sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Para participarem do iGEM, grupo fez vaquinha na internet. Para sensibilizar a sociedade, eles fizeram um vídeo posto no YouTube para explicar a competição e o trabalho sobre Biologia Sintética que foi levado
No final de novembro, uma equipe formada por pesquisadores de diversos grupos de pesquisa do Instituto de Física de São Carlos (USP), como, por exemplo, o grupo de Biofísica Molecular “Sérgio Mascarenhas” e do grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia, juntamente com pesquisadores de outras unidades da USP, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), conquistou a medalha de bronze no International Genetically Engineered Machine – iGEM 2014, uma competição internacional focada na área de biologia sintética, que reuniu 245 equipes formadas por estudantes de graduação e pós-graduação oriundos de diversos países, em um evento que ocorreu na cidade de Boston, Massachusetts, EUA.
O projeto, desenvolvido pelo grupo, é sobre um detector bacteriano capaz de diagnosticar a Doença Renal Crônica (DRC), de forma precoce. A DRC, que afeta milhões de pessoas no mundo, sendo que grande parte delas não tem consciência disso, é caracterizada por alterações nas funções e na estrutura dos rins. No teste de diagnóstico realizado atualmente, através da quantificação de Creatinina no sangue, as variações nas taxas desse biomarcador só são perceptíveis em estágios mais avançados da doença.
“Não temos ainda o biodetector (biosensor), propriamente dito. Ele está em andamento. Temos até o momento o design do circuito genético, temos cerca de 60% das montagens (construções gênicas) do circuito prontas, além de um protótipo do aparelho onde tudo deverá funcionar”, explica Francis de Morais Franco Nunes, docente do Departamento de Genética e Evolução da UFSCar. E completa, “o diferencial do projeto é que planejamos um biosensor que não detecta apenas a presença da Cistatina C no sangue. O biosensor será capaz de interpretar um limiar de concentração de Cistatina C que dará (ou não) o diagnóstico da insuficiência renal. A partir da presença de concentrações acima ou abaixo desse limiar, o detector irá fornecer uma resposta que indica se o paciente está saudável ou não. Com isso, em altas concentrações de Cistatina C, um indicativo da DRC, a resposta irá diagnosticar o paciente e levar ao tratamento mais adequado. Outro diferencial é que a detecção pode tornar-se precoce, já que é necessário o uso de amostras sorológicas de fácil obtenção”, explica.
Atualmente, disse o docente, certos biomarcadores utilizados variam suas concentrações em função de características do paciente como peso, etnia e idade, o que torna o diagnóstico incerto e impreciso. “Com o uso da Cistatina C, que não varia com essas características, nosso biodetector torna-se uma excelente ferramenta para o diagnóstico da DRC”, informa.
Segundo o docente, que também é secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o próximo passo é dar andamento ao projeto. “Temos que regular a quantidade de QteE (uma molécula do nosso circuito) para que ocorra produção do gene repórter (GFP) apenas em situações de pessoas saudáveis. Temos ainda que estabelecer a concentração ideal de meio de ativação de esporos da bactéria Bacillus subtilis. Outro passo é pensar na participação do time na próxima edição da competição”, completa.
Para o projeto chegar ao mercado, Nunes informa que necessita dentre três e quatro anos, para o desenvolvimento e finalização do equipamento.
A medalha
Para Nunes, a medalha representa o esforço executado por todos do time em desenvolver e, consequentemente, apresentar um bom trabalho na competição. “Para os alunos, é uma forma de reconhecimento pelas atividades realizadas ao longo de oito meses. Da mesma forma, é um importante indicativo do apoio que a universidade deve dar a projetos que envolvam a biologia sintética”, afirma.
Interdisciplinar
Mais que uma competição, o iGEM é uma oportunidade de se relacionar com alunos dos quatro cantos do planeta e firmar novas colaborações. “Um aluno que participa dessa competição, adquire conhecimentos que vão além dos apresentados em sala de aula. Ensina como deve ser realizado trabalho em grupo, ensina sobre o rigor científico, sobre metodologia científica, o aluno vivencia diferentes experiências para “se fazer ciência”. A interação e colaboração com outras equipes e instituições é incentivado pelo iGEM, isso ocorre a todo momento. Quanto mais você colabora com outra equipe, mais pontos sua equipe ganha”, afirma o docente.
Para gerenciar um projeto interdisciplinar como este, Nunes afirma que algumas etapas de desenvolvimento são complexas. “Dentre as dificuldades, a maior dela é encontrar profissionais de áreas tão distintas e que se interessem pela biologia sintética, por exemplo design, música, filosofia, engenharias, direito, física, computação etc. Apesar disso, é um novo segmento que chama atenção e que está em crescimento, permitindo o encontro desses profissionais. Acredito que num curto espaço de tempo o gerenciamento será bem natural, pois todos falarão “a mesma língua”, a língua da Biologia Sintética”, afirma.
Custo
Para participarem do iGEM os estudantes fizeram uma vaquinha para conseguir recursos. Para sensibilizar a sociedade, o grupo fez um vídeo, posto no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=mnH-mqQ4lbo), para explicar a competição e o trabalho sobre Biologia Sintética que foi levado.
“No começo a vaquinha online não os surpreendeu. Tivemos poucas arrecadações. Porém, a gravação de um vídeo de divulgação do projeto alavancou o número de contribuições. Em menos de duas semanas o saldo da vaquinha já reunia um montante de R$ 7 mil, demonstrando a importância da estratégia escolhida (o vídeo e postagem no youtube e facebook)”, explicou Matheus Pedrino Gonçalves, aluno de Biotecnologia da UFSCar.
Para Gonçalves, a vaquinha foi essencial. “Sem as contribuições recebidas via online, não seria possível realizar o pagamento da inscrição do grupo dentro do prazo”, disse.
“Investir nessa estratégia é garantir a participação da equipe, além de divulgar por meio da internet o projeto. Acreditamos que o fato de termos conquistado uma medalha de bronze sensibilizará potenciais patrocinadores bem como as universidades, e esperamos ter apoio financeiro destes já para a equipe de 2015″, finaliza Nunes.
Vivian Costa/Jornal da Ciência