domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Grandes Temas

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Inteligência artificial, conhecimento e democracia

Da divulgação científica à formação universitária, especialistas apontam os desafios de colocar a IA a serviço do interesse público na 78ª RA

sabineQuem controlará o conhecimento na era da inteligência artificial? A resposta passa pela forma como a ciência é produzida, comunicada e ensinada. Em um cenário em que a IA amplia o acesso à informação, mas também concentra poder em grandes plataformas, favorece a desinformação e desafia a educação, pesquisadores defendem que democratizar o conhecimento exige fortalecer a divulgação científica, o pensamento crítico e o protagonismo das universidades.

Esses desafios nortearam a mesa-redonda “Democracia do Conhecimento: Juventudes, Educação Pública e Cultura Científica na Era da IA”, realizada durante a 78ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 26 de julho a 01 de agosto na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Entender a IA, e não apenas utilizá-la

Fundadora do Instituto Da Hora e hacker antirracista, Nina da Hora defende que o debate sobre IA não pode se restringir às ferramentas disponíveis ao público. É preciso compreender os processos que sustentam essas tecnologias e criar metodologias que permitam investigar seu funcionamento. “Os produtos chegam encapsulados. O experimento passa a ser sobre os resultados que eles entregam, e não sobre como foram construídos”, afirma.

Para a pesquisadora, esse cenário afeta especialmente as novas gerações, que cresceram utilizando plataformas digitais sem conhecer os mecanismos técnicos que estruturam esses sistemas. O resultado é uma relação cada vez mais superficial com a tecnologia e menor capacidade de questionar seus limites.

Ao comentar os grandes modelos de linguagem, Nina retomou o conceito de “papagaios estocásticos”, proposto por Timnit Gebru, para lembrar que essas ferramentas reproduzem padrões aprendidos durante o treinamento, em vez de produzir conhecimento de forma autônoma. Além das limitações técnicas, ela destaca os impactos éticos, sociais e ambientais envolvidos nesse modelo.

Na sua avaliação, a governança da IA no Brasil deve ser construída a partir da realidade nacional, orientada por princípios como igualdade, privacidade e direito à resposta. “Esses princípios precisam servir de base para o desenvolvimento das tecnologias no país.”

A universidade depois da IA

A expansão da inteligência artificial também desafia as universidades a redefinirem seu papel.

Professor pesquisador da CESAR School e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Luciano Meira argumenta que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a funcionar como uma infraestrutura capaz de transformar o ensino, a pesquisa, a extensão e os próprios modelos de formação. “Ao assumir esse papel de infraestrutura, a IA reconfigura os pilares tradicionais da universidade e força essas instituições a justificarem sua própria existência”, afirma.

Segundo Meira, o ensino superior precisará priorizar a aprendizagem ativa, pesquisas voltadas a problemas reais e uma formação capaz de desenvolver competências que as máquinas não substituem.

Nesse contexto, ele destaca o chamado “paradoxo da descarga cognitiva”: estudantes que delegam tarefas à IA sem compreender o conteúdo tendem a aprender menos, enquanto aqueles que dominam o tema conseguem utilizar a tecnologia de forma estratégica, reservando mais tempo para análise, criatividade e pensamento crítico. “Uma nova universidade deve formar e certificar capacidades que exigem julgamento, responsabilização, aprendizagem social e desempenho humano comprovado. Esse é o desafio que já estamos enfrentando.”

Para o pesquisador, as instituições de ensino também precisam evitar a dependência das grandes plataformas comerciais de IA. Em vez de apenas fornecer dados, devem liderar o desenvolvimento de infraestruturas próprias, investir em letramento algorítmico, integrar diferentes áreas do conhecimento e fortalecer competências humanas, como ética, colaboração e responsabilidade.

Ciência para além dos muros da universidade

Embora o Brasil esteja entre os 15 países que mais produzem ciência no mundo, boa parte desse conhecimento ainda permanece restrita ao ambiente acadêmico. Para aproximar pesquisadores, jornalistas e sociedade, a Agência Bori monitora diariamente cerca de 130 artigos científicos de autores brasileiros, selecionando estudos com potencial de impacto jornalístico e produzindo materiais em linguagem acessível.

Coordenadora da Agência Bori e professora do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural da Unicamp, Sabine Righetti explica que, desde sua criação, em 2020, a iniciativa já divulgou aproximadamente 900 pesquisas, que resultaram em cerca de 20 mil reportagens, mobilizando uma rede de quase 3.900 jornalistas.

“Precisamos ocupar todos os espaços para fazer o conhecimento científico circular. É fundamental tomar a internet com ciência brasileira”, afirma. Para ela, ampliar a presença de conteúdo científico qualificado também significa alimentar sistemas de inteligência artificial com informações confiáveis e reduzir o espaço da desinformação.

Apesar dos avanços, Sabine Righetti destaca que a divulgação científica ainda enfrenta obstáculos dentro da própria academia. Cerca de 40% dos pesquisadores convidados recusam falar com a imprensa por falta de tempo, baixa valorização da atividade ou insegurança para conceder entrevistas. Pesquisas conduzidas pela Bori mostram ainda que cientistas e jornalistas frequentemente percebem dificuldades mútuas de comunicação. “Divulgar ciência precisa fazer parte da atividade do pesquisador e ser reconhecido nas avaliações institucionais”, defende. “O Brasil produz ciência de excelência e lidera pesquisas em diversas áreas, mas, fora da universidade, pouca gente conhece essa produção.”

Ao final da discussão, os pesquisadores defenderam que democratizar o conhecimento na era da inteligência artificial depende menos da tecnologia em si do que da capacidade de colocá-la a serviço do interesse público. Isso passa por fortalecer a divulgação científica, formar cidadãos capazes de compreender criticamente a IA e garantir que universidades e instituições de pesquisa continuem protagonistas na produção e circulação do conhecimento.

Assista à mesa-redonda na íntegra:

https://www.youtube.com/watch?v=gKR2dsH1c0Y

Chris Bueno – Jornal da Ciência