domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
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terça-feira, 14 de abril de 2026

Dependência de insumos, programas sem continuidade: os gargalos por trás das vacinas brasileiras

Para Akira Homma, 86, o País construiu um dos melhores programas de vacinação  do mundo — mas, enquanto não tiver política de Estado contínua para ciência e tecnologia, continuará dependente de imunizantes concebidos no exterior. Confira a entrevista da nova edição do Jornal da Ciência Especial, disponível para download gratuito

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Akira Homma tem 86 anos e uma biografia que se confunde com a história da vacinação no Brasil. Nascido em Presidente Venceslau (SP), filho de imigrantes japoneses, formou-se veterinário pela Universidade Federal Fluminense (UFF), fez doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em virologia no Baylor College of Medicine, em Houston.

Trabalhou na produção da vacina contra a febre aftosa na Bayer, na Alemanha, antes de chegar ao Bio-Manguinhos, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz, em 1976. Até então, ali eram só 23 funcionários e uma única vacina no portfólio. Dirigiu a instituição por mais de duas décadas, em dois períodos, e presidiu a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Foi sob sua gestão que o Bio-Manguinhos obteve a pré–qualificação da Organização Mundial de Saúde para a vacina da febre amarela — credencial que autoriza o fornecimento a organismos das Nações Unidas e que, em toda a América Latina, só a instituição possui. Hoje o instituto produz dezenas de vacinas, mais de 30 kits de diagnóstico e uma linha de biofármacos, todos voltados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Em entrevista concedida ao Jornal da Ciência, Homma analisa a trajetória do país no quesito vacinação. Ele avalia por que a preferência histórica por transferência de tecnologia — eficaz para abastecer mais rapidamente o sistema público — criou uma dependência estrutural de tecnologia e insumos externos, com mais de 90% dos insumos de produção ainda importados. E por que, sem uma política de Estado contínua para ciência e tecnologia, independente de mudanças de governo, o País permanecerá correndo atrás.

JORNAL DA CIÊNCIA (JC) – Por que mesmo hoje é tão importante falar de vacinas?

Akira Homma (AH) - Parece que todo mundo sabe que vacina é importante, mas como já há muito tempo se vem falando que é importante, já não tem mais a prioridade para discutir a questão, e infelizmente a cobertura vacinal está caindo. E esse é um problema muito sério. Além do esforço que a gente faz aqui para desenvolver e produzir vacinas, é necessário que a população se convença de que tem que continuar a vacinação para proteger a população, proteger seus familiares, sua comunidade. É absolutamente importante que toda a sociedade se convença de que isso é um problema que não terminou, não acabou. É um problema permanente.

Somos vítimas do nosso próprio sucesso, porque a vacinação realmente mostrou que é possível controlar — e, mais que controlar, se todo mundo se vacinar, nós podemos erradicar a doença. Como a gente conseguiu erradicar a varíola, conseguimos erradicar a poliomielite, conseguimos erradicar o sarampo, a rubéola.

JC – Temos uma crise em andamento em países como os EUA, por exemplo.

AH - O sarampo voltou, mas conseguimos outra vez erradicá-lo com o esforço para ter altas coberturas vacinais. Mas o fato é que, lá nos Estados Unidos, o governo Trump tem realmente feito um trabalho muito negativo em cima da vacina, e está aumentando a desconfiança da população sobre a necessidade de vacinação. Então, está lá acontecendo já surtos epidêmicos de sarampo, não só nos Estados Unidos, mas no Canadá, no México. Milhares de casos de sarampo estão acontecendo e já tem mortes por sarampo, tá certo? E também tem casos de difteria e outras doenças imunopreveníveis que estão voltando.

Em poucos anos, eles vão sentir a volta das doenças imunopreveníveis, isso afetando a população, afetando a sociedade e afetando o custo do sistema de saúde — não só a questão econômica, porque tem a questão de sofrimento da população, eventos adversos graves, e as crianças f icarem com problemas de saúde permanentes. Enfim, e a poliomielite? Se a poliomielite voltar, vai ser absolutamente terrível.

