domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Notícias da SBPC

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Brasil será um dos países mais afetados pelas mudanças climáticas

Na quinta mesa do seminário ‘Vozes da Ciência’, especialistas denunciaram falta de urgência na construção de políticas ambientais no País

Mesa 5.1

Apesar das mudanças climáticas estarem cada vez mais presentes e trazendo impactos negativos ao território brasileiro, a estrutura política nacional ainda não está respondendo à questão com a devida urgência e importância. Este foi um dos maiores diagnósticos apresentados durante o evento “Vozes da Ciência”, uma realização da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e da ABC (Academia Brasileira de Ciências).

Para se aprofundar na questão, o evento, realizado entre os dias 22 e 23 de maio, realizou a mesa-redonda “Mudanças Climáticas, Meio Ambiente e Desenvolvimento Nacional”. A atividade contou com a participação de Paulo Artaxo, vice-presidente da SBPC; Marina Hirota, professora assistente de meteorologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Antonio Miguel Vieira Monteiro, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); além da mediação de Luiz Davidovich, professor titular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ex-presidente da ABC.

“Os temas básicos que estão sendo propostos para este encontro são a governança ambiental baseada em evidências, a integração da Ciência, Tecnologia e Inovação às políticas de resiliência ecológica e o apoio à pesquisa em regiões vulneráveis. O Brasil precisa muito disso, e de projetos de longo prazo, projetos estruturantes”, pontuou Davidovich, na abertura.

Iniciando as falas, o pvice-presidente da SBPC, Paulo Artaxo, defendeu que falta ao Brasil, principalmente na figura de seus governantes, o entendimento do impacto das mudanças climáticas. “O Brasil é um dos países mais vulneráveis no nosso planeta às mudanças climáticas, por uma série de razões. A primeira delas é porque muito da nossa economia depende do agronegócio, e o agronegócio depende essencialmente do clima, da chuva e da temperatura. O segundo ponto é a nossa dependência estratégica na geração de energia, porque 60% da nossa energia depende da chuva através da energia hidrelétrica. Ou seja, somos dependentes de uma estrutura natural.”

Para Artaxo, o Brasil tem oportunidades únicas de atuação no mundo, como ser uma potência global na redução de emissões de gases e no controle do desmatamento em biomas. Há, ainda, uma terceira frente de potencial econômico que é a geração de energia eólica e solar. “E temos também um enorme potencial de geração de renda através do mercado de carbono”, complementou.

O vice-presidente da SBPC também apontou a vulnerabilidade do Brasil ser um país cuja economia primária é baseada no agronegócio, um modelo que pode não ser mais viável pelos próximos anos por conta da queda de precipitação e da queda de safras, algo que já vem ocorrendo desde 2023. “A gente vai ter que estruturar o futuro do nosso país com uma menor dependência do agronegócio. E isto tem que ser pensado desde agora.”

Professora da UFSC, Marina Hirota abordou em sua fala o impacto do desmatamento e das mudanças climáticas no ciclo da água. “Em alguns lugares da Amazônia, a gente vai ter uma diminuição da evapotranspiração e uma mudança nos padrões da chuva e escoamento. Esse escoamento vai diretamente para os rios, e esses rios vão aumentar a vazão, eventualmente, porque as árvores não vão mais bombear essa água para cima. Isso significa um efeito cascata em diferentes elementos desse sistema, que vão desencadear efeitos ainda maiores do que o das mudanças climáticas nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões da América do Sul”, alertou.

Diretor do INPE, Antonio Miguel Vieira Monteiro usou sua fala para defender como instrumentos de observação da terra e de análise de grandes bases de dados podem ajudar na elaboração das políticas ambientais. Em sua fala, Monteiro afirmou que existe uma carência no Brasil de novos indicadores econômicos e sociais que olhem para as necessidades específicas de cada bioma.

“Novos indicadores econômicos são necessários porque ou os indicadores padrão contêm problemas e precisam ser alterados, ou a gente vai ter que escolher salvar o indicador ou salvar a floresta e as pessoas que vivem nela. Quer dizer, as métricas de desenvolvimento econômico são muito complicadas quando aplicadas a um bioma sensível, como, por exemplo, o bioma amazônico. Então, a gente precisa fazer uma escolha entre preservar esses indicadores ou trabalhar com as possibilidades que a economia da floresta nos apresenta.”

Além de criticar a visão econômica predominante nas políticas de preservação e combate às mudanças climáticas, Monteiro também criticou o tempo de resposta que o Brasil tem perante as ameaças globais. “A gente está numa situação de emergência climática ambiental, e essa situação determina urgências.”

O debate “Mudanças Climáticas, Meio Ambiente e Desenvolvimento Nacional” está disponível na íntegra no canal da SBPC no YouTube.

Rafael Revadam – Jornal da Ciência