sexta-feira, 28 de novembro de 2025
“Incorporar a filantropia ao ecossistema científico nacional é assegurar a diversidade, estabilidade e visão de futuro que ciência exige”, escreve Francilene Garcia, presidente da SBPC
Para se construir uma ciência forte, diversa e capaz de responder aos grandes desafios nacionais, um financiamento estável e robusto é fundamental. Já virou um mantra de nossa comunidade científica a afirmação de “ciência não é gasto, é investimento”. Um esforço que demanda, ao mesmo tempo, visão de longo prazo, compromisso público e a participação ativa da sociedade. Nesse contexto, a filantropia com propósito emerge como um componente estratégico para o fortalecimento do nosso Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI). Trata-se também de uma alavanca para reforçar a soberania científica nacional, ampliando a autonomia do país em agendas estratégicas, como clima, saúde, biodiversidade, energia e inteligência artificial — e fortalecendo a capacidade de planejar o futuro com base em conhecimento.
A filantropia jamais substituirá a responsabilidade indelegável do Estado, mas, como se observa em países que cultivam essa tradição há décadas, como Estados Unidos e nações europeias, pode fortalecer de maneira significativa sua capacidade de ação. Ao se somar ao investimento público, ela não apenas diversifica as fontes de financiamento, mas fortalece a resiliência do sistema científico, reduzindo vulnerabilidades em momentos de instabilidade política ou orçamentária.
O Brasil dispõe de um sistema científico amplo, territorialmente distribuído e socialmente relevante. Universidades, institutos de pesquisa, centros tecnológicos e iniciativas de base comunitária produzem conhecimento essencial para a redução das desigualdades, para o desenvolvimento regional, para a inovação produtiva e para o enfrentamento de crises complexas, como a emergência climática, a insegurança alimentar e os desafios sanitários. No entanto, esse sistema majoritariamente financiado com recursos públicos opera em um ambiente marcado por instabilidades orçamentárias e por limitações estruturais que restringem sua capacidade de assumir riscos e explorar fronteiras científicas. É nesse ponto que a filantropia pode atuar como força de risco e inovação, apoiando pesquisas de longo prazo, agendas de fronteira e projetos que exigem continuidade e tolerância ao risco científico.
É justamente nesse ponto que a filantropia pode assumir um papel catalítico. Ao aportar recursos orientados por propósitos públicos, com governança, transparência e visão de impacto, essa colaboração privada permite apoiar agendas de pesquisa ousadas, interdisciplinares e de longo prazo. Pesquisas que nem sempre se enquadram nos mecanismos tradicionais de fomento, mas que são forças motrizes da produção de conhecimento transformador. Esse modelo, amplamente adotado em países do hemisfério norte, tem demonstrado sua capacidade de fortalecer ecossistemas científicos resilientes, ousados e inovadores. Ao mesmo tempo, contribui para acelerar a inovação de ruptura e expandir espaços de experimentação que o financiamento público, pela sua natureza, nem sempre consegue absorver.
No Brasil, a aprovação da Lei nº 13.800, em 2019, que instituiu os fundos patrimoniais, permitiu termos bases legais para que doações privadas apoiem causas de interesse público, incluindo ciência, educação, meio ambiente e cultura, com regras claras de governança e preservação do capital. Desde então, experiências relevantes vêm se consolidando, assim como iniciativas voltadas à profissionalização da gestão filantrópica e à aproximação entre investidores sociais e a comunidade científica. Mesmo assim, a ciência ainda representa parcela mínima do investimento social privado brasileiro, um hiato que precisa ser enfrentado com política pública, cultura da doação e diálogo com a sociedade.
Nesse processo, algumas iniciativas já demonstram, de forma concreta, o potencial transformador da filantropia com propósito no apoio à ciência brasileira. É o caso do Instituto Serrapilheira, lançado em 2017, que já se consolidou como uma experiência pioneira no fomento à pesquisa científica de fronteira, especialmente ao apoiar jovens pesquisadores e projetos de maior risco. Destacamos também o Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (GEMA Filantropia), criado em 2023, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), com apoio da Fundação José Luiz Setúbal e parceria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Science Philanthropy Alliance (SPA), dos Estados Unidos. O GEMA vem contribuindo para o debate qualificado sobre novos arranjos de financiamento da ciência no País, buscando formas de promover a colaboração entre os setores científico-acadêmico e filantrópico e incentivar uma maior participação da sociedade no apoio à ciência. Essas experiências são exemplos que apontam caminhos possíveis para o fortalecimento de uma agenda colaborativa, intersetorial e orientada ao interesse público.
