domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Transgênicos

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Embrapa lança primeira soja transgênica brasileira

O sistema de produção de soja Cultivance é fruto de uma parceria com a multinacional Basf baseada na “inovação aberta”. A tecnologia nasce com aprovação comercial em escala global

cultivance

Lançamento da soja transgênica 100% brasileira na sede da Embrapa. Foto: Embrapa

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançou oficialmente ontem, 25, a primeira variedade de soja geneticamente modificada brasileira. A tecnologia “verde-amarela”, batizada de Cultivance, é tolerante ao grupo de herbicidas imidazolinonas para inibir as plantas daninhas mais resistentes no campo, e já nasce com aprovação comercial em escala global.

O sistema de produção de soja Cultivance é fruto de uma parceria com a multinacional Basf baseada na “inovação aberta”. De acordo com as duas empresas, a comercialização da soja transgênica brasileira foi aprovada por 17 países e a União Europeia, último bloco a aprovar a compra da oleaginosa transgênica, em abril último.

Segundo o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, essa é a primeira vez que uma planta de soja geneticamente modificada, completamente desenvolvida no Brasil, desde o laboratório até a comercialização, entra no mercado, com aprovação nos principais mercados consumidores dessa oleaginosa. A força-trabalho envolveu 35 cientistas, mais ou menos.

Na avaliação do vice-presidente sênior da divisão de proteção de cultivos para América Latina da Basf, o engenheiro agrônomo Eduardo Leduc, o lançamento da soja transgênica brasileira coloca o Brasil “no seleto time de países que têm domínio de tecnologias, tanto sofisticadas como complexas, na área agrícola.

“Essa é uma tecnologia genuinamente brasileira, aprovada e comprovada por 17 países, o que torna a Embrapa uma das únicas, talvez a única, organização pública de pesquisa e desenvolvimento a dominar essa tecnologia. Isso é um orgulho para a Embrapa e para toda pesquisa agropecuária brasileira”, afirmou Leduc. A expectativa é de que a soja transgênica brasileira aumente a produtividade entre 30% a 40% no cultivo da soja.

Tendência da inovação aberta

Leduc chamou a atenção para o ineditismo do modelo adotado no desenvolvimento da soja transgênica brasileira, por intermédio de parceria público e privado (PPP) baseado na lógica da inovação aberta. Para ele, esse é um modelo que tende a perdurar pelos próximos anos.

“Os desafios estão crescendo e as organizações que operam de maneira isolada não vão conseguir responder aos desafios de maneira eficiente”, analisou. “Se a Embrapa e Basf tivessem tentado fazer o que estamos entregando agora de forma isolada talvez não tivessem conseguido. Ou talvez tivessem conseguido com prazos muitos mais longos e a custos muitos mais altos”, analisou.

Já o presidente da Embrapa afirmou que “conscientes dessa tendência” a Embrapa e Basf estão trabalhando para integrar conhecimentos, capacidade e ativos para dar resposta mais rápida ao produtor rural.

Investimentos

As duas empresas investiram US$ 32 milhões ao longo de 20 anos no desenvolvimento da tecnologia, desde a pesquisa em laboratório ao registro comercial e chegada ao campo. A maior parte dos recursos (US$ 22 milhões) foi aplicada pela Basf, informou o diretor de Inovação da Basf no Brasil, Ademar De Geroni Junior.

Segundo De Geroni, o contrato entre a Embrapa e Basf foi firmado em 1996 quando foi dado início ao trabalho de busca da introdução do gene no DNA da cultivar da soja – transformação genética alcançada em 2014. A partir daí começou-se a trabalhar para que esses genes se estabilizassem e chegassem à variedade de soja com o gene que pudesse tolerar a aplicação do herbicida da família  imidazolinonas. A tecnologia teve a liberação comercial aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNbio) em 2009.

Burocracia

A titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Kátia Abreu aproveitou o momento do lançamento da soja transgênica brasileira para mencionar o impacto negativo da burocracia brasileira.

Segundo ela, grande parte dos US$  32 milhões aplicados no desenvolvimento da soja foi desembolsada para tentar aprovar a tecnologia; e grande parte do tempo foi utilizada no processo de regulação do produto.

“Quanto tempo perdemos em função de questões ideológicas e de corporativismo que prejudicam o País. Se essa pesquisa tivesse sido iniciada após a Lei de Biossegurança e depois dos marcos regulatórios que foram modificados, talvez tivéssemos levado 12 ou 15 anos e não 20 anos.”

Distribuição regional da semente

Conforme a Embrapa e a Basf, a cultivar de soja transgênica será distribuída para todas as regiões brasileiras. Inicialmente, porém, atenderá a oito estados: Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Rondônia, Bahia e Distrito Federal, atendendo o ciclo da safra de 2015 a 2016. A partir do momento em que houver registros de novas cultivares de soja, a comercialização será expandida para outras regiões.

Conforme pesquisadores da Embrapa, a intenção é controlar as plantas daninhas desde a semeadura da soja. Segundo eles, essas pragas estão cada vez mais resistentes ao glifosato. Dessa forma, recomendam investir na rotatividade de herbicidas, com aplicação de novas tecnologias, assim quebrando o ciclo de resistência e realizando um manejo mais eficaz na cultura de soja.

Aliás, uma das inovações presentes na cultivar da soja transgênica brasileira é o fato de ser “uma alternativa para o agricultor controlar as plantas daninhas, principalmente aquelas de difícil controle e mais resistentes, desde a pré-emergência até o estado vegetativo”, conforme destacou o vice-presidente sênior da divisão de proteção de cultivos para América Latina da Basf, o engenheiro agrônomo Eduardo Leduc.

(Viviane Monteiro/ Jornal da Ciência)