sexta-feira, 30 de maio de 2025
Quatro cientistas trataram do tema na segunda mesa do seminário “Vozes da Ciência”, com foco em desafios e estratégias para melhorar a pesquisa e gestão da biodiversidade, em parceria e respeito aos povos tradicionais
A visão dos povos tradicionais como objeto de pesquisa científica está ficando para trás. Movidos pela necessidade de encontrar saídas para a crise climática, cientistas brasileiros têm se aproximado dos povos tradicionais em busca da fonte originária do conhecimento, atestando que a contribuição deles para a ciência é antiga e imprescindível.
Este foi o tema da Mesa 2 do seminário “Vozes da Ciência” promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Intitulada “Pesquisa Aplicada e Saberes Tradicionais”, a mesa reuniu três cientistas que apresentaram suas experiências e estudos sobre a contribuição dos povos tradicionais não só ao conhecimento, mas à prática científica.
Mediada pela física Márcia Barbosa, reitora e professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a mesa contou com a participação das biólogas Mercedes Bustamante, professora titular da Universidade de Brasília (UnB); Patrícia Muniz de Medeiros, professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e Marlucia Martins, professora orientadora do programa de Zoologia MPEG da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Na abertura, Marcia Barbosa contou que, em uma busca no acervo de artigos científicos da instituição por trabalhos que tivessem como foco os saberes tradicionais, descobriu que eles representam apenas 1,5% das pesquisas. Ampliando o escopo da pesquisa com o termo “sustentabilidade e justiça socioambiental”, a participação subia para menos de 9%.
Mercedes Bustamante apresentou uma série de relatórios e documentos recentes sobre o estado da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos no Brasil, destacando a riqueza do país em sociodiversidade associada a comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos, coletores e outros e seu potencial para desenvolvimento sustentável.
Bustamante enfatizou a necessidade de ampliar a pesquisa aplicada, integração de saberes tradicionais e científicos. “Olhando os grupos de pesquisa do CNPq em um dos biomas brasileiros, que é o caso da Mata Atlântica, a gente vê uma menor representação de grupos de pesquisa com essa temática nos outros biomas brasileiros”, relatou.
A etnobióloga Patrícia Muniz de Medeiros disse que há um senso comum equivocado de que as comunidades tradicionais guardam um conhecimento estático há séculos. “E isso está muito longe da verdade, porque o conhecimento tradicional é dinâmico e adaptativo, o que significa que muda muitas vezes em resposta às pressões ambientais e culturais.”
Coordenadoras do laboratório de Ecologia, Conservação e Evolução Biocultural, Medeiros afirmou que, na verdade, o conhecimento tradicional vem contribuindo com a ciência ocidental há muito tempo e exemplos não faltam: medicamentos, cosméticos e perfumaria industriais; bioconstrução e produtos agroflorestais – todos produzidos a partir da observação do comportamento das comunidades tradicionais.
A bióloga Marlucia Martins, especialista em conservação e pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), apresentou o projeto Mosaico Gurupi, que ela coordena em equipe com antropólogos ligados à instituição e a participação das comunidades que vivem na região da Reserva Biológica (Rebio) Gurupi, no Maranhão, próximo à divisa com o Pará.
Situado em uma área de 46,4 mil km2, o Mosaico Gurupi inclui seis Terras Indígenas (povos Tembé, Awá-Guajá, Guajajara e Ka’apor) na maior área de Floresta Amazônica do Maranhão, abrigo de 46 espécies de fauna e flora endêmicas e ameaçadas de extinção, entre elas, a onça-pintada.
O projeto foi iniciado há cerca de dez anos com o objetivo de conter a devastação ambiental na região por atividades de pecuária e madeireira. Martins destacou a participação dos Guajajara que, mesmo sem recursos ou projetos, apenas com técnicas próprias de manejo de controle de fogo, conseguiram restaurar grande parte das áreas de preservação. A motivação foi, segundo ela, principalmente cultural.
“Por que eles restauraram? Porque eles não tinham mais recursos para fazer seus próprios ritos, suas próprias festas e tinham que buscar nas terras indígenas vizinhas”.
Martins definiu o projeto como “aprendizado” dos pesquisadores com as populações tradicionais e indígenas locais, e não o contrário. E defendeu que sejam respeitados os direitos dos indígenas, não apenas os fundamentais, mas também os autorais.
“Não é só eles terem acesso ao nosso sistema de ciência para também se qualificarem e se beneficiarem e poderem fazer essa conjugação de sabedorias, mas também eles terem a sua inteligência tecnológica e a sua ciência, como eles mesmo dizem, reconhecidas nos direitos autorais das contribuições que eles fazem ao avanço do conhecimento sobre a Amazônia, sobre o manejo de território e tudo mais”, afirmou. Para Martins, a ciência deve considerar que os povos tradicionais não são objetos de estudo, mas sim parceiros.
Acesse o conteúdo integral da Mesa 2: “Pesquisa Aplicada e Saberes Tradicionais” neste link. O seminário Vozes da Ciência foi realizado entre os dias 22 e 23 de maio e todo o conteúdo discutido nas mesas está disponível na íntegra e gratuitamente no canal da SBPC no Youtube.
Janes Rocha – Jornal da Ciência