sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Presidente da SBPC e diretora da entidade, Francilene Garcia e Marilene Corrêa acompanharam parte da programação
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, cumpriu uma agenda na Amazônia Legal neste mês de agosto como uma das 30 enviadas especiais da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30). Na programação, Janja fez um percurso por territórios e também se reuniu com a comunidade científica local.
As atividades ocorreram na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus, entre os dias 19 e 20 de agosto, e foram realizadas pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do Governo Federal, popularmente conhecido como “Conselhão”. Janja será responsável pelo engajamento de mulheres na COP30 e participou da agenda com o objetivo de conhecer diferentes realidades da população brasileira.
“Além de Janja, foram nomeadas como enviadas especiais da COP30 Jurema Werneck, responsável pelo tema de igualdade racial, e Denise Ventura, responsável por direitos humanos. A presidência da COP30 sugeriu que elas fizessem uma escuta qualificada em todos os biomas brasileiros, e por isso foram à Amazônia”, explica a diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Marilene Corrêa, que integrou parte da programação.
Na região, Janja e companhia visitaram o bioma de Várzea, no Rio Solimões, passaram por três comunidades do Rio Negro e também conheceram o entorno da Reserva Florestal Adolpho Ducke. “Na Reserva Adolpho Ducke, Janja se reuniu com 70 representantes institucionais. Acredito que cerca de 40% eram indígenas, de várias etnias e de várias nações. Mas também estavam presentes pesquisadoras do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e da Ufam (Universidade Federal do Amazonas).”
Além de representar a SBPC, Corrêa que preside o Conselho do Musa, Museu da Amazônia, fundado pelo ex-presidente da entidade, Ennio Candotti. A coletiva da COP30 também acompanhou as instalações do museu amazônico e, no ambiente, participou de discussões sobre as realidades das mulheres na periferia e na cidade.
“Nos debates sobre a área urbana da Amazônia, o que mais se falou foi sobre a proteção dessas áreas. Mas nas áreas remotas, áreas consideradas periféricas, há riscos para os indígenas e para as mulheres, no geral. Aqui, o índice de feminicídio é muito grave e muito grande”, pondera Corrêa.
As mulheres da região também falaram do cotidiano delas nas mudanças climáticas, e como a emergência ambiental tem afetado a pesca, a agricultura ribeirinha e a vida das famílias que moram nas comunidades às margens de rios.
“As conversas giraram muito em torno das condições de trabalho, da dificuldade de acesso das crianças à escola, da dificuldade de acesso dessas pessoas à saúde. Numa situação, Janja viu um barco do SUS [Sistema Único de Saúde] e na mesma hora ligou para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para falar dos relatos que ouvia. São mulheres que não têm acesso algum, se Janja e a comitiva não fossem até lá, não pegassem um barco e as encontrassem, não saberiam das demandas. Tem gente que nunca viu a mulher do prefeito do município onde mora. Isso faz essa agenda ser muito importante, porque foi um caminho de fala diretamente com essas mulheres”, pondera a diretora da SBPC.
Após a agenda com a comunidade local, Janja e a comitiva participaram do Encontro da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia, realizado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e com apoio da Universidade Federal do Pará (UFPA). No evento, também estiveram presentes o presidente da COP30, André Côrrea do Lago, e a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos.
“Mais de 70 instituições se reuniram e produziram, de forma colaborativa, um patrimônio de ideias valiosas, de reflexões e de propostas para serem entregues à presidência da COP30, para serem levadas a quem tem o poder de negociação e de decisão. E este não se trata de um documento qualquer, é sim o resultado de meses de dedicação de centenas de pesquisadoras e pesquisadores que acreditam que a Ciência deve ser o alicerce das decisões globais sobre o clima. Também é o resultado de décadas de pesquisa na região amazônica. Este é o recado que precisa ser ouvido: a Amazônia não aceita mais ser apenas o cenário de debates, ela é protagonista”, disse a reitora da Ufam, Tanara Lauschner, na ocasião.
Reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, complementa a visão de Lauschner sobre a importância do encontro e da entrega à comitiva da COP30. “Foi um momento de nós batermos as agendas. A Ciência tem um papel fundamental numa COP como essa que se propõe a pensar o clima, mas a gente tem uma leitura que o clima não pode ser dissociado dos direitos humanos, da educação, da saúde, entre outros aspectos sociais. Então, preservar as águas e preservar a floresta tem um sentido a mais para nós, que é preservar as populações e, principalmente, aquelas populações que normalmente são as primeiras impactadas. No nosso caso aqui, são os indígenas, os quilombolas, os extrativistas, as populações mais pobres e as ribeirinhas.”
Silva também reforça a importância de diferentes atores, como a primeira-dama Janja e a ministra Luciana Santos, numa agenda decisória. “Além da participação de todos nós, reitores e reitoras das mais diversas universidades e instituições da Amazônia, e também da presença da presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, houve uma representação importante dos movimentos sociais. Uma coisa que nós temos trabalhado aqui na região é chamar a atenção de que não se faz ciência na Amazônia sem que a gente inclua os povos tradicionais, sua experiência, seus saberes e suas culturas.”
Para a presidente da SBPC, Francilene Garcia, o caminho do desenvolvimento sustentável só é possível com esta tríade entre Ciência, vivência e articulação política e social.
“Eu acho que essa agenda da Janja foi importante porque é uma escuta realizada com e nas comunidades. No caso da Amazônia, foi uma escuta às pessoas que atuam no entorno ali nos afluentes dos rios. Pessoas que têm uma presença importante na condução da sobrevivência, adaptação e mitigação dos efeitos climáticos, por meio das atividades que elas têm conhecimento e pertencimento. Então, essa escuta, no meu entender, complementa a visão da Ciência, porque ela traz a linguagem das pessoas que vivem ali no dia-a-dia. A pescadora, a agricultora, aquela que faz a produção e a distribuição de cimentos criollas, ou seja, tem todo um saber de vivência que precisa ser valorizado”, conclui.
Rafael Revadam – Jornal da Ciência, com informações da Ufam