domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Áreas da Ciência

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Educação na área de saúde deve formar pesquisador e profissional com capacidade crítica para construir aprendizagem colaborativa

Seminário realizado pela Fiocruz debate caminhos para fortalecer o pensamento autônomo na sociedade contemporânea e digital

Para promover realmente a saúde coletiva, a educação é parte fundamental. Não se trata da educação formal, mas aquela que se traduz em espaços efetivos de diálogo e de interação significativa. Esta foi a principal mensagem do Seminário Educação, Saúde e Sociedade do Futuro, realizado entre 25 e 27 de agosto pela Fiocruz, sob a coordenação da vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz, Nísia Trindade Lima.

“Não é por conta de um modelo produtivista que os profissionais da área de saúde devem apenas se preocupar em puramente apresentar trabalhos. É preciso ouvir, dialogar e estar aberto para aprender com o outro, enxergando o significado maior da sociedade e todos os seus desafios”, diz a vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz.

Com o objetivo de contribuir para o fortalecimento crítico em educação e fomentar discussões sobre perspectivas e novas visões sobre a educação na sociedade contemporânea, o seminário atraiu audiência máxima nos locais de palestra nas dependências da Fiocruz e ainda contou com uma audiência virtual, de profissionais da área de saúde, pesquisadores e educadores. Eles puderam acompanhar em tempo real as palestras que aconteceram nos três dias de evento, em virtude da Fiocruz estar inserida em diversas redes referentes a escolas e centros formadores de saúde.

O Seminário teve como conferencista principal o filósofo e especialista em cultura virtual contemporânea Pierre Lévy. Em um ambiente em que as discussões tinham como foco a educação e seu papel inovador na área de saúde, o filósofo convidou a plateia a refletir sobre o conhecimento colaborativo e os níveis de autonomia que a evolução dos meios de comunicação digitais imprime aos pesquisadores e à sociedade.

De acordo com Nísia, a inovação deste evento foi trabalhar com três eixos que precisam convergir para um campo de reflexão. O primeiro eixo está ligado diretamente às questões de pesquisa, à formação dos pesquisadores sob a ótica qualitativa, com ênfase sobre como formar pesquisadores autônomos, isto é, com capacidade crítica para promover uma pesquisa relevante em linha com as necessidades do país.

No segundo eixo, o enfoque é no impacto das novas tecnologias de comunicação e informação sobre a educação. A questão principal é como as tecnologias digitais impactam a educação, tanto no que se refere à geração de resultados como em práticas educativas mais autônomas.

E o terceiro eixo é focado na educação em saúde. Nísia explica que este eixo concentra um tema recorrente que diz respeito a caminhos para promover uma maior integração entre academia e serviços.

“Não podemos pensar a formação do profissional de saúde desvinculada da sociedade. É claro que há impactos do mercado, que acabam gerando novas necessidades, mas qual o cenário que consideramos desejável para o futuro? Se a perspectiva é de uma sociedade mais democrática, com menos iniquidades e desigualdades regionais, a educação sozinha não reconstrói esse mundo, mas ela tem que ser um vetor nesse processo”, pondera Nísia.

Na mesa-redonda de abertura do seminário, Educação em Saúde, coordenada por Antônio Ivo de Carvalho, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, os palestrantes Manuel Palácios, Secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, Mario Rovere, Secretário de Políticas, Regulação e Institutos do Ministério da Saúde da Argentina, e Naomar Almeida-Filho, Reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia, discutiram que tipo de formação seria desejável para o profissional de saúde na sociedade contemporânea.

Na Argentina, Rovere demonstrou preocupação com o crescimento da população de doentes crônicos, enquanto a formação do profissional de saúde, que acontece na prática nos grandes hospitais públicos, está focada em doenças agudas e atendimentos de emergência. Palácios defendeu a descentralização e democratização do ensino básico, com mais autonomia para os municípios. Na sua visão, a escola deve ser apropriada pela sociedade e precisa se abrir ao diálogo. Para Naomar Almeida-Filho, é preciso repensar o modelo de universidades no Brasil, sobretudo, na área de saúde, que não apresenta compatibilidade internacional, diferentemente dos modelos universitários vigentes nos EUA e na Europa, que inspiram demais universidades no mundo. Para Naomar, é preciso investir na formação interdisciplinar.

No segundo dia do Seminário, as discussões deram ênfase a projetos educacionais inovadores e à formação dos profissionais da Ciência e o comprometimento com qualidade, pensamento crítico e inovação. Segundo Nísia, o debate sobre os caminhos para formar cientistas com autonomia para criticar e promover pesquisa em consonância com as demandas do país deve ser mais que estimulado.

Observatório da Ciência

A Fiocruz colocará no ar, até o fim do primeiro trimestre de 2016, um observatório de ciência, tecnologia e inovação em saúde. Trata-se de um portal com uma área dedicada à comunicação de ciência, uma sessão focada na proposição de métricas alternativas e um espaço voltado para a discussão de novas propostas de política institucional. Nísia explica que o objetivo é contribuir para dar uma visibilidade ao trabalho de excelência em tecnologia desenvolvido na Fiocruz.

“Queremos tornar esse trabalho mais acessível, por um processo ainda mais transparente e organizado. E, assim, contribuir para a própria avaliação da pesquisa e consequentemente da pós-graduação. A ideia é buscar essas convergências”, completa.

A vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz explica que a Fiocruz vem trabalhando para integrar cada vez mais as áreas de pesquisa e ensino. Há discussões em torno dos parâmetros de avaliação que predominam no mundo acadêmico sob uma perspectiva crítica. “Nossos debates dão ênfase a uma avaliação da qualidade, principalmente questionando a ideia de um rankeamento como objetivo em todo o processo”, completa Nísia.

Ao mesmo tempo, Nísia explica que a Fiocruz vem desenvolvendo a área de informação. “E isso acaba convergindo toda uma política de incentivo de acesso aberto ao conhecimento. A comunidade de informação na Fiocruz predominantemente é muito ativa. Nessa visão, procuramos levar essa mensagem para os pesquisadores também. Destacar a necessidade de a política de acesso aberto contribuir para o trabalho do pesquisador. Ela não é só um imperativo ideológico, digamos assim, mas é um benefício para o pesquisador”, destaca.

Suzana Liskauskas/ Jornal da Ciência