente pode começar a ter um aparecimento de doenças em novos locais”, alerta o pesquisador. Por um lado, o aquecimento global facilita a instalação de vetores em lugares onde antes não estavam presentes, enquanto o desmatamento aproxima populações humanas de regiões mais silvestres, expondo o ser humano a patógenos antes restritos a esses ambientes.

O caso da dengue é emblemático. Em 2024, foram registrados quase 13 milhões de casos de dengue na região das Américas, segundo Jarbas Barbosa, diretor da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). “Do norte da Argentina até a América Central, praticamente todos os países da região tiveram grandes epidemias de dengue.”

O relatório do Lancet Countdown confirma a tendência: o potencial de transmissão da dengue pelos mosquitos Aedes albopictus e Aedes aegypti aumentou 48,5% e 11,6%, respectivamente, entre 1951-60 e 2015-24.

Mas não é apenas a dengue. “Você tem Zika, chikungunya, agora tem a febre oropouche também, que está começando a se espalhar no Brasil. Antes era uma coisa mais restrita à Amazônia, e com o desmatamento, com o aquecimento global, você passa a ter essa doença no sul do Brasil.”

“O que me dá grande medo são as viroses que a gente não conhece. São essas viroses emergentes que podem causar uma grande devastação. Porque uma virose reemergente, por exemplo, a febre amarela, está reemergindo, mas a febre amarela a gente já conhece há tempo, já tem vacina. Agora, quando aparece alguma coisa nova, aí é realmente bastante preocupante”, diz Barbosa.

O relatório do Lancet Countdown documenta a expansão de outros vetores. A área climaticamente adequada para carrapatos Rhipicephalus sanguineus e Hyalomma aumentou 6,9% e 3,2%, respectivamente, entre 1951-60 e 2015-24, colocando 364 milhões de pessoas adicionais em risco de doenças transmitidas por carrapatos, incluindo febre maculosa.

O risco previsto de leishmaniose aumentou 29,6% globalmente no mesmo período. E, em 2024, um recorde de 85 países apresentou condições costeiras adequadas para a transmissão de Vibrio, bactérias que causam infecções graves de pele, de ouvido e do sistema gastrointestinal.

O pesquisador enfatiza que o problema fundamental é estrutural: ”A partir do momento em que você dá uma habitação decente para as pessoas, com água encanada e esgoto encanado e tratado, você acaba com essas doenças ou você as reduz a níveis realmente controláveis.”

Um dado especialmente preocupante do relatório indica que um em cada 12 hospitais do mundo está sob risco de ter suas atividades paralisadas em algum momento por conta do impacto das mudanças climáticas. “Nada pior do que no meio de um tornado, uma tempestade forte, um furacão, o hospital, a unidade de saúde, que deveria continuar prestando assistência e atendendo às pessoas, ficar impossibilitada de funcionar”, observou Barbosa.

Plano de ação

Diante desse cenário, o Plano de Ação de Belém, lançado oficialmente durante a COP30, representa a primeira vez que a saúde ocupa espaço oficial em uma COP. “Um reconhecimento dos líderes, do trabalho feito pela presidência brasileira”, celebrou Padilha.

O plano estabelece diretrizes baseadas em três pilares principais: financiamento adequado, construção de sistemas de saúde resilientes e equidade no direcionamento de recursos. Este último reconhece que o enfrentamento da crise climática passa por atacar seus determinantes sociais — como acesso a saneamento básico, habitação adequada e infraestrutura urbana —, especialmente nas populações mais vulneráveis.

Quanto ao financiamento, os dados são reveladores da insuficiência atual. Apenas 6% do financiamento para adaptação e enfrentamento às mudanças climáticas é destinado ao sistema de saúde. “O que esse estudo [Plano de Ação] mostra é que se subirmos para 10%, milhões de vidas serão salvas”, afirmou Padilha, contando com o investimento de organizações filantrópicas, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial e outras entidades.

Segundo Padilha, o país está investindo R$ 4,6 bilhões em novas unidades de saúde, hospitais e unidades fluviais na região amazônica, todas seguindo diretrizes de construção resiliente. As cinco unidades destruídas em Rio Bonito do Iguaçu (PR) serão reconstruídas com esse padrão, assim como as unidades no Rio Grande do Sul, onde mais de R$ 1,4 bilhão estão sendo investidos na reconstrução após as enchentes.

Com relação a sistemas de vigilância e alerta, há planos de integração de sistemas: “Aqui no Brasil, temos um projeto piloto no Rio de Janeiro de facilitar a integração de informações entre clima e saúde, de maneira que o setor de saúde saiba com antecedência quando está prevista uma onda de calor, por exemplo, e se preparar de maneira adequada”, diz Barbosa.  A OPAS está firmando acordo com a Organização Mundial de Meteorologia para criar um hub para América Latina e Caribe de integração de dados climáticos e de saúde.

Goldenberg enfatiza a necessidade de políticas públicas coordenadas na região. “A cooperação internacional tem que ser, muito aqui entre nós, no continente, porque nós temos diferenças enormes entre os países. Não adianta a gente controlar, por exemplo, um vetor no Brasil se um país de fronteira não tem esse vetor controlado, porque ele volta a aparecer aqui.”

Barbosa conta que a OPAS já formou 12 mil profissionais de saúde na região das Américas para lidar com questões climáticas, mas reconhece que isso é uma gota d’água no oceano. “A gente precisa fazer com que os profissionais de saúde estejam mais bem preparados.”

Gabriel Alves – Jornal da Ciência

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