quarta-feira, 29 de abril de 2015
Com uma verba anual em torno de R$ 70 mil, parte do orçamento participativo do UFRJ, o Observatório contorna com dificuldades problemas de infraestrutura e reurbanização do terreno que ocupa, desde a década de 20
No coração da região portuária do Rio de Janeiro, área da cidade que atualmente concentra os projetos arquitetônicos de maior impacto urbano ao cenário carioca, o Observatório de Valongo (http://www.ov.ufrj.br/), apesar de estar praticamente eclipsado por prédios vizinhos, vem iluminando a pesquisa de astronomia no Brasil. Até 2009, brilhou sozinho no rol das instituições de ensino no Brasil a oferecer curso superior de graduação em Astronomia.
Desde sua criação, ainda como Observatório Astronômico da Escola Polytechnica, em 1881, por dr. Manuel Pereira Reis, a partir de uma dissidência de equipes do Observatório Nacional, formou 204 astrônomos, sendo 35 graduados com mestrado e 4, com doutorado. E atualmente desenvolve pesquisas em duas linhas que estão muito em voga no espaço científico mundial, destroços de galáxias e ocultação de estrelas.
O Observatório, que, desde 2002, mantém o status de unidade da UFRJ, sede do curso de graduação em Astronomia, acaba de inaugurar um programa de visitação pública. Em 10 de março deste ano, Valongo abriu suas portas ao público em geral, sendo que, duas vezes por mês, primeira e a terceira quarta-feira, é possível fazer uma observação do céu, com instrumentos, a partir do crepúsculo até 21h30.
As visitas podem ser feitas de segunda-feira a sexta-feira, entre 11h e 16h para grupos e indivíduos que queiram saber um pouco mais sobre a criação do Universo e mergulhar na História do Rio de Janeiro. Valongo abriga, por exemplo, o telescópio fabricado no Brasil em 1905, que também é o mais antigo em funcionamento em toda a América Latina, o Pazos.
Sob a direção do astrônomo Helio Jaques Rocha Pinto, graduado em Valongo, com mestrado e doutorado na USP e pós-doutorado nos EUA, onde iniciou suas pesquisas em destroços de galáxias, o Observatório de Valongo vem avançando alguns anos luz na formação de novos pesquisadores. Porém ainda esbarra na nebulosa da precariedade de infraestrutura e das verbas escassas.
Com uma verba anual em torno de R$ 70 mil, parte do orçamento participativo do UFRJ, o Observatório contorna com dificuldades problemas de infraestrutura e reurbanização do terreno que ocupa, desde a década de 20, onde havia a Chácara do Valongo. Neste local, antes da Abolição da Escravatura em 1888, eram deixados os escravos para serem vendidos.
“Abrir as portas do Observatório à população faz parte dos projetos de disseminar a importância da Astronomia e ainda apresentar ao carioca uma parte histórica da cidade. Um dos projetos que ainda não se concretizou pela insuficiência de verbas é a reforma de um muro de contenção do observatório, que faz parte do caminho que liga o Morro da Conceição aos Jardins Suspensos, recentemente reformados pela Prefeitura do Rio de Janeiro”, diz Rocha Pinto
O diretor de Valongo explica que o Observatório desenvolveu um projeto para ladrilhar esse muro com azulejos que ilustram a história do Morro da Conceição com gravuras no contexto da astronomia. O projeto ganhou verba da Faperj, no valor de R$ 100 mil, que foram suficientes apenas para a produção de 18 mil azulejos, pintados por crianças de escolas do Ensino Fundamental, sob a coordenação da artista plástica Laura Taves.
“Os azulejos estão prontos, mas, para que eles adornem o muro é preciso fazer uma obra de impermeabilização, o que custaria em torno de R$ 100 mil. Estamos em busca de um parceiro da iniciativa privada que abrace esse projeto”, conta o diretor, que contratou um astrônomo para cuidar exclusivamente das visitas guiadas, usando parte da verba que cabe ao Observatório anualmente.
