domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Amazônia

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Cientistas da Amazônia entregam contribuições estratégicas à presidência da COP30

Embaixador André Corrêa do Lago, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva (Janja) e a ministra de CT&I, Luciana Santos, receberam documento durante o encerramento do Encontro da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia

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Foto: Adriano Henrique\Ascom\SGPR

A comunidade científica e tecnológica da Amazônia entregou ao embaixador André Corrêa do Lago, presidente da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), um documento com propostas estratégicas para a implementação de políticas ambientais atreladas aos povos e conhecimentos da região.

O documento se baseia na própria Agenda de Ação elaborada pela presidência da COP30 e considera também a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil no período de 2025 a 2035, alinhando suas ações a políticas públicas estruturantes, como o Plano de Transformação Ecológica, o Plano Clima e a Nova Indústria Brasil.

“Esta agenda nasceu por meio do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, também conhecido como Conselhão do Governo Lula”, explica a diretora da SBPC e membro do Conselhão representando a região amazônica, Marilene Corrêa. “O objetivo era expressar para o presidente da COP30. André Corrêa do Lago, o desconforto das instituições científicas da Amazônia por não terem sido chamadas ou consultadas na construção da agenda da COP30.”

O documento foi elaborado em dois meses por mais de 70 instituições de ensino e pesquisa, em um esforço coletivo considerado um verdadeiro “mutirão científico”. Ele sintetiza as contribuições da região para os 30 objetivos da Agenda de Ação da COP30, estruturada em seis eixos prioritários: Transição energética, industrial e de transporte; Gestão de florestas, oceanos e biodiversidade; Transformação da agricultura e sistemas alimentares; Resiliência em cidades, infraestrutura e água; Desenvolvimento humano e social; e Financiamento, inovação e governança.

“É uma agenda de pesquisa que se desdobra a partir das prioridades da COP30, passando por temas como a justiça ambiental, a adaptabilidade climática e a compensação climática. No caso do olhar sobre a Amazônia, também entraram mais temas como energia e biodiversidade”, detalha Corrêa.

Como o próprio documento pontua, foram mapeadas tecnologias, soluções e pesquisas geradas pelas instituições amazônicas, já disponíveis para implementação. Muitas delas foram elaboradas em colaboração com comunidades locais, setores produtivos e a sociedade civil, buscando atender problemas concretos e explorando oportunidades específicas dos territórios. “Este conhecimento representa um ativo singular e estratégico do Brasil para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, justifica o relatório.

Na carta, as instituições destacam a relevância e a valorização da ciência desenvolvida na região, além de alertarem para o fato de que o financiamento destinado às iniciativas de pesquisa em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) ainda é insuficiente e necessita ser ampliado.

A entrega do documento ocorreu no encerramento do Encontro da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia, realizado no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus, nos dias 19 e 20 de agosto. O evento contou com a presença de autoridades do Governo Federal, como a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos; a primeira-dama e enviada especial para Mulheres da COP, Rosângela Lula da Silva (Janja); e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo.

“Foi uma programação com 405 instituições representadas, entre universidades, unidades de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), instituições de pesquisa gerais, movimentos sociais, e organizações do terceiro setor. Houve uma presença massiva, digamos assim, das instituições que formam, fazem Ciência, usam Ciência e fazem uso do conhecimento para lidar com o enfrentamento da crise climática ali na Amazônia”, ressalta a presidente da SBPC, Francilene Garcia.

Participação colaborativa

Entre os participantes e colaboradores do documento estiveram instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Museu Paraense Emílio Goeldi, além da Embrapa, Fiocruz, Instituto Evandro Chagas, e institutos federais. A iniciativa foi coordenada pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) e pela Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência da República.

Henrique Pereira, diretor do Inpa, afirma que o relatório entregue reúne soluções concretas para os desafios climáticos. Um exemplo é a recuperação de 12 milhões de hectares no País e o controle do desmatamento da Amazônia até 2030. “Isso é um fundamento para pensarmos sistemas agroalimentares resilientes, uma necessidade presente para garantir a segurança e soberania alimentar da Amazônia no futuro do clima planetário”, explica ele, que contribuiu ativamente na produção do documento.

Outras colaborações importantes do Inpa para essa agenda da política climática brasileira, destacadas pelo diretor, são tecnologias para a recuperação de áreas degradadas e para a restauração ecológica de projetos, além de conhecimentos acumulados sobre a silvicultura de espécies nativas. “Isso é essencial para nós pensarmos na recuperação e restauração ecológica. Também em pesquisas sobre a agrobiodiversidade da Amazônia, desde a conservação desses recursos genéticos até o seu aproveitamento com a biotecnologia.”

