domingo, 20 de setembro de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Grandes Temas

segunda-feira, 30 de março de 2026

Algoritmos, atenção e mercado

Plataformas digitais transformam canções em dados, reorganizam a economia do setor e redefinem a experiência estética na era da Inteligência Artificial. Leia na reportagem da nova edição da Ciência & Cultura

WhatsApp Image 2026-03-30 at 09.03.50A música segue ocupando um lugar central na vida cotidiana — como expressão artística, memória afetiva e identidade cultural. Mas, na era digital, o simples gesto de dar “play” em uma canção deixou de ser apenas uma experiência estética. Hoje, ele aciona um complexo sistema invisível, formado por algoritmos, análise de dados, mecanismos automatizados de direitos autorais e modelos de negócio baseados na chamada economia da atenção. Ouvir música, nesse contexto, também significa gerar informação — e participar de uma engrenagem tecnológica que reorganiza toda a cadeia produtiva do setor. Isso é o que discute reportagem da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “Música, Som e Ciência”.

Esse cenário reflete uma transformação mais ampla da indústria musical, que passou a operar como um ponto de convergência entre ciência, tecnologia, economia e cultura. Se, historicamente, as indústrias culturais já articulavam criatividade e mercado, as plataformas digitais elevaram essa relação a outro patamar, integrando produção simbólica e infraestrutura tecnológica em escala global. A música, nesse novo ambiente, não circula apenas como obra artística, mas também como dado, processado e distribuído por sistemas computacionais sofisticados.

Um dos efeitos mais visíveis dessa mudança é a segmentação do público. Segundo Alexei de Queiroz, professor da Faculdade de Música da Universidade de Brasília (UnB), o mercado atual se distancia do modelo massivo do rádio e se aproxima da lógica das redes sociais. “Hoje a característica do mercado não é atingir todo mundo, como na era do rádio, mas uma parcela muito específica do público, segmentada”, afirma. Essa segmentação é viabilizada por algoritmos de recomendação, que analisam padrões de comportamento a partir de cada interação do usuário — seja ouvir uma música até o fim, pular nos primeiros segundos ou adicioná-la a uma playlist.

Nesse processo, a escuta se transforma em dado. Cada clique alimenta modelos matemáticos capazes de prever preferências e direcionar conteúdos personalizados. Para José Augusto Manni, professor do Instituto de Artes da Unicamp, essa mediação tecnológica altera inclusive a forma como ouvimos música. “A escuta deixou de ser um momento concentrado para se tornar uma prática dispersa, integrada a outras atividades do cotidiano”, afirma. Segundo ele, essa mudança já impacta a própria criação musical, com canções mais curtas, introduções reduzidas e refrões antecipados — estratégias pensadas para capturar a atenção em poucos segundos.

Embora as tecnologias digitais tenham ampliado o acesso e facilitado a distribuição global de músicas, o cenário está longe de ser totalmente democrático. Persistem desigualdades no acesso a dados, recursos e visibilidade, além de questionamentos sobre a transparência dos algoritmos e os vieses nos sistemas de recomendação. O paradoxo é evidente: nunca foi tão fácil produzir e divulgar música, mas também nunca foi tão difícil entender os mecanismos que determinam o que será ouvido. Por trás das playlists e sugestões automáticas, operam sistemas que não apenas distribuem canções, mas também redefinem o valor, a circulação e a própria experiência da música no mundo contemporâneo.

Leia a reportagem completa:

https://revistacienciaecultura.org.br/?p=9932

Ciência & Cultura