segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Mulheres da Amazônia lideram a resistência contra a crise climática e a exploração, unindo a defesa da floresta à luta por direitos e visibilidade. Confira na reportagem da nova edição da Ciência & Cultura
A COP 30, realizada em novembro de 2025 em Belém (PA), marca um momento histórico: pela primeira vez, a Conferência do Clima ocorrerá no coração da Amazônia. A escolha da cidade reforça a centralidade dos ecossistemas tropicais na agenda internacional e abre espaço para que o Brasil exerça liderança ambiental com propostas de transição ecológica ancoradas em justiça social. Ao se apresentar como uma conferência de povos e cidades, o evento pretende evidenciar as vozes de quem vive, defende e transforma a região, colocando em debate modelos de desenvolvimento, soberania territorial e proteção de modos de vida ameaçados. Isso é o que discute reportagem da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “COP 30: ciência, política e ação”.
Nesse cenário, temas como justiça climática, conservação das florestas, direitos dos povos indígenas e desenvolvimento sustentável aparecem com urgência renovada. Para Leila Mourão Miranda, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará (UFPA), compreender a crise ecológica exige olhar para os processos históricos de apropriação e uso dos recursos naturais. “Os povos tradicionais continuaram a ser interpretados e tratados como ‘exceções’ e em processo de extinção”, afirma. A liderança indígena Ângela Amanakwa Kaxuyana, do povo Kaxuyana e residente na Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, reforça que a luta das mulheres indígenas parte de um lugar de resistência contínua, marcado por exclusão, racismo e disputas territoriais. “A luta pelo território é fundamental, pois está interligada à necessidade de reafirmar o direito territorial e o reconhecimento do Estado para acessar direitos básicos”, explica.
Os riscos que recaem sobre essas lideranças são elevados: entre 2012 e 2022, foram registrados 765 ataques contra mulheres defensoras da Amazônia no Brasil, segundo o Instituto Igarapé, incluindo ameaças, prisões, tentativas de assassinato e 36 mortes. A vulnerabilidade dessas mulheres é agravada pela combinação entre violência de gênero, conflitos socioambientais e ausência do Estado. Somente em 2022, a Amazônia Legal registrou 12.211 casos de violência física contra mulheres — uma média de 33 por dia — além de um aumento de 34% nos índices de violência sexual em cinco anos. O feminicídio na região é 30% maior que a média nacional.
Para Jacqueline Girão, pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ativista, esses números refletem um cotidiano permeado por ameaças múltiplas. “Vivemos a vulnerabilidade diante da presença da mineração, que avança sobre os rios e os corpos das mulheres. São incontáveis os casos de estupro e de prostituição de jovens, muitas menores de idade”, relata. Em comunidades isoladas, onde o acesso a delegacias e redes de apoio é limitado, denunciar danos ambientais ou invasões significa tornar-se alvo visível de grupos ilegais. Esse cenário, associado ao patriarcado, à discriminação e à impunidade histórica, intensifica a exposição das defensoras. “Para uma mulher indígena da Amazônia, do Pará, que tem um histórico de negação de direitos, a luta é ainda mais intensa”, reforça Ângela Amanakwa Kaxuyana.
Com a COP 30, novas iniciativas buscam transformar essas demandas em políticas públicas e estratégias de proteção. Em 2025, o Ministério das Mulheres lançou o Plano de Ações Integradas Mulheres e Clima, com dez medidas para integrar gênero e justiça climática, incluindo protocolos de atenção a mulheres em emergências, ações de prevenção à violência e apoio socioeconômico em desastres ambientais. O plano prevê ainda indicadores globais que articulem gênero, raça, idade e deficiência, além da vinculação do financiamento climático a metas de cuidado e equidade. Para fortalecer a participação de mulheres e povos tradicionais na arena internacional, os ministérios das Mulheres e do Meio Ambiente, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), criaram o curso “Diplomacia Popular: Emergência Climática, Territórios e Gênero”. A proposta é ampliar o protagonismo feminino — especialmente de mulheres amazônicas — nas negociações climáticas, valorizando seus saberes e ampliando sua presença no debate global sobre o futuro da floresta.
Leia a reportagem completa:
https://revistacienciaecultura.org.br/?p=9198
Ciência & Cultura