sexta-feira, 31 de julho de 2026
Com indícios de serem tóxicas, partículas se tornam cada vez menores, mais difíceis de detectar, e penetram em tecidos mais protegidos
“O que são esses tais microplásticos?”, questionou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), em mesa realizada nessa quinta-feira (30), durante a 78ª Reunião Anual da SBPC, que acontece esta semana na Universidade Federal Fluminense (UFF), em NIterói. “São partículas não biodegradáveis e isso traz uma relevância importante”, adiantou, na apresentação à mesa coordenada por ele. Olhe em volta, e é provável que veja algum recipiente descartável feito de plástico, ou produto cosmético que contém partículas microscópicas. Esse material com frequência acaba abandonado no ambiente, onde, ao longo de décadas, começa a se desfazer em partes cada vez menores. Mas quando passa despercebido aos nossos olhos, não significa que tenha desaparecido ou se tornado inócuo.
“Há entre nove e 14 milhões de toneladas anualmente no oceano, que resistem à degradação natural por séculos”, alertou Artaxo, completando que penetram no organismo humano por ingestão, inalação e contato dérmico. A ação tóxica já detectada inclui danos ao DNA, inflamação sistêmica, estresse oxidativo, risco aumentado de doenças cardiovasculares e respiratórias e distúrbios metabólicos e, por ser um material que não se degrada, se acumula nos tecidos e pode ser transferido entre organismos.
A química Ohanna da Costa, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, se dedica a detectar e caracterizar esses fragmentos invisíveis. Em seu trabalho na linha de luz Imbuia, que usa o espectro do infravermelho para analisar amostras, ela atende a demandas de pesquisadores que buscam plástico no ambiente e em seres vivos. “A pergunta ‘tem plástico?’ não é fácil de responder e exige várias técnicas para enxergar a impressão digital de polietileno, polipropileno ou poliestireno”, explicou.
O Sirius é um imenso laboratório dentro do CNPEM, com várias linhas de luz síncrotron que funcionam como um supermicroscópio com estações experimentais. Caracterizar o material pode ajudar a inferir de onde ele veio, como se transforma, como interage com os tecidos orgânicos, sua quantidade e que riscos pode oferecer. O processo de degradação do plástico leva anos, e nesse período vai interagindo com seu entorno. “Já recebi amostras visualmente semelhantes e completamente diferentes na caracterização”, afirmou a química.
Um problema é que os métodos de coleta são muito diversos – nas rochas enregeladas antárticas, no sangue de uma tartaruga, no alto de uma montanha – e é difícil evitar contaminações a partir desse momento e nas sucessivas etapas. O preparo das amostras também é crucial, porque se os suportes e filtros tiverem uma interação inadequada com a luz, a análise fica prejudicada. “Precisamos controlar tudo o que for possível, inclusive a cor do jaleco de quem está no laboratório”, contou ela. Uma vez resolvidos os problemas, a linha Imbuia tem instrumentos de caracterização visual e química, nas escalas microscópica e nanométrica.
As questões variam muito. Uma estudante de oceanografia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) passou um ano no CNPEM medindo amostras do ambiente marinho ao longo de todo o litoral Nordeste, quantificando e caracterizando a presença de plástico. Médicos da USP tinham uma peça de bulbo olfatório de cérebro humano, que precisava ser cortada em fatias com espessura de 10 mícrons para permitir a interação com o feixe de luz. “Nem todas estavam corretas, então havia um desperdício”, diz a pesquisadora. Depois de detectadas as partículas, eles passaram a tentar identificar por que caminho o plástico chegou àquele tecido tão protegido. “O resultado teve muita repercussão, porque o impacto neurotóxico dos microplásticos no cérebro humano é desconhecido.”
A química avisa que as partículas estão ficando cada vez menores, degradadas por luz solar, abrasão, oxidação, entre outros processos, e capazes de ultrapassar barreiras. O equipamento que ela usa detecta até a escala celular, com ajuda de uma ponta que varre o material e recolhe informações de topografia, rugosidade e outros aspectos, enquanto a luz lançada da ponta analisa a composição. Será necessário algo mais potente para a escala molecular, provavelmente usando uma conjunção de ferramentas de outras linhas do Sirius.
O biólogo marinho Mário Barletta, do departamento de Oceanografia da UFPE, também procura microplásticos em organismos, mas usando um enfoque ecológico. “Também controlamos o guarda-pó, a camiseta e até a calça que o pessoal usa no laboratório, para descartar se encontrarmos algo semelhante na amostra”, contou ele à colega de mesa. Isso no laboratório, mas no barco as chances de contaminação são ainda maiores e é difícil padronizar o método. Os rios, canais e o ambiente estuarino do Recife estão repletos de plástico e ele viu que os animais também, por meio de análises em parceria com o Laboratório de Macromoléculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Em um estudo com bagres, o grupo percebeu que há plástico em todas as fases de desenvolvimento, mas são partículas distintas, uma vez que o ambiente usado pelo animal e o nível trófico (onde ele se encaixa na cadeia alimentar) varia conforme o momento da vida. “Vimos que a unidade ecológica precisa ser a fase ontológica, em vez da espécie.”
Os resultados foram mostrando que, além de se contaminarem pelo ambiente, os animais também acumulam o plástico contido dentro de suas presas. “Agora, estamos modelando toda a informação para tentar entender como acontece a contaminação em função do espaço e do tempo”, disse. Um resultado curioso surgiu do estudo com a anchova da espécie Anchovia clupeoides, que se alimentam de zooplâncton – mas não de fitoplâncton, que tem a mesma dimensão. “Não sabemos como elas conseguem escolher os tipos de plâncton, mas não conseguem separar o plástico quando filtram o ambiente.”
Consultando Ohanna da Costa enquanto apresentava seus resultados, Barletta disse não saber como determinar se a oxidação detectada no laboratório carioca acontece no ambiente ou no sistema digestivo dos peixes. Concluíram, juntos, que seria interessante analisar amostras da água, do trato digestivo e das fezes, comparando a caracterização. “Temos espaços para mais parcerias, quanto mais parceiros resolvendo um problema, mais produtivo é”, disse ele.
O debate que se seguiu, com as perguntas do público, foi centrado principalmente em como combater a epidemia de plástico e evitar que esse material continue a ser despejado no ambiente. Requer, sobretudo, profundas mudanças no consumo e no comportamento humanos.
Maria Guimarães – Jornal da Ciência