Ainda assim, a ciência permanece entre as áreas que menos recebem recursos do investimento social privado no País. É necessário que avancemos na construção de uma cultura da doação que reconheça a ciência como um bem público essencial, indutor de desenvolvimento econômico, social e ambiental. Que mostre que apoiar a ciência não é desviar recursos de causas urgentes. Muito pelo contrário, é o meio mais inteligente e eficiente de enfrentar as raízes das desigualdades e das vulnerabilidades que persistem no Brasil. Somente com conhecimento na base, que os avanços sociais e econômicos podem ser feitos. Fortalecer essa cultura exige comunicação científica acessível, campanhas públicas e o engajamento direto de instituições como a SBPC, que podem atuar como ponte entre o setor filantrópico, a comunidade científica e a sociedade.
A filantropia com propósito também tem a capacidade singular de atuar em territórios e contextos em que o Estado encontra maiores dificuldades de presença, fomentando redes locais, infraestruturas emergentes e iniciativas científicas adaptadas às realidades regionais. Em um país marcado por profundas assimetrias, essa dimensão territorial é decisiva para que a ciência possa efetivar seu papel social.
É igualmente fundamental reconhecer que filantropia não pode jamais se confundir com a lógica de mercado. Ciência exige tempo, tolerância ao risco e compromisso ético com resultados que nem sempre são imediatos ou previsíveis. Modelos baseados em retornos rápidos ou métricas simplificadas tendem a fracassar quando aplicados ao conhecimento científico. Filantropia responsável pressupõe confiança na ciência, respeito à sua autonomia e alinhamento com objetivos coletivos de longo prazo.
O desafio que se coloca ao Brasil é o de agregar esforços e nutrir uma cultura de apoio à pesquisa. Isso implica aprimorar o ambiente regulatório, fortalecer a segurança jurídica, ampliar incentivos e promover articulação entre Estado, comunidade científica, investidores sociais e sociedade civil. Implica, também, investir em transparência, comunicação e alfabetização científica, de modo que a própria sociedade compreenda o valor estratégico da ciência e se reconheça como parte ativa de seu financiamento e de sua defesa.
Incorporar a filantropia ao ecossistema científico nacional é assegurar a diversidade, estabilidade e visão de futuro que ciência exige. Ao estimular uma cultura de doação alinhada ao interesse público, o Brasil amplia sua capacidade de produzir conhecimento estratégico cujos benefícios se distribuem por toda a sociedade: da saúde à educação, do desenvolvimento regional à sustentabilidade ambiental. Trata-se de uma escolha de país, que conecta ciência, democracia e bem-estar coletivo.
Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Veja as notas do Especial da Semana – Filantropia na ciência
JC Notícias – Encontros virtuosos
Jornal da Ciência – SBPC defende novo modelo de financiamento da ciência com apoio filantrópico
Observatório 3 Setor, 21/04/2024 – Inovação nos recursos: a contribuição da filantropia para a ciência
Folha de S. Paulo – Filantropia brasileira não quer correr risco, mas na ciência isso é fundamental, diz CEO de instituto
Observatório Terceiro setor, 12/04/2024 – Filantropia: ciência é uma das causas que menos recebe investimento
The Conversation Brasil, 19/09/2024 - Como será o instituto de tecnologia e computação bancado por doação de empresários
Carta Capital, 03/04/2025 – O financiamento científico não pode estar refém de políticas inimigas da ciência
Folha de S. Paulo, 29/06/2025 - Iniciativa filantrópica de Mark Zuckerberg reduz doações e troca pautas progressistas por ciência
O Globo, 15/07/2025 – Filantropia não é startup
Nexo, 26/11/2025 – O papel catalítico da filantropia na Aliança Global contra a fome e a pobreza
Estadão, 03/12/2024 – A filantropia, os problemas indomáveis e os eventos climáticos
Jornal da USP, 24/01/2024 – A importância das doações privadas para o desenvolvimento da USP