domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Sociedades Científicas

terça-feira, 29 de setembro de 2015

“É prioritário que o governo escute o que as sociedades estão tentando dizer”, alerta presidente da SBFTE

Durante cerimônia de abertura do 47º Congresso Brasileiro de Farmacologia e Terapêutica Experimental, Christina Avellar destacou que objetivo do evento, que acontece até quinta-feira em Águas de Lindoia, SP, será discutir com pesquisadores de todo o mundo como manter a pesquisa viva diante da crise

29.09 - Daniela

A presidente da SBFTE, Christina Avellar, dá as boas vindas aos participantes do 47o. Congresso Brasileiro de Farmacologia e Terapêutica Experimental, que acontece de 29 de setembro a 1o. de outubro em Águas de Lindoia, SP. (Créd. Jornal da Ciência)

Com o tema “Desafios Emergentes na Descoberta de Medicamentos e Terapias”, a Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental realiza nesta semana, de 28 de setembro a 1º de outubro, a 47ª edição de seu Congresso Anual, em Águas de Lindoia, SP. Durante a cerimônia de abertura, ontem (28), a presidente da SBFTE, Christina Avellar, ressaltou que o objetivo desse evento será discutir com pesquisadores de todo o mundo como manter o nível de desenvolvimento das pesquisas em tempos de crise. O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), Jorge Guimarães, foi homenageado e falou sobre o desenvolvimento da pesquisa e pós-graduação no País. Segundo ele, o maior desafio para o futuro da Ciência no Brasil é o de ampliar o número de jovens no ensino superior, que hoje corresponde apenas a 8,5% da população.

O Congresso conta com mais de 80 palestrantes, sendo que 15 deles são pesquisadores vindos de universidades estrangeiras, e cerca de 450 participantes inscritos, do Brasil e de outros países da América Latina. Além de apresentar pesquisas de ponta na área, o evento terá sessões dedicadas a discutir o desenvolvimento de pesquisas e o ensino de farmacologia no Brasil e, em especial, o contexto político e econômico das atividades científicas. “Esse evento foi organizado para discutir e pensar a ciência em farmacologia, especialmente os desafios que o País terá para, pelo menos, manter tudo o que conquistamos até hoje”, destacou a presidente da SBFTE.

Segundo Avellar, o encontro marca também os preparativos para a celebração dos 50 anos de fundação da Sociedade, em 2016. Para tanto, a participação de representantes de organizações internacionais, como Sam Enna, presidente da União Internacional de Farmacologia (IUPHAR), nos EUA, e René Delgado, da Sociedade Cubana de Farmacologia, reforça um dos objetivos que a SBFTE proporá para seu cinquentenário – ampliar a cooperação internacional entre cientistas da área. “Queremos fortalecer parcerias com sociedades internacionais para definir os objetivos para os próximos 50 anos, que é entender quais são os desafios de farmacologia, principalmente do ensino, para que possamos treinar essa nova geração”, disse.

Em seu discurso de boas vindas aos palestrantes do Congresso, Avellar ressaltou os problemas que a ciência brasileira vem enfrentando, com cortes de recursos em várias áreas, mas destacou também, com otimismo, a resiliência da comunidade científica. “Como cientistas, nós somos sobreviventes”, comentou.

De acordo com ela, para continuar no patamar que atingimos, as instituições de ensino e pesquisa nacionais dependem da continuidade do financiamento do governo. “Como a SBPC vem alertando, estamos vivendo um período difícil, preocupante. É prioritário que o governo escute o que as sociedades científicas estão tentando dizer, principalmente na figura da SBPC e da ABC”, observou Avellar, ressaltando que a ciência não pode esperar a crise passar: “Para a formação das pessoas, trabalhos feitos em laboratórios, experimentos, a farmacologia depende de verbas para garantir sua continuidade”.

Mais jovens na pós-graduação

O homenageado do Congresso, Jorge Guimarães, falou sobre os últimos 30 anos de pesquisas no País, desde a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia, hoje MCTI, em 1985. Segundo ele, a produção de artigos indexados cresceu bastante nesse período – em 1985, o País representava 0,4% dos artigos publicados no mundo; hoje esse percentual já é de 2,7%. “Hoje o Brasil sozinho produz mais artigos científicos que todos os países da América Latina juntos”, destacou.

Os indicadores de output (resultados das pesquisas) cresceram 11 vezes entre 1985 e 2015, mas, conforme observou, outros países tiveram performances bem mais expressivas, como a Coreia do Sul e a China, que viram esses fatores disparar cerca de 85 e 40 vezes, no mesmo período.

“Comparado com o resto do mundo, o Brasil está entre os países com o crescimento mais rápido. A ciência brasileira teve um desenvolvimento muito singular. Um exemplo é que, em apenas 50 anos, todos os estados passaram a ter suas próprias agências de fomento”, disse. Porém, apesar de possuir dimensões, Produto Interno Bruto (PIB) e população equiparável a países como EUA e China, Guimarães aponta que no ranking de produção de conhecimento científico mundial, somos ainda o 13º colocado.

O baixo nível de cooperação internacional é, segundo ele, um dos principais fatores que contribuem para esse desempenho. Um exemplo são as publicações internacionais – apenas 30%, contra a média mundial de 43% entre os países mais produtivos. O presidente da EMBRAPII esclarece que a internacionalização dos resultados das pesquisas aumenta o número de citações e, assim, influencia positivamente o fator de impacto dos estudos desenvolvidos nacionalmente.

Outro desafio para o futuro, o maior, de acordo com Guimarães, é ampliar o percentual de jovens nas universidades. Hoje, apenas 8,5% da população está no ensino superior, e, de acordo com dados de 2013, formamos aproximadamente 14 mil doutores por ano. “Isso não é nada para o tamanho da nossa população. Se o governo quer levar o Brasil para um patamar mais alto, vai precisar considerar isso”, afirmou, corroborando que cortes na ciência afetarão negativamente a agenda de pesquisa nacional, o crescimento do número de jovens desenvolvendo pesquisas e a internacionalização da ciência brasileira.

Daniela Klebis/ Jornal da Ciência