sexta-feira, 1 de maio de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Grandes Temas

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Sul Global tem que conquistar seu espaço na ciência mundial, afirma Marcelo Knobel

Diretor-executivo da TWAS, físico fala ao Jornal da Ciência sobre os resultados da conferência sediada no Rio de Janeiro nesta semana e os caminhos para ciência, sustentabilidade e inovação em escala global

A cidade do Rio de Janeiro recebeu, de 29 de setembro a 2 de outubro, a 17ª Conferência Geral da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Pela terceira vez no Brasil, o encontro realizado em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) reuniu mais de 300 lideranças científicas de 64 países do Sul Global para debater como a ciência, tecnologia e a inovação desenvolvidas na região podem colaborar para construir um futuro sustentável.

À frente da organização do evento, que pela terceira vez é sediado no Brasil, esteve Marcelo Knobel — físico, membro da Academia Brasileira de Ciências, ex-reitor da Unicamp, ex-conselheiro da SBPC e referência em divulgação científica no Brasil. Desde dezembro de 2024, Knobel é o diretor-executivo da TWAS, sediada em Trieste, na Itália. Ele é o primeiro brasileiro a ocupar este cargo na organização, que já foi presidida por Israel Vargas e Jacob Palis. Em conversa com o Jornal da Ciência, falou sobre seu primeiro ano na instituição, os resultados da conferência, o papel que o País pode ter na região e os rumos da cooperação científica no Sul Global. “O Brasil é uma liderança nessa região e deve manter essa liderança de uma maneira muito efetiva, promovendo a ciência, promovendo esse intercâmbio”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista:

JORNAL DA CIÊNCIA – Você está prestes a completar seu primeiro ano como diretor-executivo da TWAS. Que balanço faz desse período, especialmente neste cenário de mudanças nos eixos do poder científico mundial?

MARCELO KNOBEL – A experiência está sendo muito positiva e interessante. Estou aprendendo muito. Não só sobre a organização, mas também sobre as grandes organizações, porque a gente é de fato um escritório da UNESCO, na área de ciências. Então, aprender como a UNESCO funciona, como essas grandes agências trabalham tem sido uma experiência muito interessante do ponto de vista pessoal, de aprendizado. E ao mesmo tempo, tentando melhorar as coisas, como sempre. A gente vai para algum lugar, tenta trazer novidades em termos de programas e de funcionamento.

O primeiro ano foi de conhecimento, diagnóstico e um pouco de mudanças internas em no que se diz respeito a processos, do funcionamento da própria organização. Durante esse período já tivemos o planejamento estratégico para os próximos cinco anos e a organização dessa conferência também.

Então, foi tudo muito intenso, digamos assim, mas com muito aprendizado. O desafio, como sempre, é fazer com que a TWAS consiga os recursos – que não vêm da UNESCO, embora sejamos uma organização da UNESCO – para manter a sua missão, que, no nosso caso, é o desenvolvimento da ciência no Sul Global.

JC- O evento desta semana reuniu quase 300 participantes de 64 países do Sul Global, discutindo temas como o uso responsável da inteligência artificial para soberania e sustentabilidade, e os impactos das mudanças climáticas sobre países mais vulneráveis. Qual avaliação você faz dessa conferência e de seus resultados, impactos?

WhatsApp Image 2025-10-03 at 14.14.19MK – O que é importante é a gente colocar essas 300 pessoas para conversar. Discussões, palestras, hoje em dia, a gente vê online, pode fazer webinários, mas o que que vale mesmo é o encontro nos almoços, nos coffee breaks, é a possibilidade de criar novas parcerias, novas colaborações e realmente mostrar – e acho que o tom da conversa foi essa – que o Sul Global, os países em desenvolvimento têm, cada vez mais, uma importância maior na ciência do mundo e que a gente deve conquistar esse espaço de fato, ser mais proativo na participação, com editores, em conselhos, em todas as atividades que acabam sendo quem dirigem as agendas da ciência no mundo. Então, acho que esse é o principal recado que permeou as discussões.

JC- Estamos assistindo à China, país-membro da TWAS, despontando como potência científica global, enquanto os EUA vivem tensões com políticas anticiência. Como você enxerga esse reposicionamento geopolítico e de que forma a TWAS pode contribuir para ampliar a cooperação científica em benefício do Sul Global?

