quinta-feira, 9 de abril de 2026
O patrimônio genético brasileiro é um dos maiores do planeta, e está sendo destruído mais rapidamente do que é mapeado, com efeitos na soberania nacional. Baixe gratuitamente a nova edição do Jornal da Ciência Especial
O Brasil tem o hábito de subestimar o que possui. Em biodiversidade, esse hábito pode custar caro — e não apenas no sentido ecológico. A perda de ecossistemas é frequentemente tratada como um problema ambiental, separado das questões econômicas e estratégicas. A ciência discorda.
Até mesmo a rota de descarbonização que o Brasil escolheu depende da integridade dos sistemas naturais. Energia eólica depende de circulação atmosférica. Hidrelétricas dependem de chuva caindo no lugar certo, na hora certa. Bioenergia depende de um solo vivo e de uma agricultura que ainda tem diversidade genética para se adaptar. Quando uma floresta é degradada ou uma bacia hidrográfica é deteriorada, o dano não se restringe ao bioma, mas reverbera na matriz energética, na segurança alimentar, na capacidade do país de produzir de forma autossuficiente.
“É como se a gente estivesse contando os livros enquanto a biblioteca está queimando”, diz Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB). A frase vem de um artigo científico que a marcou, mas Bustamante a repete porque continua precisa: o Brasil abriga quase 45 mil espécies de plantas catalogadas, uma fauna de vertebrados sem paralelo nos trópicos e um universo de microrganismos no solo cuja extensão ainda mal se conhece. Muitos desses capítulos nunca foram abertos. Alguns já foram destruídos antes de receber um nome.
Numa das áreas úmidas do Cerrado, um grupo de botânicos encontrou recentemente uma espécie nova de planta (Bacopa bustamanteana) e a batizou em homenagem à própria Bustamante — motivo de orgulho e, simultaneamente, de angústia, porque a espécie já nasceu ameaçada. As veredas onde ela cresce estão secando.
Ela conta que a destruição é rápida, a recuperação é lenta, e os instrumentos de conservação e restauração caminham num ritmo que não acompanha a degradação. Há um descompasso temporal embutido em qualquer política ambiental — e a sociedade, em geral, ainda não internalizou isso. As pessoas entendem que conservar é importante. O que não fica claro é que o tempo importa tanto quanto a decisão em si. Agir daqui a dez anos, se a janela se fechar antes, não vai resolver. “A gente não tem mais 30 anos para uma tomada de decisão”, resume.
“Não é um trabalho de convencimento, é um trabalho de esclarecimento — as pessoas munidas dos fatos se convencem naturalmente de que as perdas seriam muito maiores em não conservar do que em conservar”, diz a cientista.
É para enfrentar esse problema que foi criado o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade Genômica Brasileira — um dos esforços organizados no país para conhecer, de fato, o que se tem. Ana Tereza Vasconcelos, pesquisadora do Laboratório de Bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e diretora da SBPC, é uma das integrantes do instituto.
O objetivo é sequenciar o genoma de centenas de espécies distribuídas pelos cinco biomas brasileiros — mamíferos, aves, plantas, fungos e outros microrganismos do solo. Para isso, o LNCC oferece supercomputadores que lidam com o enorme volume de informação gerado pelo sequenciamento em larga escala.
O gargalo, porém, está no custo dos insumos para fazer o sequenciamento genético. O recurso disponível, diz Vasconcelos, “não chega nem a um décimo, a um centésimo do que seria necessário para a gente ter um panorama geral da nossa biodiversidade — é um trabalho que tem que ser feito, que está sendo começado, e que tem que ser continuado durante muitos anos.”
Mas há um problema que antecede até o sequenciamento. Para sequenciar, é preciso coletar. Para coletar com rigor, identificar corretamente e dar sentido ao que foi encontrado, é preciso haver taxonomistas — especialistas que descrevem espécies, constroem as chaves de identificação, mantêm as coleções biológicas. E o Brasil está perdendo essa turma em ritmo preocupante. A área foi ficando menos atraente nas universidades, eclipsada pelas abordagens computacionais e moleculares, pela sedução dos modelos e das ferramentas de alto rendimento. O resultado é um apagão silencioso: menos gente capaz de fazer o trabalho lento, de campo, de lupa e pinça, que sustenta toda a cadeia de conhecimento.
