quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Artigo da nova edição da Ciência & Cultura discute como mudanças climáticas impactam ecossistemas e comunidades, enquanto a erosão da biodiversidade e da sociobiodiversidade enfraquece nossa capacidade de resposta
Vivemos uma era em que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais visíveis — ondas de calor extremas, elevação do nível do mar, secas prolongadas e eventos meteorológicos severos. No entanto, o aquecimento global é apenas uma parte de um problema muito mais amplo: a perda acelerada de biodiversidade e a erosão da sociobiodiversidade. Este último conceito engloba não apenas a variedade de espécies, mas também os modos de vida, saberes e práticas sustentáveis desenvolvidos por povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares ao longo de gerações. Isso é o que discute artigo da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “COP 30: Ciência, política e ação”.
A sociobiodiversidade expressa a coevolução entre a diversidade cultural e os ecossistemas em que as sociedades se desenvolvem. Ela é fundamental para a conservação da natureza, a segurança alimentar e a adaptação às mudanças do clima. As três grandes crises contemporâneas — climática, biológica e sociocultural — estão intimamente entrelaçadas. Quando ecossistemas são destruídos, perdem-se também os conhecimentos locais que garantem seu manejo sustentável; quando comunidades são deslocadas, comprometem-se os próprios mecanismos naturais de resiliência. Paradoxalmente, a biodiversidade e a sociobiodiversidade, muitas vezes vistas como vítimas da crise, são também parte essencial da solução: solos ricos em vida e manejados com saberes tradicionais armazenam mais carbono e retêm melhor a umidade; sistemas agroflorestais e práticas de cultivo tradicionais, como os quintais amazônicos e os roçados de coivara, aumentam a produtividade e a resistência às mudanças climáticas.
A preservação da sociobiodiversidade, portanto, não se resume à conservação de espécies, mas à valorização das relações humanas com o território. Florestas de várzea, manguezais, o Pantanal e outras zonas úmidas restauradas com o envolvimento das comunidades locais reduzem os impactos de cheias e tempestades. Unidades de conservação e terras indígenas atuam como verdadeiros refúgios climáticos e socioculturais, abrigando tanto espécies ameaçadas quanto modos de vida milenares. Essa integração entre natureza e sociedade só se fortalece por meio de uma ciência aberta, interdisciplinar e dialógica — capaz de unir pesquisadores, populações locais e gestores públicos na coprodução de conhecimento e na formulação de políticas mais eficazes e justas. A educação ambiental, a comunicação científica e a valorização das línguas e cosmologias tradicionais são, nesse processo, pontes fundamentais entre campo e cidade, tradição e inovação. “À medida que perdemos biodiversidade, perdemos também o conhecimento associado a ela”, alerta Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Unicamp e coordenador da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES).
Biodiversidade, sociobiodiversidade e mudanças climáticas são, em essência, partes de uma mesma equação planetária. Não há ação climática efetiva sem proteger a diversidade biológica e cultural que sustenta a vida. Enfrentar esses desafios de forma integrada e justa requer abandonar a lógica de que a natureza precisa apenas ser “protegida” e adotar uma visão regenerativa — na qual ecossistemas e comunidades sejam vistos como aliados na reconstrução do equilíbrio climático. Nesse novo paradigma, o futuro não é apenas sobre conter danos, mas sobre restaurar conexões: entre humanos e natureza, entre ciência e saberes tradicionais, entre economia e ética. “Sem justiça climática, a transição ecológica corre o risco de reproduzir desigualdades históricas”, enfatiza Carlos Joly.
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Ciência & Cultura