domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Especial da Semana

sexta-feira, 17 de julho de 2026

EDITORIAL: A ciência e o desafio dos microplásticos

Na editoria especial do JC Notícias desta sexta-feira, a presidente da SBPC, Francilene Garcia, aborda os desafios impostos pelos microplásticos e convida o público a aprofundar esse debate na 78ª Reunião Anual da entidade, que tem como tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”

WhatsApp Image 2026-07-17 at 15.42.30Há temas que, silenciosamente, passam a ocupar um lugar central na agenda científica internacional e, quando nos damos conta, se tornam um problema estrondoso. Os microplásticos são um deles. Invisíveis a olho nu na maior parte das vezes, essas partículas já foram identificadas em praticamente todos os compartimentos ambientais, dos oceanos aos rios, dos solos à atmosfera, e também em diferentes tecidos e órgãos humanos. Em um mundo que produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano, compreender o destino desse material tornou-se uma questão científica, ambiental e de saúde pública.

Compreender a origem, o comportamento e os impactos dos micro e nanoplásticos exige a integração de pesquisas em química, biologia, oceanografia, toxicologia, medicina, engenharia, ciência dos materiais, saúde pública e ciências ambientais. Essa complexidade decorre não apenas da diversidade de polímeros existentes, mas também da capacidade dessas partículas de transportar outros contaminantes, interagir com microrganismos e percorrer diferentes ecossistemas até alcançar organismos vivos. É justamente essa capacidade de reunir diferentes saberes que permite à ciência compreender problemas cuja dimensão ainda está em construção.

Nos últimos anos, estudos conduzidos em diversos países, inclusive no Brasil, vêm ampliando significativamente o conhecimento sobre o tema. Pesquisadores já detectaram microplásticos em ambientes marinhos profundos, em ecossistemas amazônicos, em praias de praticamente todo o litoral brasileiro e em diferentes espécies da fauna. Também foram identificadas essas partículas em sangue, pulmões, placenta, cordão umbilical e outros tecidos humanos. Estudos mais recentes relataram ainda sua presença em cérebro, fígado, rins e sistema reprodutivo, ampliando as perguntas que a ciência precisa responder sobre seus possíveis efeitos no organismo. Embora muitos dos efeitos sobre a saúde ainda estejam sendo investigados, o avanço dessas pesquisas demonstra que estudar essa exposição tornou-se uma prioridade científica.

E essa distinção é importante. A ciência trabalha com evidências, e não com conclusões precipitadas. Em diversas situações, os estudos apontam associações que ainda precisam ser aprofundadas antes que se estabeleçam relações de causa e efeito. Longe de representar uma limitação, esse é precisamente um dos pilares do método científico: produzir conhecimento confiável, acumulativo e capaz de orientar decisões públicas com responsabilidade.

Mas a dimensão ambiental do problema já é amplamente reconhecida. Os microplásticos atravessam ecossistemas, alcançam cadeias alimentares, transportam outros contaminantes e já foram encontrados inclusive em ambientes considerados remotos, como o mar profundo e a Antártica, evidenciando os riscos e os impactos de um modelo de produção e consumo baseado no uso intensivo de materiais plásticos descartáveis. Enfrentar esse desafio exige mais do que aperfeiçoar sistemas de reciclagem. Requer inovação tecnológica, desenvolvimento de novos materiais, aprimoramento da gestão de resíduos, fortalecimento da economia circular e políticas públicas fundamentadas nas melhores evidências científicas disponíveis.

O Brasil é um dos países que vêm contribuindo de forma significativa com essa agenda de conhecimento. Instituições de pesquisa em diferentes regiões do País vêm desenvolvendo tecnologias de monitoramento ambiental, avaliação de riscos, metodologias analíticas e ferramentas voltadas ao enfrentamento da poluição plástica. Pesquisadores brasileiros produziram estudos pioneiros sobre a presença de microplásticos em praias de praticamente todo o litoral nacional, em águas profundas da Bacia de Santos, em ecossistemas amazônicos e, pela primeira vez na América Latina, em placentas e cordões umbilicais de gestantes.

Mais do que um problema ambiental, os microplásticos passaram a integrar uma agenda estratégica para o desenvolvimento. Seus impactos dialogam com a saúde pública, a segurança alimentar, a gestão dos recursos hídricos, a inovação industrial, a economia circular e a formulação de políticas públicas. São questões que extrapolam os laboratórios e exigem conhecimento científico para orientar decisões capazes de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e qualidade de vida.