JC – De onde veio o seu interesse, a sua oportunidade de trabalhar com vacina? Como foi essa construção na sua carreira?

AH - Comecei em saúde pública. Com 19 anos, eu era estagiário no Instituto Adolfo Lutz, lá em Itapetininga, cidade do interior de São Paulo. Depois, fui funcionário técnico em laboratório do Adolfo Lutz em Botucatu, depois fui para São Paulo e de São Paulo vim para o Rio de Janeiro, para o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa, que é uma instituição da Organização PanAmericana de Saúde.

A febre aftosa é uma virose que acomete o gado bovino, sobretudo biungulados. Como eu era conhecido por trabalhar em cultura de células, fui recomendado para essa área — vim para isolar o vírus, tipif icar o vírus e produzir uma vacina contra a febre aftosa. Aí já começou: com 21 anos já estava numa instituição que trabalhava em virologia e desenvolvia vacinas.

Em 1968 eu me formei veterinário — fui estudar veterinária porque estava trabalhando com febre aftosa, doença do gado bovino. Mas, em janeiro de 1969, mudei para a Escola Nacional de Saúde Pública, porque estavam organizando um departamento de virologia e precisavam de alguém que conhecesse cultura de células. Trabalhando com cultura de tecido e com o vírus da poliomielite — a vacina de poliomielite já tinha sido desenvolvida, havia duas: a Salk inativada e a Sabin, que estava começando a ser utilizada, mas ainda não se tinham estudos de eficácia. Eu participei dos primeiros estudos de eficácia dessa vacina no país, fazendo todo o estudo sorológico da vacina oral de vírus atenuados da poliomielite aqui no Brasil.

JC – O senhor chegou a trabalhar fora do país também…

AH - Passei um tempo em Houston, no Departamento de Virologia do Baylor College of Medicine, trabalhando com John Melnick e Craig Wallace, inventores do termoestabilizador da vacina oral da poliomielite — sempre envolvido com vacinas. E depois trabalhei na Bayer Internacional, em Leverkusen, na Alemanha, na produção da vacina da febre aftosa. Era chefe da produção do antígeno. E aí, em 76, com a criação do Biomanguinhos, me chamaram de volta para trabalhar na área de desenvolvimento e produção de vacina para uso humano. Mas, enfim, o vírus — seja animal ou humano — sempre envolve a mesma tecnologia nesse processo.

JC – Qual era o papel do senhor ao retornar para a Bio-Manguinhos?

AH - Vim com o desafio de modernizar a produção da vacina de febre amarela. A tecnologia já existia desde 1937, com algumas melhorias, mas, para a época, já estava obsoleta. Não se falava em boas práticas de produção, mas eu já conhecia isso da Alemanha. Então comecei a introduzir esses conhecimentos.

Eu diria que o ápice foi quando a gente conseguiu a pré-qualificação da vacina de febre amarela pela Organização Mundial de Saúde, com autorização para fornecer vacinas para organismos das Nações Unidas, como a Unicef e a própria OMS, para países mais pobres.

JC – O que isso significa?

AH - A pré-qualificação significa que cumprimos todos os procedimentos de boas práticas de fabricação — que é absolutamente complexo —, todos os equipamentos certificados, todos os recursos humanos treinados. Aqui no Brasil, só a vacina de febre amarela e agora a de meningococo têm pré-qualificação da OMS. Na América Latina toda, somos os únicos laboratórios fornecedores. para você entender a complexidade de obter a pré-qualificação da Organização Mundial de Saúde. E também é porque temos no país um sistema regulatório com a Anvisa muito forte e muito bom.

A Anvisa é considerada, dentro das agências regulatórias do mundo, uma das melhores — comparável à FDA e às agências europeias — elas são todas reconhecidas como pares nesse processo. E isso torna tudo muito difícil para o laboratório produtor, porque a Anvisa está sempre pedindo adequação de instalações, equipamentos e procedimentos em conformidade com as boas práticas de fabricação — BPF, ou GMP: Good Manufacturing Practice. É muito complexo, e os laboratórios precisam se adequar a isso com investimentos e treinamento de recursos humanos.

