sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Eventos climáticos extremos e mudanças nos biomas põe em risco não apenas o patrimônio material brasileiro, mas também a cultura de povos inteiros. Leia na nova edição da Ciência & Cultura
Em 2 de janeiro de 2002, a cidade de Goiás, a 130 quilômetros de Goiânia, decretou estado de calamidade depois de 15 horas de chuva intensa atingirem seu centro histórico. Menos de um mês antes, o município havia sido reconhecido como patrimônio mundial. Entre os bens danificados estava a Casa Velha da Ponte, onde viveu a poetisa Cora Coralina, que teve sua estrutura comprometida e parte do acervo destruído. O episódio antecipava um problema que se torna cada vez mais frequente: com o avanço da emergência climática, eventos extremos ameaçam não apenas o patrimônio histórico, mas também os patrimônios naturais e culturais associados aos diferentes biomas brasileiros. Isso é o que discute reportagem da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “Patrimônio Material, Imaterial e Natural do Brasil”.
Embora os impactos variem de acordo com as características de cada região, todos os biomas sofrem transformações provocadas pelas mudanças climáticas e pela ação humana. No Sul, por exemplo, tempestades, ciclones extratropicais, vendavais, tornados e enchentes mais intensas já provocaram perdas significativas. Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul atingiram acervos históricos e arqueológicos, afetando cerca de 300 mil peças apenas do Museu Joaquim Felizardo. No Pantanal, ocorre o fenômeno inverso: a redução das áreas naturalmente alagadas ameaça o equilíbrio do bioma. “Resultados recentes do MAPBiomas mostram que a área alagada do Pantanal foi decrescida em 30% nos últimos 20 anos. A tendência do futuro é ela deixar basicamente de ser uma planície alagável, deixar de ser um pantanal”, afirma Paulo Eduardo Artaxo Netto, professor do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
As consequências dessa transformação ultrapassam a dimensão ambiental e atingem diretamente os modos de vida e os conhecimentos tradicionais. Entre os povos afetados estão os Guató, cuja cultura está profundamente ligada à dinâmica das águas. “Toda a forma de ser e estar dos povos guatós está relacionada à dinâmica das águas. A forma com que ele pesca, a forma como ele se alimenta…”, explica Luana Cristina da Silva Campos, professora-adjunta na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e no mestrado profissional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
As mudanças ambientais também ameaçam matérias-primas fundamentais para manifestações culturais, como a viola de cocho. “A viola de cocho demanda uma matéria-prima específica para ser feita: uma árvore que precisa ter um tamanho específico, porque ela é escavada e não colada. As árvores no Pantanal não têm chegado ao tamanho mínimo para produzir o instrumento. Os ciclos de seca têm ficado cada vez mais curtos. Atrela isso aos incêndios criminosos dos fazendeiros que vão fazer a limpeza do seu território e as árvores não chegam ao tamanho necessário”, relata Luana Campos.
Apesar dos danos já provocados, a construção de respostas às mudanças climáticas ainda é incipiente. Um passo importante foi a publicação, em 2025, da Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas, que propõe diretrizes para políticas públicas de proteção do patrimônio diante da crise climática. O documento defende planejamento baseado em diagnósticos regionais, educação, diálogo com as comunidades e participação dos povos afetados, além de cobrar do Estado um arcabouço legal e um fundo específico para bens culturais sob risco climático.
Na COP30, realizada em Belém (PA), também houve tentativa de avançar na criação de mecanismos de financiamento, embora a proposta não tenha sido aprovada. “A ideia era que se conseguisse dentro da COP parte desse fundo, mas não foi aceito. O único avanço que conseguimos foi incluir o conceito de adaptação atrelado aos povos tradicionais e aos conhecimentos tradicionais”, conta Luana Campos. Para ela, preservar o patrimônio é também preservar a memória coletiva: “Qual a importância de você manter a sua memória? Se você perder a sua memória, vai ter algum problema? A gente chama isso de Alzheimer, a gente chama isso de demência. Mas, enquanto sociedade, perder a nossa memória, a nossa história, ainda não consideramos uma patologia”.
Leia a reportagem completa:
https://revistacienciaecultura.org.br/?p=10687
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