terça-feira, 1 de julho de 2014
Universidades que só contratam doutores sofrem mais porque competem diretamente com o mercado
A meta 13 do Observatório do Plano Nacional de Educação (PNE) tem como objetivo elevar a qualidade da educação superior pela ampliação da proporção de mestres e doutores do corpo docente em efetivo exercício no conjunto do sistema de educação superior para 75%, sendo, do total, no mínimo, 35% doutores. Mas, se todas as universidades federais e estaduais, por exemplo, resolvessem só contratar doutores, teria dificuldade em completar o quadro de docentes em algumas áreas. O que já tem ocorrido nos dias atuais.
Segundo Jesualdo Pereira Farias, reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), atualmente algumas universidade têm tido dificuldade em contratar docentes doutores em determinadas áreas.
“O problema já existe, mas não é uma coisa generalizada. Varia muito de acordo com o concurso e a área. A mais crítica é a de engenharia”, explica. E exemplifica, “se todas as universidades fossem contratar doutores para dar aula em geofísica não teria profissionais no mercado. A solução seria contratar mestres”.
De acordo com levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo, na área de engenharia, nas universidades do ABC (UFABC), na Federal de São Paulo (Unifesp) e Federal de São Carlos (UFSCar), terminaram sem vagas preenchidas 18 dos 35 concursos docentes para engenharia, finalizados nos últimos 12 meses.
Faria disse ainda que outro fator que dificulta a contratação de doutores para lecionar é à distância dos campi dos grandes centros. “Muitos docentes não querem ir para locais afastados por não encontrar condições mediatas para desenvolver algumas pesquisas”, explica.
A solução encontrada por algumas instituições, explica, é contratar mestres e oferecer condições e incentivos para que ele vire doutor. “Não se pode deixar de levar em conta cursos que não são tão tradicionais, mas que estão crescendo, como por exemplo, os de gastronomia”, disse.
Dificuldade - Entre as universidades que contam com situações mais críticas está a UFABC, que foi criada em 2004. Segundo Annibal Hetem, diretor do centro de engenharia da instituição, entre os fatores que atrapalha a contratação está a exigência de que todos os docentes sejam doutores.
“A instituição exige doutores porque ela precisa fazer ciência. Mas, entendemos que esta exigência tem dificultado a contratação, principalmente na área de engenharia. Tanto que demoramos cerca de oito meses para contratar um professor de engenharia para lecionar aerodinâmica”, explica.
Hetem lembra ainda que em abril um candidato se inscreveu para a vaga, que prevê estabilidade, laboratório para pesquisa e salário inicial de mais de R$ 8,5 mil.
“Estávamos ansiosos. Mas no dia anterior à prova ele ligou dizendo que não viria. O mercado está pagando bem mais”, disse.
Para resolver a situação, Hetem afirma que os docentes contratados precisam se remanejar para que as aulas não fiquem sem serem dadas. “Os alunos não ficam sem aula, mas a ciência fica prejudicada”, explica.
Para evitar este problema no futuro, Hetem acredita que é preciso manter o aluno na academia. “Quando o aluno está no mestrado, ele automaticamente vai para o doutorado e permanece na universidade. Mas se ele vai para o mercado, dificilmente volta”, comenta.
Para o futuro, Hetem afirma nos próximos dez anos a UFABC deve ter seus centros de pesquisa ampliado o que acarretará a abertura de 200 vagas.
Paulo César Montagner, chefe de gabinete da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também atribui à falta de professores doutores na área de engenharia por causa do mercado aquecido. “É uma questão de sazonalidade. Eu sinto esta falta nas nossas escolas técnicas mantidas pela universidade”. Ele disse ainda que a indústria tem contratado doutores porque é um profissional com uma capacidade maior de pensar.
Para o presidente da Andifes, a escassez de doutores tende a diminuir à medida que as universidades aderirem ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
“Isso já está acontecendo. Mas é fato que se o professor que é mestre estiver na universidade, ele permanecerá. Por isso, o doutorado será o próximo passo”, finaliza.
Vivian Costa, Jornal da Ciência nº 758, 9/5/2014