JC – De onde vem essa complexidade?

AH - Mais de 90% dos insumos utilizados na produção são importados. É a exigência de insumos certificados em garantia de qualidade. Então,  o Brasil precisa avançar muito para não ter dependência de importação de insumos básicos de fabricação.

Estamos num momento de mudanças muito importantes. Os americanos sempre dominaram o mercado, mas a Índia, a Coreia do Sul — o Japão começou antes —, e sobretudo, nos últimos anos, a China vêm fazendo um investimento muito forte em ciência e tecnologia. Eles estão dominando várias áreas, não só física e eletrônica, mas também na área biológica, em vacinas, em biofármacos. Basta dizer que, já há alguns anos, eles são os maiores detentores de patentes do mundo, tendo suplantado os americanos.

E eles avançam de forma absolutamente acelerada, porque tiveram uma política de Estado para apoiar ciência e tecnologia de longo prazo, permanente — não é como no Brasil, que a cada governo mudam as políticas, muda o financiamento, muda o orçamento.

JC – E como isso afeta o desenvolvimento de vacinas?

AH - O desenvolvimento de uma vacina classicamente leva de 15 a 20 anos: depois que se tem um produto protótipo com demonstração de conceito, entra para estudos clínicos de fase 1, fase 2, fase 3, com milhares de pessoas sendo vacinadas, enfim.

Esse paradigma foi desmontado pela pandemia de covid-19. Quando foi decretada a pandemia, os países mais desenvolvidos colocaram somas astronômicas para desenvolver uma vacina. Os americanos colocaram a chamada Operação Warp Speed, com quase US$ 20 bilhões — e  o que classicamente levaria até 20 anos, foi feito em menos de um.

Nunca, em tempo algum, tivemos tanto dinheiro para desenvolver uma vacina. Os grandes laboratórios produtores e todos os institutos de pesquisa trabalharam juntos. Em termos de produção, os laboratórios já organizaram linhas de produção em diferentes plataformas, porque ainda não se sabia qual seria o tipo de vacina a ser aprovada. Esses governos ricos compraram as vacinas, já contrataram cinco, seis vezes o necessário para o país e deixaram a gente aqui a ver navios.

JC – Mas aqui nós tivemos algumas parcerias também.

AH - Nós tínhamos um grupo de prospecção científica e tecnológica, mapeando as tecnologias mais avançadas. E detectamos uma tecnologia de adenovírus recombinante, da Universidade de Oxford, bem adiantada, com resultados muito positivos — e também porque a gente já tinha instalações laboratoriais com boas práticas de fabricação e pessoal treinado em tecnologia similar. Então, essa tecnologia foi internalizada em prazo muito curto, e conseguimos produzir a vacina inteiramente fabricada aqui.

JC – O Brasil precisa buscar a autossuficiência em vacinas? Isso passa pelas parcerias ou a gente tem que ter um esforço ainda maior em desenvolver tecnologias próprias?

AH - O fato é que nós temos muito pouca ciência e tecnologia aqui. E quando surge uma vacina no exterior, a sociedade clama por essa vacina. Então, somos cobrados para internalizar essa tecnologia — o Ministério da Saúde é cobrado, o Programa Nacional de Imunização é cobrado. E temos que internalizar rapidamente a tecnologia de produção, porque, quando a vacina chega, o custo do produto é muito alto e fica difícil para o governo disponibilizá-la para toda a população. Então, nós, laboratórios públicos, entramos nesse processo para negociar a produção local, sobretudo buscando um produto com alta qualidade, mas com preço também lá embaixo.

A transferência de tecnologia tem sido instrumento para obter os produtos o mais rapidamente possível para o sistema público de saúde. E, dentro desse contexto, o poder de compra do Estado é absolutamente fundamental para garantir a internalização dessas tecnologias modernas.

