domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Amazônia

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Financiamento climático na COP30

Reportagem da nova edição da Ciência & Cultura discute porque as promessas ainda não viraram recursos e o que está em jogo para a Amazônia

WhatsApp Image 2025-12-03 at 09.11.02Desde a Conferência de Copenhague (COP 15, em 2009), quando os países desenvolvidos assumiram o compromisso de mobilizar US$ 100 bilhões anuais até 2020 para apoiar ações climáticas em nações em desenvolvimento, o financiamento climático se tornou um dos pontos mais sensíveis das negociações internacionais. A promessa foi reafirmada no Acordo de Paris (COP 21) e novamente no “book-of-rules” da COP 26, mas só foi oficialmente alcançada em 2022, segundo relatório da OCDE, que registrou aportes de US$ 115,9 bilhões. Ainda assim, quase 70% desse montante chegou na forma de empréstimos, não de doações, ampliando a vulnerabilidade financeira de países já endividados. Isso é o que aponta reportagem da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “COP 30: ciência, política e ação”.

Para Pedro Luiz Côrtes, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) e revisor do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), essa lógica aprofunda desigualdades estruturais: “há um impedimento para os países pobres, países insulares, sendo a necessidade de equipes técnicas para fazer uma formatação adequada dos projetos e evidenciar para quem vai ceder os recursos […] que aqueles recursos serão aplicados adequadamente”. Ele lembra que, além da formatação técnica, “é necessária uma estrutura de governança e compliance para fazer a auditoria da aplicação desses recursos”.

A combinação entre promessas ambiciosas e mecanismos frágeis produz um cenário em que o financiamento existe no papel, mas nem sempre chega a quem precisa. O Fundo Verde para o Clima (GCF) já aprovou US$ 15,9 bilhões em iniciativas, porém a maior parte dos recursos trafega por estruturas multilaterais que funcionam de forma lenta e verticalizada. Gustavo Luedemann, técnico de Planejamento e Pesquisa na Coordenação de Sustentabilidade Ambiental (COSAM) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e integrante da Rede Clima, observa que mesmo os créditos mais vantajosos ainda carregam complexidades: “a maior parte do recurso disponível é onerosa, precisa ser restituída […] Todavia, temos situações em que empréstimos são fornecidos com dez anos de carência, sem juros e décadas para pagar”. Ele destaca ainda “muita burocracia e custo de transação na operação dos bancos multilaterais e agências de cooperação”, o que cria gargalos e atrasa a implementação de soluções em campo.

Nesse contexto, o Brasil chega à COP 30 em posição estratégica para pressionar por acordos mais vinculativos e mecanismos mais ágeis. A Amazônia, peça-chave na regulação climática global, simboliza tanto a urgência quanto a contradição do atual sistema de financiamento: enquanto bilhões são prometidos para proteger o bioma, a maior floresta tropical do planeta se aproxima de pontos críticos que podem comprometer sua capacidade de regeneração. O país, como anfitrião, pode usar essa visibilidade para reposicionar o debate — não apenas sobre a quantidade de recursos, mas sobre a forma como eles são mobilizados, distribuídos e fiscalizados. Côrtes sintetiza essa lacuna ao apontar que a falta de projetos elegíveis não decorre de desconhecimento técnico, mas da ausência de condições institucionais para absorver fundos no ritmo necessário.

Ao mesmo tempo, a crise abre espaço para alternativas capazes de contornar a dependência da boa vontade dos países ricos. Soluções como financiamento misto, pagamentos por serviços ambientais, mercados regulados de carbono e repasses diretos a comunidades e governos locais começam a ganhar força, especialmente em regiões que já convivem com impactos climáticos severos. Como anfitrião da COP 30, o Brasil tem a chance de impulsionar essas agendas e demonstrar que proteger suas florestas e populações é também uma estratégia global de estabilidade climática.

Leia a reportagem completa:

https://revistacienciaecultura.org.br/?p=9346

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