segunda-feira, 11 de maio de 2026
Diretora da SBPC e professora-titular da Ufam é agraciada com o título de Pesquisadora Emérita. A cientista destaca-se como uma das principais intelectuais do pensamento social amazônico, articulando ciência, cultura e saberes tradicionais em suas pesquisas
Marilene Corrêa, professora-titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e coordenadora do Laboratório de Estudos Interdisciplinares das Ciências Sociais na Amazônia do Programa de Pós-graduação Sociedade e Cultura na Amazônia-PGSCA, foi agraciada com o título de Pesquisadora Emérita – Edição 2026 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A cerimônia aconteceu no dia 7 de maio no Rio de Janeiro.
Reconhecida como uma das principais intelectuais do pensamento social amazônico, Marilene Corrêa desenvolve pesquisas que articulam ciência, cultura e saberes tradicionais.
A distinção é concedida desde 2005 a pesquisadores brasileiros ou estrangeiros, radicados no Brasil há pelo menos 10 anos, como reconhecimento às inestimáveis contribuições à Ciência no País.
Para a pesquisadora, a homenagem simboliza a consolidação de uma trajetória dedicada à compreensão crítica da região. “Representa recompensa pela escolha de vida e de foco, pelo qual tenho me empenhado em compreender e explicar criticamente a Amazônia e suas relações com o Brasil. Representa um incentivo aos novos pesquisadores e trabalhadores da ciência na região Norte e nas universidades da Amazônia, especialmente na Ufam, onde trabalhei durante 43 anos no ensino de graduação e na pesquisa, no Departamento de Ciências Sociais. Mesmo aposentada, ainda trabalho em Programas de pós-graduação”, declarou.
Corrêa destacou ainda a importância de enfrentar as desigualdades regionais na produção científica brasileira. Segundo ela, o título reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à redução das assimetrias entre as regiões do País.
A pesquisadora emérita do CNPq também ressaltou o protagonismo feminino entre os homenageados. “A predominância de mulheres evidencia não apenas o reconhecimento da produção científica feminina, mas também a importância do trabalho das pesquisadoras para a construção de uma ciência mais equitativa, solidária e comprometida com grupos socialmente vulnerabilizados. A maioria das premiadas é mulher, tem carreira científica plena em institutos e universidades, em seus campos de conhecimento, e seus estudos beneficiam as maiorias e não a si próprias. Por isso, é importante denunciar e identificar constrangimentos em que a política científica desfavorece as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Independentemente de fomento, bolsas de produtividade, etc., as mulheres não desistem da pesquisa em pequenos ou grandes projetos, continuam a produzir conhecimento, diretamente em pesquisas e publicações, a conduzir estudos inovadores pela orientação de novos mestres, doutores e pós-doutores. Quando se atinge esse nível, que depende de muito trabalho, a opinião científica passa a ser valorizada em níveis de decisão cada vez mais complexos, imprescindíveis às políticas científicas nacionais e em suas formas de realização locais”, comentou.
Ela ainda defendeu o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento científico nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. “Dar visibilidade aos problemas de desigualdade institucional e intervir para a fluidez e ampliação do direito à ciência para todos e em todos os territórios físicos e simbólicos é de importância vital. Vendo por este prisma, a compreensão crítica sobre a Amazônia e sua posição desigual no cenário científico é uma luta a ser encampada por gerações presentes e futuras e por todas as sociedades científicas brasileiras”.
Premiada por suas pesquisas sociais sobre a Amazônia, Marilene Corrêa afirmou que a região pode se tornar um grande laboratório científico para o Brasil em diferentes áreas do conhecimento, incluindo ciências sociais, políticas e estratégicas. “Aliás, sob diferentes pontos de vista, há possibilidade de gerar essa convergência de opiniões científicas sobre a importância da região para o futuro do Brasil. Nossa posição de fronteiras internacionais com países da Panamazônia, e a defesa de interesses sobre recursos naturais, terras raras, bacias hidrográficas, por exemplo, para os quais a soberania brasileira é imprescindível, abrem leques de possibilidades de construção de agendas em torno dos sistemas naturais e socioculturais diversos e complexos. Água, floresta, minerais estratégicos, têm diferentes sentidos quando se defende um país soberano, autônomo no seu projeto nacional de futuro, com foco no benefício das maiorias populacionais e de proteção aos povos e conhecimentos originários e tradicionais. Essas preocupações estratégicas interagem com agendas científicas de todos os campos de conhecimento e com políticas públicas eficientes. O resultado dessas interações é o empoderamento de populações que sempre estiveram às margens das políticas nacionais. Sistemas inovadores de governança, gestão pública, energias renováveis, bioeconomia, escolhas de focos de pesquisa e inovação para busca de soluções embasadas na natureza, e associadas à experiência de preservação de biomas e ecossistemas frágeis, são estratégicos e fundamentais para novas agendas de organização de prioridades científicas. A ciência reconhece o lugar dos conhecimentos tradicionais e de formas de adaptabilidade dos povos originários nessa possibilidade de reconfiguração de políticas científicas regionais e nacionais”.
Marilene Corrêa da Silva Freitas nasceu em 19 de agosto de 1950, na cidade de Carauari, no estado do Amazonas. Formou-se em Serviço Social pela Universidade Federal do Amazonas em 1975, concluiu o mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1989 e obteve o doutorado na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas em 1997. Realizou ainda pós-doutorado na Université de Caen e na Unesco entre 2001 e 2002, além de um novo pós-doutoramento na Université Gustave Eiffel no período de 2021 a 2022.
Sua trajetória também se destaca por uma intensa atuação política, tanto no meio acadêmico quanto fora dele. Foi presidente da Associação Francofone Internacional de Pesquisa Científica em Educação Secção Brasileira (AFIRSE – seção brasileira), entre 2007 e 2011; secretária de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas de 2003 a 2007 e reitora da Universidade do Estado do Amazonas entre maio de 2007 e março de 2010.
Além disso, integrou o Conselho Nacional do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) no período de 2009 a 2011, foi membro por notório saber do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, participa do Conselho Superior da Fundação Oswaldo Cruz e do Conselho Editorial do Jornal Ciência Hoje, publicação da SBPC, desde janeiro de 2013. Também foi membro eleita do Conselho da SBPC, na Área A da Região Norte, nos períodos de 2011 a 2015 e de 2021 a 2023.
Possui experiência na área de Sociologia e em estudos interdisciplinares, com ênfase em Sociologia Clássica e Contemporânea. Sua atuação concentra-se principalmente nos temas Amazônia, pensamento social, políticas públicas, política científica, teoria sociológica e desenvolvimento socioeconômico. Foi ainda coordenadora do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia entre setembro de 2012 e outubro de 2016.
Atualmente Marilene Corrêa é membro da Diretoria da SBPC 2025-2027 e integra o Conselho de Desenvolvimento Social e Sustentável da Presidência da República desde 2024.
Além de Marilene Corrêa, receberam o título: Zelinda Leão por pesquisas sobre conservação de corais; Aldina Barral por pesquisas na área de parasitologia; Álvaro Prata recebe título de Pesquisador Emérito do CNPq por pesquisas sobre mecânica de fluidos; Margarida Aguiar-Perecin recebe título por estudos de melhoramento de plantas; e Sílvio Salinas recebe título por pesquisas em física estatística.
Vivian Costa – Jornal da Ciência