domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Estudos sobre RNA não-codificante lançam novos caminhos para tratamento de câncer

Gunter Meister, professor da Universidade de Regensburg na Alemanha, apresentou seus estudos sobre o microRNA no terceiro dia do 44º Encontro Anual da SBBq e 23º Congresso da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB), que acontece esta semana em Foz do Iguaçu (PR)

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Helena Nader, presidente da SBPC, coordenou a palestra do professor Gunter Meister, da Universidade de Regensburg, na Alemanha, durante o 44º Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq) e 23º Congresso da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB), no dia 26 de agosto. (Foto: Jornal da Ciência)

 Pequenas moléculas de RNA não-codificante, os microRNAs, podem ser a chave para novos tratamentos do câncer em um futuro próximo, conforme apontou o professor Gunter Meister, da Universidade de Regensburg, na Alemanha. O pesquisador  proferiu uma palestra nesta quarta-feira, 26, no 44º Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq) e 23º Congresso da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB), que acontece esta semana em Foz do Iguaçu (PR).

Diante de uma plateia que variava de jovens cientistas até dois vencedores do Prêmio Nobel de Química, Tom Steitz e Johann Deisenhofer, Meister falou sobre as pesquisas que sua equipe vem realizando, que buscam compreender o funcionamento de duas classes de RNA não-codificante – o miRNA e o siRNA (short interferference RNA, responsável pelo RNA de interferência), além de identificar as proteínas que se ligam ao RNA e regulam a expressão do miRNA. A sessão foi coordenada por Helena Nader, presidente da SBPC.

Conforme descreveu o cientista, os chamados microRNAs (ou miRNAs) são uma classe de pequenos RNAs não-codificantes que regulam negativamente o processo de produção de proteínas ou RNA a partir dos genes (a expressão genética), por meio da desestabilização ou inibição do RNA mensageiro (que transporta a “informação” do DNA para a síntese das proteínas).

“A literatura sobre a estrutura do RNA não-codificante é ainda escassa e, por isso mesmo, esse é um campo com muita oportunidade de desenvolvimento”, comentou o pesquisador.  O que se sabe até o momento é que cerca de 90% do genoma humano não é codificante e esse tipo específico de DNA é ativamente transcrito para RNA. Essas moléculas, por sua vez, estão envolvidas com a regulação de várias doenças.

O miRNA foi descoberto na década de 1990 e hoje sabe-se que desempenha um papel crucial em diversos processos biológicos, como diferenciação, apoptose e proliferação. A desregulação do miRNA pode implicar no desencadeamento de doenças como o câncer. Por isso, a compreensão desse mecanismo oferece grande potencial para o desenvolvimento de novos tratamentos.

Um dos caminhos possíveis para essa novas intervenções terapêuticas seria influenciar o miRNA para eliminar as células-tronco do câncer. Isso poderia ser possível uma vez que, como foi observado nas análises dessas moléculas, alguns tipos específicos de miRNA aparecem nas células-tronco do câncer e parecem consolidar suas propriedades essenciais.

Jovens cientistas

Pela primeira vez na América Latina, Meister se disse impressionado com a vivacidade da comunidade científica participante do evento, especialmente os jovens pesquisadores. “O que eu mais gostei foi de ver o entusiasmo desses estudantes, todos muito interessados, apresentando os resultados de seus trabalhos na sessão de pôsteres, alguns projetos já maduros, até. E ainda tem os cientistas laureados com o Nobel, que é uma oportunidade fantástica para esses jovens. É uma mistura muito boa”, comentou.

Segundo ele, tal interação entre estudantes e pesquisadores sêniors é rara em conferências como esta. “É bem diferente do que vejo nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, onde as pessoas apenas assistem às palestras e não dão muita atenção para os jovens pesquisadores”, disse.

Meister destacou que esse intercâmbio deveria extrapolar o momento das conferências também e que a comunidade científica internacional certamente apreciará a aproximação com os estudantes. “Eles podem tomar suas próprias iniciativas e contatar pesquisadores de outros países. Escrever e-mails – eu mesmo recebo muitas mensagens com perguntas de estudantes. Eles devem também procurar universidades que possuem parcerias com outros países, como programas de cotutelas de doutorado, por exemplo. Ou simplesmente visitar um laboratório por um tempo. Eles precisam procurar os caminhos, as pessoas que desenvolvem trabalhos que sejam de seu interesse. Na maioria dos casos, os cientistas são muito abertos para interagir”, recomenda.

Hoje professor universitário, há poucos anos, em 2011, ele foi premiado com o Young Investigator Award por suas pesquisas básicas desenvolvidas na área de bioquímica do RNA. A premiação é realizada a cada dois anos pela Sociedade Alemã de Bioquímica e Biologia Molecular.

Daniela Klebis/Jornal da Ciência/Texto publicado no dia 27/08/2015