Todas as tecnologias que a gente vem negociando nesses anos todos são tecnologias de ponta, absolutamente de ponta. Quando nós começamos a discutir transferência de tecnologia, na década de 2000, vinha gente muito graúda dizendo: “vocês não vão conseguir nenhuma tecnologia de ponta, só tecnologia obsoleta, aquela já no domínio público”. Pois nós demonstramos que é possível, sim, conseguir, desde que você saiba como e tenha o governo por trás, com poder de compra e apoiando a gente.

JC – Como o Brasil construiu seu Programa Nacional de Vacinação?

AH - Vacinas e vacinações começaram lá com Oswaldo Cruz. E depois seguiu, em 1970, com a erradicação da varíola: o governo centralizou, fez campanha nacional de erradicação. Mas também a base foi fortalecer e modernizar a produção da vacina da varíola aqui na Fiocruz — 300 milhões de doses.

Com produção de boa qualidade, com a política de governo, vem a população e se vacina. E conseguimos erradicar a varíola.

No bojo dessa erradicação foi criado o Programa Nacional de Imunizações, em 1973, com quatro vacinas — poliomielite, sarampo, BCG, varíola —, mas com cobertura vacinal muito baixa, e havia surtos epidêmicos de poliomielite.

E aí o governo, em 1980, decidiu criar os Dias Nacionais de Vacinação. Não foi só o Ministério da Saúde — foi o governo inteiro. Todos os ministérios participando, toda a sociedade, todas as sociedades científicas apoiando. Em um dia só, conseguimos vacinar 18 milhões de crianças menores de 5 anos — com 30 mil voluntários participando desse processo. O país inteiro vacinando em dois dias. Em dois ou três anos, os casos de poliomielite foram lá embaixo.

Mas ainda restavam surtos epidêmicos no Nordeste, identificados como sendo do sorotipo 3 — pois são três sorotipos de vírus da poliomielite. O Ministério nos pediu uma formulação potencializada para o sorotipo 3. Formulamos essa vacina em tempo recorde, ela foi utilizada lá e acabou com a poliomielite no País. Há 37, 38 anos, nós não temos um caso sequer de poliomielite no Brasil.

JC – No caso da pólio, falta pouco para haver uma erradicação, certo?

AH - Ainda temos casos de poliomielite no mundo, no Afeganistão, no Paquistão. Enquanto não eliminarmos esses casos, teremos esse problema. E ainda há casos de poliomielite derivados do vírus vacinal, em alguns países que ainda usam a vacina de vírus atenuados.

Nós demonstramos aqui que essa vacina, com altíssimas coberturas vacinais, permite controlar: com cobertura alta, você cobre todas as crianças e o vírus não encontra crianças desprotegidas para infectar. Por isso, o Brasil, há 45 anos, adota a vacina de vírus inativado, para evitar casos de poliomielite derivados do vírus vacinal. Todo mundo deveria adotar essa vacina. Hoje já há produção suficiente para todos os países. E falta só um pouquinho para erradicar mais uma virose no mundo.

JC – Como é que o senhor está vendo esses esforços recentes de grupos brasileiros para produzir vacinas?

AH - O esforço é antigo. A gente investiu no desenvolvimento da vacina de dengue aqui já há mais de 10 anos, mas por uma tecnologia que não deu certo. E o Butantan conseguiu uma tecnologia realmente interessante, importante, e temos esperança de que essa vacina do Butantan, com uma dose só, vai proteger. A Takeda também tem uma vacina, mas precisa de duas doses. Se a combinação dessas vacinas atingir a população suscetível, a gente tem um instrumento muito importante para controlar a dengue.

Mas eu aposto muito mais no controle do vetor. Todas as arboviroses têm vetor — febre amarela, dengue, Zika, chikungunya. O vetor urbano é o Aedes aegypti. Nós conseguimos erradicar o Aedes aegypti duas vezes no país. Voltou, porque outro país não adotou a erradicação, mas temos o conhecimento de como controlar.  A Wolbachia [bactéria que interfere na reprodução do mosquito] é uma das formas que estamos usando para o controle do vetor. Mas a população tem que participar. É a população que tem que vigiar criadouros de mosquito dentro de casa, ao redor das casas, no bairro.

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Gabriel Alves – Jornal da Ciência