domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
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terça-feira, 1 de julho de 2014

Ciência a favor das investigações policiais

Pesquisadores da UnB desenvolvem marcadores visuais luminescentes que ajudam na reconstituição dos crimes

Brasília, madrugada do dia 18 de abril. Começa o feriado de Corpus Christi e, com ele, uma onda de crimes. À uma hora da manhã um morador é baleado na cidade satélite de Ceilândia, que fica a 40 quilômetros do centro da Capital Federal; a arma do crime foi deixada para trás. A partir daí dá-se início à investigação policial, à procura por digital, rastros de pólvora, autor e motivação do crime, entre outros.

Casos de latrocínio (roubo à mão armada) com vítimas são comuns no cotidiano da cidade, e o trabalho dos peritos também. Como forma de ajudar e agilizar esta perícia policial em investigações de crimes com arma de fogo, o departamento de Química da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveu uma técnica que pode facilitar a identificação de suspeitos. Trata-se de marcadores visuais luminescentes misturados às balas que, quando expostos à luz ultravioleta, marcam o atirador e a cena do crime, possibilitando a reconstituição dos fatos.

De acordo com a coordenadora do projeto de Desenvolvimento de Marcadores de Resíduos de Tiros e Codificações de Munições da UnB, Ingrid Weber, quando é feito um disparo, vários resíduos são espalhados no ambiente, que trazem informações químicas importantes para a investigação policial. No entanto, ressalta a pesquisadora, a coleta desses materiais não é fácil, uma vez que eles não são visíveis e podem se perder com facilidade.

“Hoje a polícia realiza uma coleta cega, pois não se sabe o local onde eles foram parar. Com a introdução dos marcadores, poderá se ver a presença desses resíduos, o que facilitará o trabalho e dará mais informações sobre o crime, que hoje não são possíveis”, observa.

A caracterização é uma evidência para imputar a responsabilidade e atribuir punições no âmbito forense, uma vez que os resíduos de tiro são usados na perícia para determinar se uma pessoa deu um tiro ou se estava no local do disparo. O sistema usa materiais luminescentes misturados à munição, que, expostos à luz ultravioleta, marcam o atirador e a cena do crime, facilitando o trabalho dos peritos.

Os testes com os marcadores apresentam índices de certeza próximos a 100%. Os marcadores serão colocados no ato da montagem da munição. Assim, ao prover um tiro, mãos, armas e o local do crime poderão ser visualizados a olho nu. Outro diferencial dos marcadores é deixar as munições livres de chumbo, que são tóxicas e fazem mal à saúde dos profissionais que trabalham na perícia. Outra possibilidade oferecida pelo projeto é de se fazer a marcação seletiva das munições.

“A ideia seria que cada policial usasse bala com marcador de uma cor, funcionando como uma espécie de legenda para identificar as munições usadas”, esclarece Weber.

O preço é outra vantagem do método de marcadores visuais. A coordenadora do projeto explica que, misturados à pólvora na indústria, a técnica não exige mudanças na linha de produção e custariam, para o fabricante, US$ 0,2, (dois centavos de dólar) em média, segundo cálculo realizado em cima da 1a geração de marcadores.

“A inclusão dos marcadores, além de facilitar a identificação de vestígios, barateia oprocesso para a polícia porque só precisa de luz ultravioleta para funcionar”, resume.

Segundo a assessoria de comunicação da Polícia Federal, os marcadores estão sendo testados na prática e em simulações para verificar a eficácia dessa nova tecnologia. Por enquanto, a principal aplicação na área criminal desses marcadores mostrou que a mão fica cheia de resíduos, o que já ajuda na elucidação de um crime.

Outras alternativas – Existem estudos com reagentes que revelam a presença de chumbo, bário e antimônio, componentes de bala. Mas, segundo Weber, esses sistemas têm grande percentual de falsos negativos. Também há outra técnica adotada em investigações mais sofisticadas, como as da polícia de Scotland Yard (da Inglaterra) e FBI (Departamento de Investigação Federal dos EUA). Nela, um microscópio eletrônico vasculha partículas em busca dessas mesmas substâncias.

Mas, mesmo assim, a eficácia é baixa. “Um artigo da Polícia de Detroit diz que deram 150 tiros, para encontrar vestígios de apenas cinco”. Ele acrescenta que a demora da análise e os preços dos microscópios eletrônicos inviabilizam sua aplicação em larga escala.

Legislação - No Brasil, não há lei que regulamente a marcação de munições. Há um projeto no Congresso Nacional que quer tornar obrigatória a marcação. Este projeto não define a forma, mas a necessidade de ter meios para identificar e rastrear as munições e os resíduos por elas gerados.

Camila Cotta, Jornal da Ciência nº 757, 25/04/2014