quarta-feira, 15 de julho de 2026
Nova edição do Jornal da Ciência Especial apresenta o projeto do CIQuanta, iniciativa inédita que levará à Paraíba a primeira infraestrutura de computação quântica da América Latina. Acesse gratuitamente a edição completa e fique por dentro dos destaques na 78ª Reunião Anual da SBPC!
Quem passa perto da Estação das Artes, na ponta leste de João Pessoa, talvez note atividade no prédio há alguns anos sem utilização. O que não é necessariamente evidente é que ele está prestes a abrigar o Centro Internacional de Computação e Tecnologias Quânticas (CIQuanta), que representa uma iniciativa estratégica dos governos da Paraíba e Federal a partir de um convênio assinado em 2025. Ali, dois computadores quânticos poderão realizar cálculos de alta complexidade a serviço de pesquisa científica, formação de recursos humanos e aplicações comerciais ou industriais. “É importante em termos de soberania da nação”, afirma o físico Claudio Furtado, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
“O espaço tem todas as condições necessárias, com pé-direito alto e isolado de tráfego intenso”, diz o físico Amilcar Queiroz, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq). Ele está conduzindo o processo em parceria com colegas da UFCG, assim como da UFPB e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ali perto está a Estação Cabo Branco, um espaço destinado à ciência, à cultura e às artes. Mesmo assim, a necessidade de condições muito específicas, como temperaturas próximas ao zero absoluto (cerca de -273 graus Celsius), exige obras extensas, com entrega prevista para o final de agosto.
A iniciativa veio de Furtado, há mais de uma década intrigado com as possibilidades da computação quântica. Em 2025, ele conseguiu demonstrar ao então governador paraibano, João Azevedo, a importância estratégica de investir nessa área. Eles procuraram a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, e assim nasceu o CIQuanta, cujo investimento vem do governo da Paraíba (R$ 100 milhões) e do MCTI (R$ 60 milhões). Dessa soma, cerca de R$ 80 milhões dizem respeito à aquisição de equipamentos chineses, e o resto está sendo aplicado nas instalações e na formação de recursos humanos. É, de acordo com Furtado e Queiroz, a primeira infraestrutura do tipo na América Latina. Atualmente, os pesquisadores brasileiros que fazem uso de computação quântica têm acesso a computadores apenas remotamente, por meio da nuvem.
Os dois computadores adquiridos, com capacidade respectiva de 20 e 100 bits quânticos (qubits), foram produzidos e estão sendo testados no Centro Quântico de Suzhou, na China. O aspecto importante da parceria foi a proposta de transferência de tecnologia: o treinamento da equipe da Paraíba, neste mês de julho, envolve a desmontagem das máquinas, o aprendizado a respeito de todos os componentes e o acondicionamento para envio ao Brasil.
Ao chegarem a João Pessoa, os equipamentos serão montados pelos brasileiros. A ideia é chegar ao nível técnico que permita o desenvolvimento de novos computadores, ainda mais potentes, quem sabe até 500 qubits. “As patentes a serem desenvolvidas no âmbito da cooperação, tanto na China quanto aqui, serão compartilhadas”, explica Queiroz.
Segundo ele, serão três eixos de atuação. O primeiro, de pesquisa, permitirá o desenvolvimento de hardware e software quântico, assim como cálculos e análises de grandes conjuntos de dados – climáticos ou astronômicos, por exemplo. Qualquer instituição de pesquisa científica poderá se associar para o uso do espaço, que não será afiliado a uma universidade específica. O segundo envolverá capacitação a vários níveis, desde o Ensino Médio até profissionais do mercado e da indústria. “Trabalhando com pesquisadores, esses profissionais poderão entender o que é possível fazer usando computação quântica, e com isso propor parcerias a serem desenvolvidas em conjunto.” No terceiro eixo, de inovação, empresas de logística, bancos e outras instituições poderão enviar equipes para trabalhar no laboratório e interagir com os pesquisadores em busca de solucionar problemas.
“É muito bom que haja no Nordeste uma iniciativa desse tipo, que contribui para reduzir as desigualdades regionais em ciência e inovação, por meio do desenvolvimento de um tema importante no cenário internacional”, ressalta o físico Luiz Davidovich, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele complementa que há, atualmente, vários tipos de computadores quânticos e que será interessante explorar o desenvolvimento de novas tecnologias. Ele lembra que deve ser incentivada a interação desse projeto com os INCTs (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia) relacionados às tecnologias quânticas, o que ajudaria a aumentar o protagonismo do País nessa área.
Enquanto as obras físicas avançam, também se delineia a governança do futuro centro. Estão lançando um edital para a seleção de pesquisadores para receber 22 bolsas no âmbito do Programa de Apoio à Fixação de Doutores (Profix), com fundos da Fapesq, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). No espírito de prestar um serviço à população, Furtado conta que haverá uma maquete em tamanho real para que os visitantes possam entender como são os computadores. Os reais, funcionando em condições extremas, serão inacessíveis ao público. A exposição terá informações sobre a história da computação quântica, os tipos de chips e a contribuição de pesquisadores brasileiros. “Queremos que os jovens se inspirem a seguir essa área da ciência”, diz Furtado.
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Esta reportagem faz parte da nova edição do Jornal da Ciência Especial, que reúne reportagens e artigos sobre temas que estarão em debate na 78ª Reunião Anual da SBPC e refletem sobre os caminhos para construir um Brasil mais próspero, inclusivo e diverso. A publicação está disponível para download gratuito neste link.
Maria Guimarães – Jornal da Ciência