domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Notícias da SBPC

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Ciência tem papel essencial no combate às desigualdades, a fome e a miséria

Cientistas apontaram políticas públicas de saúde e educação como fundamentais para avançar em qualidade de vida da população brasileira e preparar a sociedade para os desafios das mudanças climáticas na sexta mesa do seminário “Vozes da Ciência”

Mesa 6

A ideia central da mesa de debates “Ciência para combater as desigualdades, a fome e a miséria” foi que, nas últimas três décadas, o Brasil registrou grandes avanços no combate a estes flagelos. No entanto, ainda há muito o que fazer e a ciência tem papel preponderante nessa tarefa. A mesa integrou o seminário virtual Vozes da Ciência, promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Realizada na manhã de sexta-feira (23/5), a mesa reuniu três cientistas sociais: o presidente da SBPC, Renato Janine Ribeiro e ex-ministro da Educação; o economista Carlos Gadelha, professor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) e ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (MS); o médico e professor Reinaldo Guimarães, executivo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). A mediação foi do pesquisador da Fiocruz, Samuel Goldenberg.

Goldenberg iniciou a apresentação chamando a atenção para a notícia recente da premiação da engenheira agrônoma Mariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa, com o World Food Prize, uma espécie de Nobel da agricultura mundial. “É uma comprovação da importância da pesquisa e de instituições como a Embrapa para o desenvolvimento de insumos para mitigar o problema da fome”, comentou o mediador.

Em sua exposição, Reinaldo Guimarães buscou separar o que é papel da Ciência, Tecnologia & Inovação (CT&I) do que é responsabilidade do Estado e das políticas públicas. “Acho que o enfrentamento da pobreza, desigualdades, fome e miséria depende em boa parte de políticas sociais sólidas, inteligentes e duradoras, dentre elas, eu cito a política educacional como a mais importante”, afirmou.

Guimarães ressaltou que a contribuição da CT&I deve ser um tema de Estado, seja na proposição e gestão de uma política de pesquisa científica e tecnológica, seja em sua execução. Ele enfatizou a área de saúde, em especial o Sistema Único de Saúde (SUS) como o principal provedor, hoje, de apoio financeiro para pesquisa científica e tecnológica, por meio do Ministério da Saúde e das agências federais e estaduais de fomento (Capes, CNPq, FAPs).

Encerrando sua fala, o executivo da Abrasco criticou a degradação da infraestrutura de pesquisa, em particular os cortes orçamentários das universidades federais, e a necessidade de mais investimentos em infraestrutura de pesquisa.

A área de saúde também foi o foco da análise de Carlos Gadelha, acrescentando a educação, o ambiente econômico e social e qualidade de vida como objetivos da pesquisa científica, concordando com Guimarães sobre a importância de políticas de Estado em todos estes campos.

Estudioso e um dos principais formuladores do Complexo Econômico e Industrial da Saúde (CEIS), Gadelha esclareceu que a agenda de CT&I tem que partir das demandas da sociedade para o bem-estar e que, dentro desse campo, as estratégias para enfrentar doenças como dengue, malária e câncer devem levar em conta que são problemas que afetam mais os mais vulneráveis socialmente. Ele chamou a atenção para a necessidade de preparação para as próximas emergências sanitárias, pandemias e efeitos crise climática.

“A gente tem que pensar como nos preparamos para as emergências sanitárias, as pandemias e para os grandes agravos e problemas que nós temos”, afirmou. E completou: “A gente tem que avançar por uma agenda que enfrente os problemas e que não seja apenas uma agenda tecnológica, disciplinar, setorial. Isto é bonito de dizer, mas é difícil de fazer e é o que a gente tem que avançar.”

Renato Janine Ribeiro encerrou a fase de exposições da mesa retomando indicadores de melhorias sociais no país, especialmente a partir de 2003. Para Ribeiro, os desafios do combate às desigualdades mudaram muito neste século e, embora tenha havido melhorias nas condições sociais devido a políticas públicas direcionadas, os desafios atuais se mesclam com o cenário político e ideológico no qual a desigualdade passou a ser considerada “aceitável”.

“As sociedades ditas socialdemocratas da Europa Ocidental e do Canadá chegaram ao nível de justiça social, que é o delas hoje, justamente distribuindo pela população uma educação de qualidade, uma saúde de qualidade, transporte público bom, tudo isso que nos faz falta ainda, apesar de termos avançado muito com o SUS e também com as políticas educacionais no começo do século XXI. Mas muito falta ainda para ser desenvolvido e os cientistas têm muito a fazer”, analisou Ribeiro.

Acesse o conteúdo integral da Mesa 6: “Ciência para combater as desigualdades, a fome e a miséria” neste link.

O seminário Vozes da Ciência foi realizado entre os dias 22 e 23 de maio e todo o conteúdo discutido nas mesas está disponível na íntegra e gratuitamente no canal da SBPC no Youtube.

Janes Rocha – Jornal da Ciência