quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Artigo de Vanderlan Bolzani, professora do IQAr/Unesp, presidente da Aciesp e conselheira da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
“Bioeconomia: diversidade e riqueza para o desenvolvimento sustentável” foi o tema escolhido este ano para a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). O momento é muito oportuno para a difusão dessa ideia e espera-se a realização em todo o País de alguns milhares de iniciativas pontuais destinadas a divulgar para a sociedade a importância da bioeconomia, em um país que detém uma das maiores e mais ricas biodiversidades do mundo. A SNCT é um bom ponto de apoio, mas parece insuficiente para aprofundar o urgente debate nacional que tem sido ignorado e que envolve algumas escolhas cruciais, com desdobramentos decisivos para o futuro do Brasil.
Com as informações e evidências se acumulando em âmbito mundial nos últimos anos, a questão não é mais discutir se o País vai ingressar no novo ciclo econômico mundial que está em rápida evolução, mas, sim, como participará dele.
O processo de mudança vai se expandindo em muitas frentes. Está no grande movimento das montadoras de automóveis, que aceleram programas para substituir veículos movidos a combustíveis fósseis por veículos que usem energias alternativas; nas legislações cada vez mais restritivas para o trânsito nas grandes cidades mundiais, que procuram reduzir os níveis de emissão de CO2 na atmosfera; na preocupação crescente de populações e fabricantes empenhados em interromper o descarte do plástico das garrafas e de canudos de refrigerantes, das sacolas de supermercados ou das embalagens não retornáveis. Assim como se multiplicam os lançamentos de produtos “verdes” pelos mais variados tipos de indústrias. Como a da produção de alimentos, do vestuário, de calçados ou também brinquedos, onde um exemplo marcante é o da dinamarquesa Lego, que abriu uma linha verde para suas peças de montagem feitas agora com um biopolímero da Braskem.
A bioeconomia da União Europeia (UE) já gira em torno de 2,3 trilhões de euros, representando 8.2% da força de trabalho, um indicativo de sucesso à criação de empregos crescente dos produtores primários locais. Nas indústrias de base biológica, um milhão de novos empregos poderão ser criados até 2030, segundo estimativas recentes.
Um ecossistema de startups no setor de biotecnologia também mostra um grande potencial desse setor.Uma nota de imprensa da Comissão Europeia, editado em Bruxelas, em 11 de outubro de 2018, intitulado “Uma nova estratégia para a bioeconomia rumo a uma Europa sustentável”, ressalta que a UE já investe vultosas verbas em soluções sustentáveis, onde a bioeconomia tem destacada contribuição. Cerca de 3,85 bilhões de euros foi o montante de investimentos do programa atual Horizonte 2020. A meta é mais investimentos e a Comissão propôs atribuir 10 bilhões de euros ao programa Horizonte período 2021-2027.
Todos os países integrados à União Europeia mantêm hoje compromissos com a adoção de políticas públicas destinadas a estimular a substituição de insumos derivados de petróleo por matérias-primas renováveis ou biodegradáveis. Essa grande onda, cujo volume aumenta a cada ano, e exige muita pesquisa científica e tecnológica, tem várias faces, além da mais evidente, isto é assegurar boas condições de vida no planeta. Uma delas é que a decisão de compra de produtos, não apenas por consumidores locais, mas também por importadores do mercado internacional, será cada vez mais condicionada a essa exigência básica da bioeconomia. Na escolha entre dois produtos, um fabricado com insumos de origem fóssil e outro “verde”, não há dúvida sobre qual recairá a decisão. Em última instância, portanto, estamos falando de divisas, de empregos e da perda de competitividade no mercado internacional. Como estará esse cenário daqui a dez anos e qual será o lugar do Brasil nele?
As ações para que o País acelere o passo em direção à bioeconomia podem vir de várias esferas. O papel do governo é fundamental, como mostra a bem-sucedida iniciativa do programa nacional de biodiesel, lançado em 2004, que articula necessidades do mercado e de produtores com políticas de inclusão e pesquisa de recursos naturais. Hoje o Brasil é o segundo maior produtor mundial de biodiesel, aproximando-se do primeiro colocado, os Estados Unidos. Mas há uma carência evidente de políticas que articulem as diversas capacidades e, também, os interesses do consumidor. Registre-se, aliás, a recente formação de uma Frente Parlamentar da Bioeconomia, que é um avanço no âmbito do Legislativo. Mas falta empenho governamental, do parque industrial, da agroindústria e da universidade para colocar essa demanda entre as prioridades na agenda do País nas próximas décadas. No caso da universidade, há muito potencial a ser explorado, começando com a base qualificada de docentes e pesquisadores das várias disciplinas e formações que convergem para a mudança em direção à bioeconomia – entre elas, os egressos dos mais de 50 cursos de graduação em biotecnologia.
A bonita frase escolhida para tema da SNCT, “diversidade e riqueza para o desenvolvimento sustentável”, pode ser a senha para o início de um amplo e contínuo debate que resulte em ações efetivas. Louvável a SNCT de 2019 trazer temática tão atual para uma semana de debates num país megadiverso.
*O artigo expressa exclusivamente a opinião da autora