Pereira destaca que a Amazônia abriga uma comunidade científica ativa, com plena capacidade de gerar conhecimento crítico sobre os desafios ambientais. “É essa academia que nos proporciona uma compreensão aprofundada do papel da Amazônia nos contextos nacional e global, revelando que as causas mais profundas das crises ambientais estão enraizadas no atual modelo de desenvolvimento. Enquanto enfrentamos as contradições desse modelo, também nos empenhamos em construir soluções por meio da ciência e da tecnologia. No entanto, é importante reconhecer que essas soluções, em muitos casos, apenas arranham a superfície do problema, atuando mais sobre os sintomas do que sobre as causas.”

O diretor enfatiza ainda que o encontro transmite uma mensagem poderosa: “Nunca fomos um vazio de conhecimento, muito menos um vazio científico. A Amazônia é rica em ciência e em cientistas.” Segundo ele, toda essa articulação representa o fortalecimento do ecossistema científico da região e sua contribuição decisiva para o desenvolvimento sustentável do País.

A diretora de Inovação da Embrapa, Ana Euler, complementa que a instituição também teve papel ativo na elaboração do relatório, destacando pesquisas em bioeconomia, manejo florestal sustentável, restauração, inclusão digital e sociopolítica.

Para ela, o objetivo do documento é deixar um legado não só para a Amazônia, mas para todo o Brasil, construído a partir de uma ampla rede de cooperação nacional e internacional, com protagonismo das populações locais. “É um momento extremamente importante, onde selamos o nosso compromisso com a agenda de ação; e a mensagem final é que a COP já começou e que a gente quer deixar um legado não só para a Amazônia, como para o Brasil, construído dentro de uma grande rede de cooperação nacional e internacional, e, no caso da Amazônia, com protagonismo das populações locais e das instituições de ciência e tecnologia que aqui estão”, declara.

No encontro, Euler defendeu que a produção científica esteja conectada às políticas públicas e às demandas reais da população. Para ela, a ciência deve caminhar lado a lado com os cidadãos e suas necessidades de inovação tecnológica e inovação social.

A pesquisadora também ressalta a importância de fortalecer redes colaborativas e conectar saberes acadêmicos com os conhecimentos ancestrais da região. “A gente tem que fortalecer as redes colaborativas, sociotécnicas e territoriais, nos conectar com os centros de saberes que estão aí, para ter capacidade de diálogo entre a ciência que está nas universidades com a ciência que está nesse campo magnífico que é a Amazônia, com mais de 12 mil anos de histórias de ancestralidade e de pessoas trabalhando aqui.”

Everton Rabelo Cordeiro, chefe-geral da Embrapa Amazônia Ocidental, explica que durante a seleção de informações que foram levadas para o documento, permitiu trabalhar com antecedência os dados que seriam incluídos, possibilitando que as diferentes áreas da Embrapa se reunissem e direcionassem seus esforços conforme suas vocações e competências. “Realizamos duas reuniões virtuais para alinhar esse trabalho e, com base nas tecnologias que a Embrapa já havia disponibilizado ou que estavam em fase de pesquisa, conseguimos identificar as contribuições mais relevantes a serem propostas. Esse processo também facilitou a redescoberta e a valorização dessas tecnologias, algo que já vínhamos fazendo ao longo do último ano, desde que a Embrapa passou a direcionar esforços especificamente para a preparação da COP”.

Com base no que foi apresentado, Cordeiro reforça que a região hoje dispõe de uma variedade de produtos e oportunidades desenvolvidos especificamente para suas características e necessidades. “Se essas iniciativas forem de fato implementadas, podem transformar significativamente — e para melhor — a realidade local. Esse é justamente o objetivo da COP: uma COP realizada na Amazônia, mas com impacto positivo para o Brasil e para o mundo.”

Presente na programação, a presidente da SBPC, Francilene Garcia, ressalta a importância deste movimento das instituições da Amazônia.

“A presença da SBPC nestas agendas preparatórias da COP 30, iniciando com as instituições da Amazônia, reforça a importância da escuta no território, não apenas como um espaço a ser protegido, mas como sujeito político e científico central na luta contra a crise climática. A Ciência produzida na região, em diálogo com os saberes tradicionais, constitui um ativo estratégico do Brasil e do mundo para garantir clima estável, biodiversidade preservada e vida digna para seus povos. Justiça climática é também justiça social: não basta manter a floresta em pé se sua população não tiver acesso a saúde, educação, cultura e trabalho sustentável. A SBPC se soma a este esforço coletivo para que a COP 30 seja marcada pela força da ciência, pelo protagonismo da Amazônia e dos demais biomas brasileiros, e pelo compromisso de transformar compromissos em ações concretas”, conclui.

Confira aqui o conteúdo integral da Carta entregue por representantes das comunidades acadêmica, científica e tecnológica da região.

Rafael Revadam e Vivian Costa – Jornal da Ciência