Parcerias e pesquisas
Atualmente, Valongo conta com 13 astrônomos, a maioria é formada por professores, e recebe 5 astrônomos em regime de pós-doutorado (dois franceses, um grego, uma americana e um brasileiro). Esses trabalhos estão mais focados em galáxias espirais. Embora Valongo tenha pesquisadores envolvidos em duas linhas de pesquisa que têm atraído a atenção de astrônomos no mundo inteiro, destroços de galáxias e ocultação de estrelas, o Observatório também desenvolve pesquisas em astroquímica, planetas extra solares, nebulosas planetária e galáxias espirais.
Ainda que, no passado, a relação entre os pesquisadores do Observatório Nacional, hoje ligado ao MCTI (Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação), e a equipe do Observatório de Valongo tenha passado por momentos nebulosos, agora os pesquisadores desenvolvem projetos em linha de pesquisas iguais em um clima de cooperação. O diretor de Valongo lembra que recursos da Finep possibilitaram a participação de pesquisadores brasileiros no projeto SDSS III (The Sloan Digital Sky Survey). Rocha Pinto diz que isso foi fundamental para aprimorar as pesquisas desenvolvidas no Brasil, e em especial em Valongo, sobre destroços de galáxias.
“Esta busca por galáxias satélites favorece também outro cenário da cosmologia, que é tentar entender a formação do universo, utilizando o conceito de matéria escura fria”, comenta o diretor de Valongo.
Valongo também formou um astrônomo que vem brilhando no cenário internacional. Felipe Braga, que faz parte do programa de mestrado do Observatório Nacional. Ele desenvolve pesquisas em ocultação de estrelas e foi o descobridor do primeiro asteroide com anel (na verdade, dois anéis batizados de Oiapoque e Chuí) do Sistema Solar.
A história
Fundado por dr. Manuel Pereira Reis, ao lado do Convento de Santo Antônio, no Morro de Santo Antônio, em 1881, o Observatório do Valongo descende do antigo Observatório Astronômico da Escola Polytechnica. A motivação de criar Valongo foi instituir o ensino de Astronomia e Geodésia aos alunos da Escola Politécnica (Poli) e aos aspirantes da Escola da Marinha. Até 2009, quando a USP inaugurou a graduação em Astronomia, era a única instituição de ensino superior a formar astrônomos.
Desde 1907, o observatório abriga o Telescópio Refrator Cooke & Sons, equipado para fotografia astronômica, naquela época, o maior refrator do país. Em 1920, devido às necessidades de urbanização da cidade do Rio de Janeiro, o observatório ocupou o Morro do Valongo.
Em 1928, com o falecimento do então diretor Manuel Amoroso Costa, as (atividades no observatório entram em um processo de estagnação. As aulas passam a ser ministradas exclusivamente por um professor, o preparador-mor de astronomia Orozimbo do Nascimento, que faleceu em 1936. Foi então que a direção da Poli decide extinguir oficialmente a cátedra de astronomia e geodésia. Os anos seguintes são marcados pelo abandono das atividades em Valongo.
Em 1956, Mário Ferreira Dias e Alércio Moreira Gomes, astrônomos do Observatório Nacional, após divergências com a direção, sob a responsabilidade do matemático Lélio Gama, resolvem pedir transferência para o Observatório de Valongo. Dois anos mais tarde, recebem outro colega do Observatório Nacional, Luís Eduardo da Silva Machado.
Os três astrônomos criam, em 1958 o Curso de Graduação em Astronomia da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), do qual o Observatório do Valongo seria a sede das aulas práticas, como ocorreu no passado para os alunos da Poli. Com a reforma universitária de 1967, o Observatório foi incorporado à UFRJ como órgão suplementar do CCMN, ligado ao curso de graduação em Astronomia, do Instituto de Geociências (IGeo) dessa mesma universidade. Em 2002, o Observatório ganhou status de unidade da UFRJ, sede do curso de graduação em Astronomia.
Suzana Liskauskas/ Jornal da Ciência