Existem aplicativos hoje que identificam plantas por foto com razoável precisão — e são úteis, dentro de seus limites. Mas nenhum algoritmo treinado em fotos existentes vai reconhecer uma espécie que ainda não foi descrita. E é exatamente nessa fronteira que as descobertas mais valiosas costumam estar. O genoma do papagaio-amazônico (Amazona aestiva), por exemplo, revelou ao grupo de Vasconcelos genes ligados ao neurodesenvolvimento e à longevidade que têm paralelos diretos no genoma humano. Ninguém encomendou essa descoberta. Ela emergiu do sequenciamento de uma ave que existe aqui, que fala (à sua maneira), e que aguardava alguém com curiosidade suficiente para olhar dentro dela.
“Eu gosto de pensar nos produtos biotecnológicos que a gente vai conseguir por meio da nossa flora — as plantas podem produzir coisas que a gente ainda não conhece e que podem ter um impacto direto na produção de novas drogas, de novos medicamentos”, diz a pesquisadora.
Tudo isso — cosméticos, tecnologias de biorremediação, compostos com ação farmacológica ainda desconhecida — pode estar embutido em espécies que ainda não têm nome registrado na literatura científica. A questão é que, sem taxonomistas, não chegamos a elas. Sem coleções biológicas bem mantidas (que não são arquivos do passado, mas instrumentos de pesquisa futura), perdemos a referência para comparar.
Uma proposta, diz Bustamante, é criar cursos técnicos de parataxonomia. Uma versão contemporânea e valorizada do antigo mateiro que acompanhava as expedições científicas, alguém que sabe identificar espécies em campo, que conhece a flora e a fauna local, que funciona como interface entre o ecossistema e o laboratório. “A primeira questão começa em dar um nome para uma espécie. E a gente vai perdendo esse conhecimento”, diz ela. Dar um nome a uma coisa é o primeiro ato de tomar posse dela — intelectualmente, culturalmente, cientificamente. O genoma do papagaio-amazônico revelou genes ligados ao neurodesenvolvimento e à longevidade com paralelos diretos no genoma humano. condições controladas e são ferramentas importantes, mas congelam um momento. O quintal agroflorestal é um processo vivo: as variedades convivem, cruzam, se adaptam, são continuamente selecionadas por quem as cultiva.
Grande parte da biodiversidade brasileira que a ciência está agora começando a mapear foi construída, manejada e transmitida ao longo de séculos por povos indígenas e comunidades tradicionais. Pesquisas recentes mostram que trechos inteiros da Amazônia que parecem mata primária intocada são, na verdade, jardins de longa data — resultado de séculos de manejo humano cuidadoso que organizou a distribuição das espécies, selecionou variedades e moldou a paisagem que hoje chamamos de floresta.
Esse trabalho acumulado está gravado, entre outros lugares, nos quintais agroflorestais. Essas áreas cultivadas próximas às habitações concentram uma diversidade de espécies (variedades locais de frutas, tubérculos, plantas medicinais) que nenhum banco de germoplasma (o material genético de um organismo, como sementes, pólen ou tecidos vegetais, que carrega sua informação hereditária) consegue replicar com fidelidade.
O mesmo vale para os sistemas de conhecimento sobre plantas medicinais, ciclos de floração e comportamento de animais — saberes que não estão escritos em nenhum lugar além da memória de quem os detém. Perder as comunidades que os guardam, seja por pressão econômica, deslocamento forçado ou simples aculturação, é perder partes da biblioteca que não têm cópia em nenhum servidor do mundo.
A boa notícia é que há esforços sérios em curso, pessoas competentes trabalhando e uma infraestrutura científica que, se devidamente financiada e articulada, tem condições de mudar o ritmo dessa história. A má notícia é que o tempo, como Bustamante insiste em lembrar, não é um recurso renovável.
Gabriel Alves – Jornal da Ciência