MK – Essa é uma tendência que tem ocorrido, mas como se sabe, não aconteceu de um dia para o outro. Acaba sendo um esforço contínuo desses países em capacitação. O próprio Brasil tem atuado nesse aspecto, com o CNPq, a CAPES, a FAPESP e tantas outras fundações, no sentido de formar gerações e gerações de mestres, doutores, pessoas com capacidade para realizar ciência de qualidade no mundo. E isso aconteceu em diversos países em desenvolvimento e, com isso, a consequência está aparecendo cada vez mais clara agora.

E a TWAS tem um papel nisso também: ela contribuiu para fazer intercâmbios, formação de pesquisadores, principalmente em países menos desenvolvidos. E esses países também saíram do zero, às vezes ainda de maneira muito tímida.

Cabe a nós, na minha opinião, continuar fazendo cada vez mais e melhor aquilo que é a própria missão da TWAS, que é fortalecer o intercâmbio Sul-Sul, a pesquisa do Sul Global, lutar contra a fuga de cérebros e por todas as possibilidades de manter os pesquisadores trabalhando em suas regiões, em seus países.

JC- Esta é a terceira conferência da TWAS sediada no Brasil, a TWAS também já teve três presidentes brasileiros, e agora você é o primeiro diretor-executivo daqui. Na sua avaliação, qual é o papel que o Brasil pode desempenhar no Sul Global?

MK – Sem dúvida alguma, nós temos um papel absolutamente essencial na ciência, não só no Sul Global, mas principalmente na América Latina e no Caribe. O Brasil é uma liderança nessa região e deve manter essa liderança de uma maneira muito efetiva, promovendo a ciência, promovendo esse intercâmbio. Aqui, nesse evento, o governo brasileiro deu um show, porque mostrou para o mundo que realmente apoiou essa conferência, conseguiu realmente mostrar uma qualidade incrível nesta questão. Sempre dá para fazer mais? Sempre dá para fazer mais. Hoje vemos muitas instituições com bastante dificuldades financeiras, o que não pode ocorrer em um país como o Brasil.

Ou seja, a ciência – é um clichê, mas é uma realidade – não é um gasto, é um investimento. E o país deve mostrar isso: ser realmente referência na América Latina e no Caribe, e já será muito bem representado no mundo. Isso tem acontecido com altos e baixos. Agora, estamos num momento importante, com a aproximação da COP 30, em Belém, onde tem toda essa discussão sobre o meio ambiente, mas sem dúvida não podemos deixar a peteca cair. Precisamos de uma Política de Estado e não de governo. Não é algo fácil de fazer, mas é assim que a gente tem que fazer, com resiliência, batendo na mesma tecla, engajando mais a sociedade com o papel e a importância da ciência para o desenvolvimento.

JC – Você tem uma longa trajetória ligada à divulgação científica e ao engajamento público com a ciência. Em um cenário de negacionismo, polarização política e desinformação, como a TWAS pode contribuir para fortalecer a confiança da sociedade na ciência e ampliar o diálogo entre cientistas e cidadãos no Sul Global?

MK – É muito difícil pelo seguinte motivo: fazer ciência já é caro e difícil. Divulgação bem-feita também exige um profissionalismo, uma dedicação e é muito difícil conseguir um investidor que queira patrocinar essas atividades. É muito fácil – fácil entre aspas – conseguir governos que paguem por bolsas, por projetos, por grants, etc. Mas para divulgação da ciência, é muito difícil conseguir emplacar um projeto.

O que nós temos aqui é uma rede muito forte. Uma rede de pessoas que podem contribuir para esse movimento e eu acho que, dentro dessa rede, nosso principal benefício é que nós temos muitas histórias boas, de muita gente interessante, para contar. É o storytelling, conectar a pessoa com a ciência e a história de vida, a resistência, a resiliência…é muito importante. Então, eu estou pensando em alguns projetos nessa área, mas certamente tenho que encontrar alguém que tope contribuir para que essas histórias venham à luz. Fizemos um convênio com a Fundação Conrado Wessel, vamos lançar um prêmio de Ciência e Fotografia sobre mudanças climáticas, o “Through Southern Lenses: Science in Focus”. Todas as ações são importantes, mas não é trivial encontrar financiamento para isso.

Daniela Klebis – Jornal da Ciência