Não por acaso, os microplásticos estarão entre os temas em destaque da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que começa daqui a nove dias na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. A programação científica dedicará duas atividades ao tema, abordando perspectivas complementares. A conferência “Microplásticos e Nanoplásticos na Saúde e Doenças Humanas” será ministrada por Vitor Francisco Ferreira (UFF), pesquisador cujos estudos vêm ampliando a compreensão sobre os possíveis impactos dessas partículas no organismo humano. Já a mesa-redonda “Microplásticos: Impactos Ambientais e Desafios Científicos”, coordenada por Paulo Artaxo, reunirá Ohanna Maria Menezes Madeiro da Costa (CNPEM) e Mario Barletta (UFPE), um dos organizadores do relatório Microplásticos: um problema complexo e urgente, publicado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), para discutir os avanços das pesquisas sobre a contaminação ambiental e seus desdobramentos.

A história da ciência mostra que os grandes desafios contemporâneos raramente começam a ser enfrentados quando já se tornaram evidentes para toda a sociedade. O caminho é outro: a pesquisa identifica sinais, formula perguntas, produz evidências e amplia a compreensão de fenômenos que, muitas vezes, ainda estão em construção. É exatamente esse o papel que a ciência brasileira desempenha hoje diante dos microplásticos.

Com esse compromisso é que a SBPC destaca este assunto durante a 78ª Reunião Anual, cujo tema, “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, reafirma a necessidade de colocar o conhecimento científico no centro das respostas aos grandes desafios nacionais e globais.

Convidamos estudantes, pesquisadores, professores, gestores públicos e toda a sociedade a participar dessa discussão e das demais atividades da Reunião Anual, cuja programação é inteiramente gratuita e aberta ao público. Ao ampliar o acesso ao conhecimento e promover o diálogo entre diferentes setores da sociedade, nossa Reunião Anual reafirma que ciência para todos é também uma condição para fortalecer a soberania nacional, promover o desenvolvimento e construir um país mais inclusivo.

Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC

 

Veja as notas do Especial da semana – Microplásticos

JC - Microplásticos e nanoplásticos entram no centro dos debates da 78ª Reunião Anual da SBPC

Jornal da USP – 10/11/2025 – Microplásticos: uma ameaça invisível à saúde humana e ao meio ambiente

Forbes, 21/05/2026 – Como microplásticos estão migrando das embalagens para alimentos e bebidas

The Conversation Brasil, 01/10/2025 – Perigo invisível e sem fronteiras: microplásticos e nanoplásticos já contaminam toda a cadeia alimentar do planeta

Poder 360, 19/10/2025 – Microplásticos e nanoplásticos contaminam toda a cadeia alimentar

André Julião | Agência FAPESP, 20/06/2026 – Microplásticos e poluentes persistentes estão presentes mesmo em águas profundas do Brasil

Metrópoles, 13/07/2026 – Microplásticos são encontrados em pacientes com infarto, diz pesquisa

CNN , 05/11/2025 – Microplásticos podem afetar a fertilidade de homens e mulheres

Mongabay, 24/10/2025 – Cientistas encontram microplásticos no estômago de macacos da Amazônia

Folha de S. Paulo, 08/10/2025 – Maior estudo já feito no País detecta microplásticos em 709 praias brasileiras

G1, 08/12/2025 – Microplásticos podem desencadear Alzheimer, Parkinson e outras lesões no cérebro, diz estudo

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Microplásticos podem afetar a saúde dos ossos

Elton Alisson | Agência FAPESP – Contaminação de peixes por microplásticos ameaça a produção agrícola

G1, 27/07/2025 – Cientistas brasileiros encontram microplásticos na placenta e no cordão umbilical de grávidas

G1, 04/05/2026 – Microplásticos no ar contribuem para o aquecimento global, mostra estudo inédito

Superinteressante, 13/05/2026 – Microplásticos presentes no ar podem estar agravando o aquecimento global. Entenda como

O Globo, 13/04/2026 – Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior do que a estimada

O Globo, 17/02/2026 – Poluição global: especialistas detectam microplásticos em intestíno do único inseto nativo da Antártida

G1, 17/12/2025 – Microplásticos, resíduos químicos e bactérias: os riscos da água engarrafada

Ipen, 17/06/2026 – Ciência nuclear brasileira combate poluição por microplásticos

O Globo, 13/04/2026 – Pesquisa no Rio investiga impactos de plásticos e microplásticos e propõe soluções sustentáveis

Mongabay, 26/06/2026 – Dos igarapés aos manguezais, microplásticos contaminam a Amazônia

O Globo, 06/02/2026 – Satélites podem identificar microplásticos nos oceanos e mudar o combate à poluição marinha

Blog do Pędłowski, 01/07/2026 – A violência lenta dos microplásticos já alcançou a Amazônia Azul

The Conversation Brasil, 30/10/2026 – Cientistas revelam como a poluição por plásticos circula nos oceanos à medida que se degrada

A Tribuna MT, 10/06/026 – A herança tóxica da sociedade descartável

Unifesp, 09/12/2025 – O microplástico de cada dia…

The Conversation, 14/07/2026 – Quanto microplástico estamos realmente respirando? Eis o que sabemos e o que ainda não sabemos