terça-feira, 18 de novembro de 2025
Reportagem da nova edição da Ciência & Cultura discute como artistas, cientistas e comunidades amazônicas constroem novas linguagens para pensar a crise ambiental durante a COP30
A COP30, que acontece em Belém, vem revelando uma dimensão menos visível das discussões climáticas: o protagonismo das expressões artísticas como forma de traduzir, sensibilizar e tensionar os debates técnicos. Entre negociações, relatórios e gráficos projetados em telões, performances, instalações e intervenções urbanas passam a ocupar palcos improvisados, ruas e centros culturais. Essas manifestações ampliam o espaço de diálogo entre ciência e arte, oferecendo leituras sensíveis da crise climática que não cabem nas tabelas de emissões ou nas metas de descarbonização. Isso é o que discute reportagem da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “COP 30: ciência, política e ação”.
Para Suzete Venturelli, artista e professora do programa de pós-graduação em Design da Universidade Anhembi Morumbi, a arte ilumina zonas que o discurso científico não alcança. “A arte possui o poder de revelar o que a ciência, por mais precisa que seja, não alcança: a dimensão afetiva, simbólica e ética da crise climática”, afirma. Ela destaca que a força estética e política dessas intervenções reside na capacidade de transformar dados científicos em cor, som e movimento. “Nesse território da vivência, as emoções e percepções se tornam linguagem. É um ativismo sensível, que convoca o público à participação”, explica. Performances que combinam rituais indígenas, dança contemporânea e sons da floresta tornam visíveis outras formas de resistência e convivência com o ambiente.
Embora raramente apareçam nas atas oficiais, essas ações deixam marcas duradouras em quem as vivencia. Se em conferências anteriores a memória coletiva foi moldada por marchas e discursos, em Belém é possível que as expressões amazônicas assumam esse papel, criando rituais de reconexão entre humanos, rios, floresta e cidade. Para Venturelli, as manifestações mais significativas da COP30 provavelmente não estarão nos documentos finais, mas “nos encontros efêmeros entre humanos e não humanos, à beira dos rios, nas florestas e nas margens da cidade”. Mesmo quando invisíveis ao registro institucional, elas lembram que o planeta também cria, reage e se expressa.
A arte amazônica, marcada pela integração entre corpo, território e espiritualidade, carrega uma força própria diante da crise climática. “Há algo de intraduzível nessa arte”, observa a pesquisadora. “A arte dos povos originários da Amazônia não fala sobre o mundo; fala com o mundo. Sua presença na COP30 pode lembrar-nos de que o verdadeiro diálogo climático começa quando aprendemos a ouvir as vozes da floresta.” Em aldeias, ruas e rituais, essa produção cria espaços onde arte, ciência e política se entrelaçam, permitindo imaginar futuros que não dependem apenas de soluções tecnológicas, mas da continuidade da vida em comum. Como lembra Ailton Krenak, citado por Venturelli, “adiar o fim do mundo” passa por reencantar nossa relação com a Terra — e a arte pode ser uma das chaves desse processo.
Leia a reportagem completa:
https://revistacienciaecultura.org.br/?p=9204
Ciência & Cultura