domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Encontros virtuosos

“Recursos filantrópicos favorecem o avanço da produção de conhecimento, entre outros méritos, ao acolher projetos de elevada ousadia”, escreve Guilherme Ary Plonski, professor sênior da USP, em artigo para o Jornal da Ciência

1-6Em 24 de novembro de 2025, a Universidade de São Paulo (USP) sediou o II Seminário Internacional “Ciência encontra Filantropia – Filantropia no Ecossistema Brasileiro da Ciência”. O evento reuniu lideranças nacionais e internacionais das áreas científica e filantrópica, incluindo representantes de fundações e fundos patrimoniais, universidades e instituições científico-tecnológicas, sociedades científicas, entidades voltadas ao apoio técnico a investidores sociais e comunicadores da ciência.

O intuito foi aprofundar o diálogo estratégico sobre como a filantropia pode fortalecer o ecossistema da ciência no Brasil, a partir do reconhecimento de experiências pioneiras no País, da ampliação do diálogo com organizações internacionais de referência no apoio privado à ciência, e da construção de agendas colaborativas intersetoriais para o fortalecimento da ciência como bem público.

A iniciativa foi promovida pelo Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (GEMA Filantropia), do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), com apoio da Fundação José Luiz Setúbal e parceria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Science Philanthropy Alliance (SPA) dos Estados Unidos. Essa Aliança, criada por seis fundações e filantropos em 2014, conta agora com 45 organizações, cada qual comprometida com a missão coletiva de avançar a descoberta científica.

Se recursos privados têm sido vistos como fonte relevante para cobrir oscilações dos aportes públicos, decorrentes de restrições orçamentárias ou de arbítrio de governantes, seu potencial de contribuição vai mais além. Recursos filantrópicos favorecem o avanço da produção de conhecimento, entre outros méritos, ao acolher projetos de elevada ousadia – por exemplo, apoiando propostas que, na avaliação de pares, geram “empate” entre pareceres favoráveis e desfavoráveis. Estas são frequentemente preteridas pelos mecanismos tradicionais, que preferem apoiar propostas de menor risco.

Se temos bastante a aprender de nações em que a contribuição da filantropia ao ecossistema da ciência adquiriu elevado grau de maturidade, é importante valorizar casos em que recursos privados fizeram e fazem a diferença na realidade brasileira, em que pese a maior aspereza a doações do atual contexto cultural, legal e tributário. As sementes da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, entidade emblemática da ciência e tecnologia brasileiras, foram plantadas pelo visionário casal Luiz Vicente e Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz em 1892, ao doarem a Fazenda São João da Montanha.  No século 21, desponta o caso do Instituto Serrapilheira, constituído em 2016 por doação filantrópica do casal João Moreira Salles e Branca Vianna, que entre outras iniciativas, apoia jovens pesquisadores.

São sinais positivos em nosso meio o florescimento de fundos patrimoniais em universidades e instituições afins, assim como a gradual emergência de entes privados cuja missão é complementar o imprescindível financiamento público à ciência, seja apoiando instituições existentes como criando estruturas próprias.

É hora de agregar esforços, para consolidar uma cultura de apoio à ciência e fortalecer as ações voltadas à criação de um ambiente institucional mais favorável. Aponta nesse sentido a proposição, emanada do recente Seminário, de criar a Aliança Brasileira de Filantropia em Apoio à Ciência, e estimulada pela notável astrofísica France Córdova, presidente da SPA, ao enfatizar que “os benefícios da ciência são globais, e é mais importante do que nunca que filantropos ao redor do mundo apoiem pesquisas transformadoras em estágio inicial”.

*O artigo expressa exclusivamente a opinião do autor